OPINIÃO

Parto normal ou anormal?

06/02/2015 14:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
derekmswanson/Flickr
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Minha primeira filha nasceu de parto normal, que de normal mesmo, teve muito pouco. Ela nasceu bem e saudável, eu tive uma ótima recuperação e também fui bem acolhida pela equipe médica, mas o que poderia ter transcorrido de forma mais natural foi uma sucessão de intervenções. Na época aquilo me pareceu o correto, mas quando da minha segunda gestação, lendo, pesquisando e trocando experiências com outras mulheres, vi que poderia ter tido uma experiência bem diferente e algo mais próximo da minha expectativa, que era ter uma participação mais ativa durante o parto.

É curioso como se fala tanto hoje em dia da questão do abuso no número de cesarianas, mas acredito que a discussão maior a ser trazida à tona é a excessiva medicalização do parto que ocorre no Brasil. Isso se denota no percentual elevado de cesarianas, mas também nos inúmeros procedimentos envolvendo os partos normais. Como mulheres, não sabemos mais como parir. O parto é agora um acontecimento médico, do qual a mulher é mera coadjuvante.

E daquilo que desconhecemos, temos medo. Medo da dor parto. Sem nem bem entender que dor é essa. Posso suportá-la ou não? Melhor nem saber, dizem algumas. Respeito a decisão de cada uma, mas a algumas mulheres nem é dada a opção. Elas são dadas como frágeis e impotentes e por fim, acabam por aceitar a condição.

Na minha segunda gestação, queria entender que dor é essa, me conectar com essa sabedoria mais profunda do meu próprio corpo, confiar na minha própria capacidade de gerar um bebê. Quando eu e meu marido falávamos com amigos e familiares dessa nossa intenção de ter um parto natural, alguns já olhavam torto, outros achavam a ideia uma maluquice, que logo mais seria descartada. Outros ainda, já disseminavam o terror, falando dos riscos enormes, sem mal saber que riscos eram esses. Em um país como o Brasil em que 8 entre cada 10 mulheres têm partos por meio de cesariana não é estranho mesmo que um parto natural seja visto como anormal.

Riscos todo parto tem e é importante estar ciente deles. Quem fala dos riscos da cesariana? As mulheres tendem a ver a cesariana como a opção mais segura, quando na verdade, a probabilidade de uma grávida morrer numa cesariana é quase quatro vezes maior que num parto normal. Para o bebê também há o risco de nascimento prematuro. Então porque se fazem tantas?

Do ponto de vista dos médicos, além da comodidade nos agendamentos, me parece que há também toda uma questão cultural no Brasil envolvendo a prática de cesarianas. Para a grande maioria dos médicos esse parece ser realmente o procedimento mais fácil e seguro. Bom, se eu fosse médico e cerca de 90% dos meus partos fossem cesariana, você acha que é preciso perguntar que tipo de procedimento eu me sentiria mais seguro em fazer?

Do ponto de vista da mulher o que parece importar mesmo é a questão da dor. O medo da dor do parto é o principal motivo de opção por cesárea, segundo um estudo recente da Fiocruz. Esse dado parece já mostrar claramente o quanto a mulher carece de informação sobre o parto e as dores associadas a ele.

Anestesia é feita na cesariana, mas também pode ser feita num parto normal. Geralmente as contrações iniciais, quando a mulher está no início da dilatação, trazem uma dorzinha suave e só quando o trabalho de parto vai avançando é que a dor fica mais intensa e com maior duração. Se a mulher não quer sentir a dor mais aguda, que vem na fase final; e deseja tomar uma anestesia, pode optar por isso no parto normal. Muitas mulheres pensam que a dor do parto começa de forma imediata, mas o trabalho de parto como um todo pode levar diversas horas e os estágios iniciais podem ser bem tranquilos.

Nesse sentido, os filmes não aparecem ajudar nem um pouco. Me cansei de ver cenas em que uma gestante começa repentinamente a sentir dores e tem de sair correndo e aos gritos para a maternidade. Daí talvez o medo de algumas mulheres nem quererem experimentar essas sensações iniciais das contrações, já antecipando que não poderão lidar com essa dor.

Há várias técnicas para amenizar as dores que vem ao longo do trabalho de parto, mas em geral, a mulher recebe muito pouco amparo nesse sentido nas maternidades, ao menos que tenham uma doula as acompanhando ou uma equipe preparada para fazer um parto humanizado. Caminhar, movimentar-se, é uma delas, mas em muitos casos, quando a gestante chega à maternidade já é conduzida a uma maca onde ficará deitada. Poucas gestantes têm a opção de ficar livre para escolher diferentes posições durante o parto e uma das causas principais de dor desnecessária no parto é ficar a maior parte do tempo deitada, posição que para a maioria é justamente a mais dolorosa. Deitar de lado, ficar de joelhos, de cócoras? "Você é índia, por acaso?" foi o comentário que uma amiga ouviu de seu médico durante o parto.

