OPINIÃO

Não existe inovação sem as emoções da mudança

18/03/2014 17:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Você é um entusiasta da mudança? Se não for, não se declare inovador. Os muitos gestores inovadores com os quais trabalhei ao longo desses últimos 25 anos amam as mudanças. Para eles, mudar é sinônimo de excitação e adrenalina. Aprenderam a perceber as quatro fases pelas quais todos nós passamos quando somos expostos a elas - o chamado "fenômeno da transição nas mudanças" - como previsíveis e controláveis; mais do que isso: passaram a "saborear" as mudanças e encontraram meios de se beneficiar delas.

Certa vez, um jornalista perguntou a Pablo Picasso se sentia grande satisfação ao terminar um novo quadro. O artista respondeu secamente que não - sentia tristeza. Explicou em seguida que seu trabalho evoluía sempre, e que uma nova tela significava a morte do quadro anterior.

Essa passagem mostra a relação direta que existe entre inovação e mudança. A inovação, por mais excitante e fantástica que seja, representa uma espécie de sentença de morte do antigo. O novo sempre traz consigo uma sensação de perda. Isso se aplica a todo tipo e a toda magnitude de inovação em nossas vidas e, principalmente, no mundo do trabalho.

E é justamente nesse ponto que pode estar uma grande armadilha para os dirigentes de empresas do Brasil de hoje. Muitos enchem o peito para falar em inovação, mas, na realidade, esperam soluções prontas, e pior, assistencialismo. Gostam de novidades, mas detestam mudanças.

Em toda a história da inovação, os líderes inovadores foram também agentes de transformação. Os Steve Jobs, os Walt Disney e, mais perto de nós, os Ozires Silva, os Gurgel, os Pelés e os Chacrinhas, por exemplo. Esses e outros ícones da inovação compreenderam as quatro fases e como naturalmente as pessoas reagem diante das mudanças; souberam lidar com elas em si próprios e em suas equipes. As sensações de Traição (poxa, justo agora, e bem comigo...), no primeiro momento; de Negação, no segundo (isso não vai dar certo, vamos perder...); a Crise de Identidade (talvez eu devesse pensar melhor...); e, finalmente, a quarta e desejável etapa de Busca de Soluções (bem, já que é assim, vamos fazer funcionar). É disso que é feita a famigerada resistência a mudanças ou à inovação. E, sinceramente, são reações humanas e, portanto, esperadas.

É belíssimo ver como esses líderes inovadores e agentes de mudança enfrentam tudo isso mostrando uma visão de futuro motivadora e acelerando a inovação. Como reagem ao novo mantendo absoluto controle e fazendo o que deve ser feito, e não o que, como humanos de carne e osso, instintivamente teriam vontade de fazer. Mais fantástico ainda é ver como lideram suas equipes nos momentos agudos das transformações, identificando os grupos de colaboradores em cada fase, escolhendo o idioma adequado e, principalmente, agindo para assegurar avanço e resultados. Certa vez, estava diante de uma CEO dessa elite quando ela recebeu um telefonema avisando-a que seu filho pequeno tinha sido atacado por um cachorro feroz. De forma inacreditável, a primeira pergunta que ela fez foi: "Ele está vivo? E onde está?". Como que se tivesse passado a jato pelas quatro fases e pulado diretamente para a busca de solução.

Por outro lado, é decepcionante constatar que boa parte dos dirigentes que manifesta o discurso da inovação busca, na prática, o apoio e a proteção do governo e resultados derivados unicamente da redução de custos. Como se as estratégias para o curto prazo que adotam os levassem a ter um pensamento e uma gestão também de curto prazo.

Velhas soluções e atalhos conhecidos não funcionam mais em um mundo frenético de inovações radicais. O momento pede coragem. E somente se houver profundas mudanças de atitude em grande parte dos líderes da indústria no Brasil é que teremos a aclamada mudança de Cultura. As práticas é que fazem mudar a cultura, e a cultura, por sua vez, reforçará as práticas. Estamos na encruzilhada entre a desindustrialização do Brasil e uma pequena chance de ainda nos tornarmos uma potência comparável à China.

Está nas nossas mãos, ou melhor, em nossos atos, nos seus atos, embocar um ou outro caminho.