OPINIÃO

O enigma da transformação das pirâmides

A tecnologia e as startups decretarão a morte dos oligopólios, dos atravessadores e dos oportunistas em todos os setores.

04/11/2017 14:41 -02 | Atualizado 04/11/2017 14:41 -02
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Os jovens agora querem ter uma startup. Querem ser o novo Mark Zuckerberg.

O nome do jogo hoje, no mundo das empresas e do trabalho, não é só inovação. É Revolução. Novas e impactantes tecnologias combinadas, a automação, o surgimento de milhares de startups, a desintermediação e a incineração dos empregos dão ao mundo uma configuração completamente nova. As pessoas e as empresas começam a se dar conta disso.

Peça a um amigo para representar esquematicamente a empresa na qual trabalha. O desenho inevitavelmente será algo parecido com uma pirâmide composta por quadradinhos. A conversa caminhará para temas como cargo, departamento, descrição de função, carreira, horário de trabalho, hierarquia, salário e um montão de outras baboseiras que simplesmente não fazem mais sentido hoje para os jovens que estão chegando ao mundo do trabalho.

Li uma frase de Tonico Novaes, diretor-geral da Campus Party Brasil, que, de certa forma, resume isso:

"Nossos avós queriam um emprego estável no Banco do Brasil. Nossos pais queriam um diploma. Na minha época, queríamos ser jogador de futebol, artista, cantor. Os jovens agora querem ter uma startup. Querem ser o novo Mark Zuckerberg."

É uma boa representação do momento que vivemos.

Será cada vez mais difícil atrair os verdadeiros talentos para engordar as fileiras de trabalhadores assalariados nas grandes corporações. Para acordar de manhã e trabalhar para "gerar valor a acionistas"; ninguém mais, em sã consciência, está disposto a entregar parte de sua valiosa vida a esse propósito.

Muito em breve olharemos para essas enormes corporações piramidais com a mesma curiosidade, consternação e o mesmo espanto com que olhamos para Quéops, no Egito. Pensaremos, intrigados: o que será que fazia que os trabalhadores carregassem pedras daquele tamanho? Raciocínio transposto para os dias de hoje: o que fazia que os gerentes se entregassem às grandes corporações, sacrificando vida pessoal, lazer, família?

As pirâmides de todo tipo ficarão apenas na História. Darão lugar a organizações e arranjos em rede. A feixes de conexões combinando startups, especialistas nas universidades, profissionais liberais, fábricas-laboratório, centros de produção autônoma organizados em forma de RBNB, tudo interligado por tecnologia simples de operar e rapidíssima.

Problemas

Agora, os problemas. O que nos separa disso? Bem, as escolas continuam formando pessoas para o modelo antigo, pirâmide/carreira/salário. E, por conta disso, convivem com uma tremenda evasão. Não por causa da crise no Brasil, como se afirma por aí, mas sim pela absoluta falta de sensibilidade e prontidão para mudar.

As empresas, formadas por gerentes na defensiva, operam na mesma frequência de onda. Acham que as mudanças levarão anos para acontecer e que "até lá já terei recebido meus bônus e me aposentado".

Ledo engano. Mais que de repente, acordam no dia seguinte em empresas vendidas, fechadas ou arrasadas por escândalos que acabam explicando sua artificial pujança anterior.

A tecnologia e as startups decretarão a morte dos oligopólios, dos atravessadores e dos oportunistas em todos os setores. Valerão mais o talento, a rapidez e o domínio das tecnologias do que os ativos, as ligações históricas e pessoais.

Algumas das gigantes entenderam isso. Procuram estar presentes no ecossistema da inovação. Buscam compreender como as startups operam. Espionar as tecnologias, antecipar-se às descobertas e, com capital, brecar as ameaças.

Algumas poucas exceções aceleram para tentar parcerias com empresas estreantes que as conduzam ao novo mundo dos negócios. Aliam-se ao "inimigo". Compõem uma estratégia de inovação aberta e transformação digital ou tecnológica. Colocam, na maioria das vezes, o nome dos produtos que fabricam e, na sequência a palavra "digital", dando assim nome a projetos que, acreditam, as salvarão.

Mas não é fácil fazer elefantes e formigas dançarem rap juntos. Volta e meia os elefantes acabam pisando as formigas, sem querer, e as matam. As formigas, por sua vez, estão só interessadas em atravessar o rio nas costas do elefante. Não nutrem admiração alguma pelos paquidermes e nem passa pela cabeça delas subjugarem-se a eles.

Para começar, é difícil para as corporações encontrar as startups certas. Conseguir vias de engajamento e, mais ainda, conduzir projetos vencedores em conjunto. Há ciência e metodologias por trás disso que poucas dominam. Afinal, open innovation e o engajamento entre startups e corporações é uma dessas disciplinas inteiramente novas e super-recentes.

Além de espionar - no bom sentido -, individuar talentos e encontrar soluções tecnológicas, um dos principais objetivos dessas corporações ao entrar no ecossistema é reaprenderem a ser rápidas, objetivas, desburocratizadas e focadas. Em outras palavras, absorverem a cultura das startups.

Para isso também são necessários know-how, método e processos. Esse é certamente o terceiro e central desafio. Como conseguir uma transfusão de cultura? Fazer que equipes internas aprendam fazendo? Engajem-se e disponham-se a trabalhar ombro a ombro com as formiguinhas? Não é certamente fazendo eventos pontuais nos quais startups de fora são convidadas a vir "salvar a pátria". Atender a chamados do tipo: venham fazer o que as equipes internas não foram capazes de realizar.

Cada vez que vemos isso nos hackatons, nos arrepiamos. É uma ótima maneira de desqualificar e desestimular as equipes internas para a inovação.

Enfim, é nestes três grandes desafios - encontrar a startup certa, construir a quatro mãos um projeto de transformação e transfundir a cultura das startups engajando as equipes internas na transformação - que temos centrado fogo nos últimos dez anos. Aprendemos o que não fazer e desenvolvemos métodos eficazes.

É um novo enigma da pirâmide. O enigma da transformação das pirâmides.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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