Tomar banho ou ficar numa banheira também reduz enormemente a dor, mas quantas gestantes tem essa facilidade disponível em seu trabalho de parto? E quanto aos trabalhos de parto que demoram a avançar? É mais fácil tomar logo ocitocina sintética para acelerar o processo. E aí as contrações chegam ainda mais fortes e dolorosas. Quem consegue ficar sem anestesia depois de tudo isso? As intervenções não terminam por aí. Com anestesia, e desprovida da capacidade de sentir as contrações, a mulher não sabe mais quando fazer força e o médico é então quem tem que comandar o processo. Em alguns casos, a mulher tem a sua barriga empurrada para ajudar o bebê sair. Daí, tamanha a força exercida, fica mais garantido fazer uma episiotomia (corte na região do períneo) para facilitar a saída do bebê e evitar alguma laceração.

Dentro desse contexto, a gravidez parece assumir uma condição patológica e não um processo natural. Meu primeiro trabalho de parto foi assim. Normal, mas não tão normal assim. Houve dor? Sim, mas depois com a anestesia ela cessou. Se tudo ao final transcorreu bem e eu não passei pela dor mais aguda do trabalho de parto, por que preferiria que tivesse sido diferente? Por que iria preferir um parto natural, sem anestesia, com o mínimo de intervenções? Por que sofrer desnecessariamente quando temos a disposição medicamentos para facilitar o parto e torná-lo mais rápido e indolor? "Nossa, dizem que a dor do parto é uma das piores que tem. Você vai querer mesmo passar por tudo isso?", era algum dos comentários que eu ouvia. Mas a dor do parto não me parecia como a dor de uma enfermidade, e sim como tantas outras dores que às vezes a gente passa na vida, físicas ou emocionais. Dores que nos transformam, nos fazem mais fortes, mais vivos.

Além de saber que um parto natural poderia ser o melhor para meu bebê e que me proporcionaria uma recuperação pós-parto muito mais rápida, optar por um parto natural era afirmar a minha capacidade como mulher, era receber a gestação como uma oportunidade de entrega e autoconhecimento. Se alguma dificuldade aparecesse no caminho, poderia fazer uso dos recursos médicos e tecnologia disponível, mas sabendo que havia dado meu melhor, que essa seria minha escolha.

Entre os que compartilhávamos nossa decisão, havia também os que admiravam a nossa coragem. Sim, é preciso coragem. Não pelo fato de querer fazer um parto com o mínimo de intervenções, mas principalmente por ser tão difícil encontrar médicos que suportem essa decisão. Se hoje em dia encontrar um médico realmente disposto a fazer um parto normal e com experiência nesse tipo de parto, já é difícil, imagine para um parto natural. Foi uma longa jornada e eu e meu marido conversamos com diversas parteiras e médicos. Por fim, decidimos por fazer o parto com duas parteiras em casa, além de contar com o apoio de uma médica, que sabia da minha decisão, tinha experiência nesse tipo de parto e fez o acompanhamento da minha gestação, juntamente com a parteira.

Nosso bebê veio ao mundo de forma muita tranquila e nasceu na banheira da nossa casa. Durante o trabalho de parto me movimentei livremente, recebi massagem, caminhei, fui ao chuveiro e depois para a banheira. Tudo transcorreu de forma natural, sem pressa, com profundo acolhimento. Se doeu? Muito. Mas foi uma dor diferente, não uma dor que eu queria evitar, como uma dor de sofrimento. A cada contração eu e meu bebê travávamos uma conversa silenciosa. A dor chegava, mas as invés de querer fugir dela, eu a recebia, sabendo que chegava mais perto de ver meu bebê. Todos os pequenos anseios do passado se esvaneceram. "Será que na hora saberia o que tinha de ser feito?" As parteiras e meu marido me apoiavam e me motivavam a seguir forte, mas naquele instante não havia dúvida nenhuma do que ser feito, como se meu corpo já soubesse tudo aquilo desde o princípio. Pulsando, em sintonia com uma inteligência que já me era inerente.

Depois de um tempo, meu marido entrou na banheira e na fase final do trabalho de parto ficou me segurando na posição de cócoras, quando eu parecia não ter mais forças. Quando a cabecinha do bebê despontou, pude senti-la com as minhas mãos e pegá-lo ao sair. Ali mesmo o limpamos e ainda ligados pelo cordão umbilical fomos para a cama. Ficamos juntinhos longos minutos, até o cordão umbilical deixar de pulsar. Meu marido cortou o cordão e depois ficou com o filhinho no colo, curtindo os primeiros minutos juntos. Mais tarde veio nossa filha, que até então dormia, e ficamos todos ali na nossa cama.

Após 7 horas de trabalho intenso eu estava exausta, mas não sentia mais nenhuma dor. Tomei banho, fiz uma refeição, descansei um pouco e logo depois já podia fazer pequenas caminhadas dentro de casa. A exaustão parecia então dar lugar a outros sentimentos. E esses transbordavam nas minhas palavras, no meu olhar, no meu corpo sustentando por uma vitalidade inesperada, em meio ao maravilhamento de ser mãe. Uma voz dentro de mim parecia dizer "Você é mais forte do que pensava. Sim, você pode."

E hoje, enquanto escrevo esse relato a voz parece ainda ecoar. Esse sentimento desejo a todas as mães. Essa profunda conexão com seu corpo, com seu bebê e poder reconhecer dentro de si a força que existe em cada mulher.

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