OPINIÃO

Cada dia conta

A doença é um pouco mais frequente em homens do que em mulheres, com predomínio duas vezes maior em indivíduos negros do que em brancos.

02/08/2017 12:46 -03 | Atualizado 02/08/2017 12:46 -03
TNS via Getty Images
O mieloma múltiplo é um tipo raro de câncer na medula óssea.

Pela primeira vez no Brasil uma campanha nacional tenta jogar luz sobre uma doença insidiosa e ainda pouco conhecida até mesmo por profissionais de saúde: o mieloma múltiplo. O objeto do alerta "Cada Dia Conta" é um câncer causado pelo aumento descontrolado das células conhecidas como plasmócitos, que infiltram a medula óssea.

Corresponde a 1% de todos os tipos de câncer, entre 10% e 15% das neoplasias hematológicas e tem causa desconhecida. Nos Estados Unidos, mais de 20 mil novos casos são diagnosticados a cada ano. Por aqui, não há estatísticas confiáveis, mas estima-se, pelo menos, 7.600 novas ocorrências por ano.

Não são apenas números confiáveis que faltam no cenário nacional da saúde para lidar com o mieloma. Há carências de informação, de pesquisas, de leitos para transplante autólogo de medula (uma das terapias possíveis), de acesso universal aos exames e aos medicamentos para pacientes da rede pública e de agilidade na liberação de drogas importantes para o tratamento.

Um exemplo é a lenalidomida: aprovada nos Estados Unidos há dez anos, esse imunomodulador está na primeira linha de tratamento do mieloma na maioria dos países do mundo, enquanto aqui aguarda aprovação da Anvisa.

O desconhecimento sobre a gravidade da doença parece ser a única causa plausível para essa desatenção. De que outro modo entender o baixo interesse das autoridades de saúde e órgãos correlatos diante de um mal ainda sem cura e que traz como perspectiva uma sobrevida média de quatro a seis anos?

A invisibilidade do mieloma pode estar ligada também a fatores culturais Ele atinge, principalmente, a população idosa, que o senso comum ainda associa a uma saúde debilitada. Nos Estados Unidos, 67 anos é a idade média dos pacientes quando do diagnóstico, e apenas 2% apresentam idade inferior a 40 anos.

Aqui, não é diferente: um estudo do Grupo Brasileiro de Mieloma identificou que os brasileiros com mieloma múltiplo são diagnosticados por volta dos 60 anos. A doença é um pouco mais frequente em homens do que em mulheres, com predomínio duas vezes maior em indivíduos negros do que em brancos.

Tornar o mieloma conhecido da população e dos médicos faz diferença também na hora do diagnóstico. É que os primeiros sintomas desse câncer são difusos e, se nem médico nem paciente atentarem para o risco, perde-se um tempo valioso para a qualidade e o tempo de vida dos pacientes.

Os sintomas clínicos mais comuns são cansaço e dores ósseas. Aproximadamente 75% apresenta anemia ao diagnóstico, o que explica a fadiga. Lesões ósseas podem ser detectadas em 80% dos casos, com fraturas frequentes, principalmente na coluna vertebral. Isto torna as dores nas costas uma das principais queixas.

Outros achados comuns ao diagnóstico incluem hipercalcemia - elevado volume de cálcio no sangue - (20%) e aumento da creatinina (20%), caracterizando uma insuficiência renal.

Exames simples e de baixo custo, como a eletroforese de proteínas no sangue ou na urina identificam o problema em 82% dos casos. Outros, como imunofixação e dosagem de cadeias leves livres, apresentam até 97% de precisão, mas a comprovação final depende de exame de medula óssea para verificar se há aumento de plasmócitos, as células do mieloma.

Quimioterapia, transplante autólogo e drogas que atuam sobre o sistema imune são alguns recursos disponíveis para retardar a evolução da doença e dos seus efeitos deletérios sobre o organismo. Mas o primeiro passo ainda é conhecer o mieloma e ser capaz de diagnosticá-lo logo e combatê-lo com rapidez. Nessa luta, pode acreditar, cada dia conta.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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