OPINIÃO

Os jovens não se contentam apenas com estabilidade (e não há nada de errado nisso)

Os jovens gritam para nós que conectar-se com nosso propósito interior é importante.

08/06/2017 14:33 -03 | Atualizado 08/06/2017 14:36 -03
wundervisuals
"Para nossa juventude no mundo do trabalho, a comparação com os trilhos é completamente superada."

Soam cada vez mais alto as recorrentes queixas dos dirigentes de empresas sobre os jovens das gerações y, z e outras letras do final do alfabeto, como se anunciassem o fim do emprego e do trabalho tal como o conhecemos. Reclamam que essa moçada é fugaz. Que não para no emprego. Não está preocupada em possuir bens e só quer experimentar.

Pensava nessa ladainha outro dia. Manhã ensolarada de domingo, céu azul e um dia belíssimo em uma praia do litoral paulista. Sol nascendo e mar calmo. De repente, uma visão estranha: um drone sobrevoava as águas, controlado por um grupo de adolescentes com olhar fixo em um tablet.

No primeiro momento senti o choque do contraste entre uma máquina esquisita dessas e a natureza. Mas, logo em seguida, pensei que esse é o novo mundo em que vivo. Para alguém como eu, que empinei pipas na praia, ver um drone é perturbador.

Na verdade, é esse objeto que melhor simboliza os tempos que vivemos.

Os drones movem-se rapidamente em qualquer direção. É impossível prever seu rumo. Um mínimo toque os faz inverter o sentido, subir, descer, virar. Esse padrão de movimentos é o melhor modelo representativo do ambiente volátil que vivemos. Nos faz pensar que "tudo que é sólido desmancha no ar", lembrando o clássico de Marshall Berman. As críticas à sua obra mais famosa são fichinha perto do que se fala dos jovens que chegam ao mercado...

Essa gelatina de movimentos nada tem a ver com os trens, por exemplo, que se locomovem de maneira uniforme, previsível. Quando eu tinha a idade daqueles meninos que estavam na praia, o trem era símbolo de força e mobilidade. No passado, usava-se a metáfora dos trilhos e dos dormentes para explicar a fidelidade ao emprego, ou, em outro extremo, as rupturas marcantes das demissões. Dizia-se que era possível fazer um paralelo entre dois trilhos presos por dormentes e um indivíduo em sua posição profissional.

Essa metáfora considera que um dos trilhos é a pessoa e o outro a empresa para que trabalha; os dormentes que os mantêm ligados são salário, perspectivas, ambiente, etc. Tudo funciona bem até que, em determinado momento, um dos trilhos começa a mudar de direção e o outro não, algo natural em um mundo em plena mudança.

Aí, então, os dormentes começam a se romper. O indivíduo pode evoluir, enquanto a empresa permanece impassível às mudanças. O ideal seria que funcionário e empresa fossem mudando no mesmo ritmo e para a mesma direção, unidos pelos mesmos dormentes. Pouco provável: o mais comum no mundo empresarial é trilho-empresa correndo para um lado e o trilho-empregado correndo por outro. Resultado: dormentes estraçalhados rapidamente.

Para nossa juventude no mundo do trabalho, a comparação com os trilhos é completamente superada. Elas se movem freneticamente, sem lógica nem previsibilidade. Nossos jovens leões são drones. Sem ligação alguma com nada. São ligeiros e têm de sobra energia interna de propulsão. "Muta d'accento e di pensiero", como na ópera Rigoletto, de Verdi.

Reconheçamos: não poderia ser diferente em um mundo inundado por informações. Há estudos indicando que somos bombardeados por 6 mil estímulos de diferentes tipos todos os dias. Todos têm acesso a tudo, mas ninguém sabe nada. Em outras palavras, o jovem que não estiver confuso é porque está louco...

Verdade que eles expõem cruamente a liquidez dos tempos que vivemos. Porém, ao mesmo tempo, consideram importante algo que nossa geração só passou a buscar na idade madura: um propósito. Um dharma, palavra de origem sânscrita que evoca a essência do ser humano. Daí a importância de as empresas explicitarem seus propósitos e oferecerem-nos claramente a eles.

Esse é o único "trilho" moderno que poderá guiar os jovens. Fazer com que larguem as anestesias e fugas do dia a dia e movam-se na direção do que os torne realizados e felizes no trabalho. Portanto, se as empresas não tiverem claros seus propósitos e não forem capazes de nomeá-los, melhor contentarem-se em dialogar com dinossauros da época dos trenzinhos.

Os jovens gritam para nós que conectar-se com nosso propósito interior é importante. Nos ensinam que é possível viver a alegria quase irresponsável do momento presente. De flutuar em uma posição por pouco tempo e valorizar o prazer e a adrenalina de mudar. Desde que haja um sólido propósito.

Eles não são fugazes como parecem. São apenas muito mais rápidos e inteligentes do que nossa geração. Buscam com coerência e coragem a experiência de moverem-se rumo a um futuro que ajudam a construir. Cerceá-los nesse voo é como querer derreter as asas de cera de Ícaro. Mera e restritiva lenda.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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