OPINIÃO

Você, seu trabalho e as organizações-caravela

Este pe o desenho do futuro das organizações: Sistemas abertos, mas, ao mesmo tempo, centrados em desafios claros e compartilhados.

18/08/2017 17:02 -03 | Atualizado 18/08/2017 17:02 -03
FangXiaNuo via Getty Images
Nos novos modelos, os resultados serão divididos entre quem de fato contribuiu para que fossem atingidos.

Diante de um futuro em radical transformação, não faz nenhum sentido pensar que as organizações e o emprego continuarão tal como hoje. Vai haver mudança e das grandes.

Você já se perguntou como serão as empresas dos próximos 15 anos? Quem trabalhará nelas? Como serão as relações entre elas e seus trabalhadores? A remuneração? A meritocracia, tão exaltada atualmente pelas empresas vencedoras? E o mais intrigante: o engajamento. Será possível a existência de organizações sem vínculos claros?

Caberá a cada um de nós a escolha entre queixar-se da redução do número de vagas ou abraçar um futuro cujos prenúncios já estão bem vívidos. A febre das startups, por exemplo, e a energia que grandes empresas investem em tentar acompanhar - mesmo que de maneira atabalhoada - esse movimento é um dos indicadores mais claros da transformação a caminho.

Pensando nisso, nos vem sempre à mente uma experiência que vivemos há quatro anos, e que nos abriu os olhos para uma nova possível realidade do mundo do trabalho.

Foi em 2014, antes da Copa do Mundo no Brasil. Uma empresa, nossa cliente em consultoria, precisava desenvolver aplicativos para celular, em diversos idiomas, que pudessem ser ofertados aos estrangeiros que viriam para os jogos. O problema era que o projeto estava atrasado, ao bom estilo brasileiro de deixar para a última hora.

A solução seria contratar cerca de 50 desenvolvedores adicionais. Nossa proposta alternativa foi estruturar, em quinze dias, um processo de inovação aberta que atraísse pequenas empresas, universidades e hackers.

Haveria prêmios em dinheiro e participação nos resultados para quem desenvolvesse e entregasse em tempo o que a empresa precisava. Houve forte oposição, como sempre: "Isso não vai funcionar"; "Vamos ter que gastar com divulgação", etc. Ao final, porém, nossa proposta foi aceita, mais por desespero do que por convicção.

Estruturamos o processo e obtivemos resultados fabulosos. Jovens hackers, professores universitários e alunos, pequenas empresas, braços de grandes empresas, desempregados especialistas, tudo junto e misturado, puseram-se imediatamente a trabalhar, cheios de energia e motivados pela perspectiva de tornarem-se fornecedores e "sócios" de uma grande empresa.

A divulgação? Nossa! Esse ponto espantou até a nós mesmos. Em uma verdadeira epidemia viral, alguém que ficava sabendo do concurso mandava o edital a um colega, que por sua vez enviava ao professor, que avisava a empresa para a qual dava consultoria e assim por diante. Foram mais de dois mil acessos nas primeiras três semanas.

Resultado: entre centenas de projetos enviados, mais de quarenta foram selecionados. Coisas incríveis. Cinco foram escolhidos e acelerados. Problema da empresa resolvido.

Motivados ao extremo, aqueles profissionais trabalharam de maneira totalmente diferente do que se fossem funcionários cientes da demissão certa ao final daquele período de sobrecarga. Os competidores trabalharam sábados e domingos, em alta velocidade e produtividade, superengajados. Não com a empresa, mas com o desafio e o projeto.

Muda a perspectiva de engajamento, e isso precisa ser compreendido. Naquela ilha de eficiência, estávamos, talvez, diante da mais profunda, rápida e verdadeira reforma trabalhista.

Para nós, esse é o desenho do futuro do trabalho e das organizações. Sistemas abertos, mas, ao mesmo tempo, centrados em desafios claros e compartilhados. Relações transitórias, mas carregadas de força e alinhamento. Muitos "você s/a" configurados como organizações temporárias, mas superpoderosas. E, o melhor, todos sem máscaras, podendo ser quem eram de verdade. Felizes.

Bem, passados alguns anos, emerge agora, com força total, o conceito de open corp ou open business, modelo organizacional calcado nas ideias de rede e de colaboração aberta. Essas estruturas partem da premissa de que os resultados serão divididos entre quem de fato contribuiu para que fossem atingidos. Quer mais meritocracia e alinhamento estratégico do que isso?

Considerando esse cenário, trabalhamos com nossos clientes o conceito de organizações-caravela. Caravela, aqui, refere-se à Physalia, um dos seres vivos mais primitivos do mundo. Acreditamos que os organogramas tradicionais vêm dando lugar a colônias de processos e a estruturas que se assemelham à da Physalia.

Não fui o primeiro a falar disso. Já em 1996, os professores P. McHugh, G. Merli e W. A. Wheeler III apoiaram-se no exemplo da caravela para analisar organizações. De fato, ele é muito representativo. A água-viva, ou caravela-portuguesa, abriga uma centena de criaturas, sendo que cada grupo assume uma função vital para o conjunto.

Filamentos capturam alimento, outros corpos metabolizam-no e assim por diante. Todos agrupam-se sob uma calota esférica que se desloca por ação do vento. Esse conjunto, que se aperfeiçoa gradualmente há 650 milhões de anos, possui um sistema nervoso central que assegura a circulação de sangue a todos, tornando-os integrados e permitindo-lhes atuar como um único organismo.

É uma ótima referência, especialmente para tratar as diferenças entre o universo das mudanças incrementais e previsíveis, típicas dos modelos mais mecanicistas e hierárquicos, e as transformações esperadas, se nos basearmos em sistemas mais orgânicos ou adaptativos. Esse conceito significa novas empresas, e uma nova forma de trabalho.

Implica parar de se preparar para bons empregos e descobrir e desenvolver o que você faz melhor que os outros. Mergulhar e aperfeiçoar-se com força e energia no que sabe e gosta de fazer e destacar-se por isso. Uma organização-caravela, única a resistir à seleção natural do mundo dos negócios, certamente irá descobri-lo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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