OPINIÃO

O que o Brasil pode aprender com a Índia em tempos de crise

12/08/2015 15:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Bloomberg via Getty Images
A man climbs a set of stairs carrying a pair of boxed Intex Technologies India Ltd. speakers in Nehru Place IT Market, a hub for the sale of electronic goods and computer accessories, in downtown New Delhi, India, on Wednesday, Aug. 7, 2013. India's consumer price index (CPI) figures for July are scheduled to be released on August 12. Photographer: Graham Crouch/Bloomberg via Getty Images

A dura crise que estamos vivendo servirá como um toque de despertador para nos aproximar de nossa verdadeira realidade. Não somos a potência mundial que quisemos ser e, durante algum tempo, até acreditamos ter sido. Tampouco somos um país em colapso e sem futuro, como alguns têm profetizado.

Por muitos e muitos anos, quando se falava em criar e lançar novos produtos e serviços no Brasil, pensava-se preponderantemente nas camadas mais altas da sociedade. Era como se só essas pessoas consumissem e assegurassem ganhos a quem fabrica. Não sem motivo, o termo "brazilianization", lá fora e especialmente no que se refere à construção civil, significa construir imóveis apenas pensando nas classes A e B.

Não se dava a devida atenção, por exemplo, às 20 milhões de casas populares que teriam que ser construídas no Brasil. Ninguém se lembrava de que em cada uma haveria, no mínimo, um televisor e uma geladeira. Esse mercado, sozinho, corresponde a duas Holandas a serem abastecidas. Holandas diferentes, no entanto, onde vivem pessoas com pouco dinheiro, que desejam produtos com qualidade adequada e que caibam em seus bolsos.

Na Índia, diferentemente do Brasil, há uma profunda consciência dos mercados e da realidade. Lá, inovação frugal e a inovação de custo são palavras de ordem. Há uma gama inteira de soluções e produtos que atendem à maioria da população por terem qualidade, sim, mas, principalmente, por serem acessíveis ao bolso desses consumidores. Quase sempre, são produtos robustos, fabricados em grande escala, adaptados às condições de uso locais. Por isso, são vendidos a preços muito baixos.

Não pense você que eles não incorporam tecnologias. Muito pelo contrário! É justamente nas tecnologias do good enough innovation e cost innovation que a Índia se especializou.

Deixem-me materializar isso em um exemplo: nosso famoso, brasileiríssimo "tanquinho". Lembram do lançamento dele? Estávamos em meio a uma de nossas crises recentes, no final dos anos 1990.

Não se tratava de uma superlavadora com 16 programas, mas, ainda assim, era muito melhor do que lavar roupa no tanque. Supriu necessidades de muitas e muitas famílias em comunidades onde nem se sonhava com máquinas de lavar.

Esse é um exemplo real de inovação frugal. Uma das raras exceções à "brasilianização" que ingenuamente implantamos em múltiplos setores da economia. O "tanquinho" foi, à época, um estrondoso sucesso de vendas. Hoje, muitas casas possuem a lavadora; ao lado, porém, ostentam ainda o tanquinho. Isso lhes possibilita lavar panos de chão e roupa íntima em equipamentos diferentes. É um caso da inovação de custo que volta com segunda utilidade.

Pensando no Brasil, consideremos que as pessoas continuam tendo necessidades, mesmo em tempos de crise; consideremos ainda que, mesmo em turbulências, os fabricantes precisam desesperadamente continuar produzindo.

Você já percebeu aonde quero chegar: bens de consumo, como o tanquinho, fabricados em grande escala e comercializados com baixas margens, permitiriam às fábricas continuar operando. Isso evitaria que fossem obrigadas a desempregar, ferindo ainda mais a economia.

Para que tudo isso aconteça, no entanto, é necessária uma estratégia clara envolvendo governo e indústria, com investimentos em tecnologias e inovação de custo. Na construção civil, por exemplo, precisaríamos de centros especializados que desenvolvessem materiais e soluções para edificações de baixo custo.

É pena, mas ainda não se vê nada disso no Brasil. Em busca de inspiração para inovar, continuamos nos espelhando nos modelos americano, alemão e em outras realidades tão diferentes da nossa.

O filme Gravidade, ganhador de sete Oscars, custou 100 milhões de dólares. A sonda americana enviada a Marte demandou 671 milhões. A Índia também enviou uma sonda para Marte, sonda esta que está realizando tarefas semelhantes às cumpridas pela americana.

Demorou mais para chegar até lá e provavelmente não é tão sofisticada, porém custou aos cofres indianos 74 milhões de dólares...

Estou convencido de que essa crise nos reserva a oportunidade de encontrar nosso eixo de desenvolvimento. Tracemos estratégias e poderemos assim crescer sustentadamente por mais 20 anos.

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