OPINIÃO

Seja protagonista rumo à modernidade gasosa

24/01/2017 13:32 -02
Annasunny via Getty Images
Concept of vector african american, european business peoples

Está cada vez mais presente nos livros e artigos que falam de inovação a profecia de que em breve viveremos em um mundo sem empresa, sem emprego e sem dinheiro em circulação.

Nesse novo mundo, o dinheiro será substituído por bitcoins e blockchains, novas tecnologias que já estão operacionais.

As empresas darão lugar a redes de cooperação, integrando startups, células produtivas, fornecedores e freelancers totalmente conectados.

As organizações tal como as conhecemos hoje vão desaparecer, dando lugar simplesmente a projetos e missões.

O emprego também vai sumir. Seremos todos "você SA na nuvem".

Cada um de nós estará à disposição lá, com sua história e especialidade.

Plataformas eletrônicas sofisticadas serão encarregadas de nos encontrar, negociar conosco e de nos contratar, cada qual do seu canto do mundo, para montar um automóvel, escrever um livro, criar um novo serviço de saúde etc.

O governo também deveria se preocupar com seu papel e com a observância de regras absurdas por parte de uma população cada vez mais informada, mais ágil e mobilizada pelas redes sociais.

O Estado terá um papel completamente diferente do que exerce hoje.

Não será mais possível massacrar os cidadãos com impostos escorchantes e continuar a prestar serviços medíocres. Não poderá impor a repressão econômica que vivemos no Brasil em 2016.

No novo mundo que se desenha, a reação natural será ignorar solenemente os governos criando soluções rápidas, baratas e funcionais para setores que seriam classicamente estatais. Uma espécie de hiperprivatização.

Você será capaz de sobreviver nesse cenário -- não no sentido biológico, mas empresarial e econômico --, realizando-se, trabalhando e progredindo?

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, morto no princípio de janeiro, já tinha previsto nosso atual mundo de relações líquidas, em contraste com o modelo conhecido.

No caso das empresas, tal modelo contempla solidez, prédios, metros quadrados, número de funcionários. Não será mais assim. Convém pensarmos em um mundo gasoso, um estágio além da liquidez de Bauman.

Os sobreviventes desse mundo gasoso serão homens e mulheres com maior adaptabilidade, não mais os mais poderosos.

Price Pritchett, estudioso das relações organizacionais, defende que a adaptabilidade pode ser medida, mesmo no mundo gasoso, por quatro características:

- Tolerância ao estresse. Diante das perdas que normalmente acompanham as mudanças, há pessoas que reagem entrando em depressão ou adoecendo. Outras mantêm-se em alerta e equilibradas mesmo em meio à tempestade. Aprendem a trabalhar na chuva.

- Tolerância ao risco. Você aceitaria, depois de um treinamento, pular de paraquedas? Tem gente que gosta de se arriscar, quer saia vencedor, quer perdedor.

- Flexibilidade. É a característica da pessoa que é capaz de rever seus pontos diante de uma argumentação bem conduzida. Ela sabe se ajustar.

- Por fim, chegamos à característica que mais nos parece importante: a capacidade de inovar, de criar soluções novas e melhorar o que se faz. É isso que, ao nosso ver, fará diferença de verdade no mundo gasoso.

Não se trata de ser Steve Jobs, nem de congregar pessoas extraordinárias como ele ao seu lado.

Ter capacidade de inovar significa apenas saber usar um potencial que existe dentro de cada um de nós: o dom de não se conformar com as coisas como elas são e buscar alternativas para melhorá-las. A capacidade de criar.

Durante muito tempo, inovação teve a ver, principalmente, com pesquisa e desenvolvimento. Em outras palavras, com ciência: descobertas de novas moléculas, tecnologias, invenções.

Porém, o mundo mudou e pode-se dizer tranquilamente que a inovação está muito mais perto de nós do que há 30 anos. É só pensar na efervescência das startups; nas tecnologias acessíveis e baratas; nos fab labs, onde você leva sua ideia e sai rapidamente com um protótipo. Tudo isso poderia ser facilmente chamado de revolução da inovação.

É preciso que sejamos motoristas nessa viagem, não apenas passageiros.

Peter Drucker, um dos maiores gurus da gestão de todos os tempos, dizia que a inovação deriva das dificuldades. Que não se inova quando tudo corre bem. Afirmou também que, se queremos algo novo, precisamos parar de fazer algo velho. Esta frase, em especial, mostra a sensibilidade do autor para a profunda reestruturação que vimos vivendo depois de sua partida, em 2005.

De fato, a inovação vencedora não consiste mais em criar novos produtos ou serviços.

Não se trata mais de melhorar substancialmente o que está em volta de nós a partir de como é feito agora.

É repensar as maneiras e as soluções para gerar valores completamente diferentes dos atuais para o cliente. Inovar no significado, no design e na concepção dos produtos e serviços, com foco no que o consumidor de hoje e de amanhã realmente valorizará.

Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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