OPINIÃO

Uberização do trabalho e a qualidade de vida das pessoas

06/10/2015 10:25 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/AOL Library/iStock

Fiquei muito impressionado quando, há cerca de 20 anos, em visita aos EUA, vi como um grande supermercado fazia para controlar o trabalho de seus caixas. Todos sabemos que, em um supermercado, caixas a menos provocam longas filas e caixas a mais geram ociosidade. Pela primeira vez, testemunhei uma gestão do trabalho inteligente e marcada por flexibilidade.

Em uma plataforma alta, na entrada da loja, uma equipe contava o número de pessoas que entravam. Como se sabia o tempo médio que os clientes levariam para fazer suas compras, esse time de controle tinha como calcular o número de caixas que deveriam operar para que as filas não passassem de três pessoas. Dessa forma, não haveria desagrado entre os clientes.

Esse mercado mantinha em alerta um grupo de jovens estudantes que moravam e estudavam na área. Naquela época não havia smartphones, mas havia bips, também conhecidos como pagers. Quando o fluxo de clientes aumentava, o time da plataforma "bipava" aqueles jovens, convidando-os a vir trabalhar com uma remuneração correspondente a determinado número de horas.

Chegamos aos dias de hoje, em que a tecnologia e os smartphones permitem redes de trabalho e de ação fantásticas. Essas redes desencadeiam uma guerra entre passado e futuro. Já sabemos quem irá vencer.

Os taxistas reclamam do Uber, as TVs a cabo reclamam da Netflix, as empresas de telefonia celular queixam-se do WhatsApp e a piada é que as garotas de programa reclamam do Tinder - um aplicativo de encontro de casais.

O fato é que, nessa nova realidade, as pessoas trabalham quando há demanda. Acaba-se ganhando mais, trabalhando menos e vivendo-se melhor. Não admitimos, mas, talvez por conta dessa perspectiva, todos amamos o Uber e a possível tendência de que ele foi porta-voz.

Neste novo mundo do trabalho, haveria mais liberdade, mais qualidade de vida, imagino. Não existiriam perdas nem esperas. Nele, teria acabado o sofrimento de aguardar a hora de ir embora para "começar a viver"... Não existiria, tampouco, divisão radical entre a vida e o trabalho.

Corporações importantes e grandes bancos já reconheceram que essa realidade se aproxima e começaram a implantar mudanças às quais se dá o bonito nome de inovação aberta. Por meio dela, convocam centenas de pequenas empresas, universidades e startups para realizarem trabalhos que as coloquem à frente da concorrência. Trabalhos estes que poderiam ser feitos, no passado, por empregados dentro das empresas.

Essa realidade que invade hoje o mundo dos serviços chegará em breve, finalmente, à indústria.

As tarefas e etapas do trabalho poderão ser estabelecidas baseando-se no critério da "uberização". Seriam, então, transferidas para "garagens" e pequenas empresas que as realizariam como fornecedoras.

Um movimento de autoterceirização por meio do qual indústrias poderiam fechar inteiras áreas e conectar-se eletronicamente em rede com "tarefeiros".

Como todos sabemos, um grande país já tem um pouco dessa realidade e consegue produzir a custos baixíssimos -- a China.

Cruel? Talvez... Mas mais cruel é permanecermos não competitivos, protegendo direitos adquiridos em outra realidade. Salvando os "cartórios".

Temos que reconhecer que o fim chegou para os atravessadores do trabalho, e que essa é a via possível para conquistarmos, em pouco tempo, força para competir.

Todos nós reconhecemos que as leis trabalhistas e os encargos de 100% que elas geram inviabilizam a competitividade.

Sabemos também que reformular essas leis levará gerações, e que há risco de não se chegar a uma situação satisfatória que atenda a esse mundo maluco no qual vivemos.

Poderíamos, portanto, aproveitar a atual crise na indústria para, nós mesmos, iniciativa privada, fazermos a revolução. Desenvolver aplicativos e uberizar o trabalho.

Encontraremos soluções inovadoras também para aposentadoria, fundo de garantia, férias etc. Provavelmente com mais um aplicativo inovador.

É melhor correr esse risco do que desmantelar fábricas e promover agora o desemprego que impactará ainda mais negativamente a economia.

MAIS TRABALHO NO BRASIL POST:

As situações mais irritantes no trabalho