OPINIÃO

Bom dia! Vim aqui hoje para falar sobre arte

A busca por diferenciais competitivos deve se dar no campo das emoções, que conectam produtos aos seus beneficiários.

21/07/2017 21:37 -03 | Atualizado 21/07/2017 21:37 -03
POOL New / Reuters
Afrescos de Leonardo da Vinci embelezam a Capela Sistina, no Vaticano.

"Bom dia! Vim aqui hoje para falar sobre arte." Com essa frase e projetando o slide do teto da Capela Sistina com afrescos de Leonardo da Vinci, abri uma palestra para uma centena de dirigentes de uma gigante empresa multinacional. Foi divertido perceber as reações de surpresa nos olhos daqueles altos executivos.

O que propus foi uma conexão não usual entre desenvolvimento de produtos e o mundo da arte. Sugeri que o P,D e I – pesquisa, desenvolvimento e inovação – avance para esse campo, já que os produtos estão cada vez mais parecidos.

Acredito firmemente que a busca por diferenciais competitivos deve se dar no campo das emoções que conectam produtos aos seus beneficiários. Como se as empresas tivessem que desenvolver, além da competência técnica, uma inteligência emocional. Isso mesmo. As pessoas não compram mais apenas produtos, elas compram benefícios. Há sentimentos em jogo.

Em outras palavras, quem gosta de realizar reparos domésticos não compra uma furadeira. Muito menos uma broca. Compra a possibilidade de embelezar a casa ao pendurar quadros, por exemplo, e ouvir elogios.

Quem compra um celular, na verdade, está investindo em uma vida mais fácil, com estilo e significado – e isso se estende ao universo das capinhas. O mundo migra para uma realidade do "tudo como um benefício".

Disso deriva o interesse das empresas em entender cada vez mais profundamente o comportamento das pessoas e trabalhar no campo da U (experiência do usuário; no entanto, prefiro "beneficiário" ou "utilizador" à tradução habitual).

Uma bicicleta é um produto, o adolescente é um utilizador e o passeio de bicicleta é a experiência. É desse momento – o passeio – que cada vez mais ouviremos falar. É nesse campo que desenvolveremos as grandes inovações. Pois é na conexão direta entre utilizador e produto que entram em jogo as emoções.

Fica para trás o foco no desempenho. Deixa de ser relevante saber quantos anos durará a bicicleta, qual seu peso, quantas marchas oferece, como são seus acabamentos. Tudo isso é copiável em questão de dias por qualquer concorrente. A única alternativa para criar diferenciais não replicáveis é preencher o coração e a mente do cliente com uma enxurrada de emoções. Fazê-lo se apaixonar por esses produtos, colocar a mão no bolso e comprar, gerando margens para as empresas e movimentando a economia. É disso que precisamos.

Há um universo enorme de emoções positivas a serem trabalhadas tanto no que se refere a produtos quanto no que se refere a serviços. Os produtos serão personalizados. Afinal, nada mexe mais com a emoção do que algo feito especialmente para você nesse mundo de muita informação e pouquíssimo afeto.

No que se refere a serviços, a tecnologia e a comunicação imperarão. Considere os sentimentos em uma simples ida ao supermercado, por exemplo. Já pensou que a compra de um pote de Nutella exige que você movimente esse objeto seis vezes? Da prateleira para o carrinho, caixa, carrinho, carro, elevador, casa. Quando contarmos aos netos que era assim no nosso tempo, vão rir de nós. Para eles, a própria despensa avisará o fornecedor e os produtos serão repostos em suas casas.

Dirigentes à moda antiga tendem a focar nos produtos. Deslocar seu olhar para as emoções é um grande desafio. Todos nós – me incluo entre esses dinossauros – aprendemos que o importante era o projeto. Que o jogo se ganhava nas especificações. Que o conhecimento técnico era o combustível para inovar. Pior: nesse antigo faroeste da inovação, sensibilidade era sinônimo de fraqueza. E as emoções pertenciam a outras searas, não ao mundo dos negócios.

Poderíamos ter percebido a importância das emoções antes. Houve prenúncios, todos com grande sucesso. Lee Iacocca, criador do Mustang, era psicólogo e engenheiro. Ele costumava dizer que usava muito mais a psicologia, para entender os compradores e lidar com os malucos do mundo dos negócios, do que a engenharia, para dar conta dos parafusos e das peças dos veículos.

Bem, ok, mas e a arte? O que ela tem a ver com tudo isso? Ora, se o eixo da inovação está se deslocando para o campo das emoções e se a relação afetiva entre utilizadores e produtos passa a valer mais do que o desempenho, temos que aprender coisas novas em campos novos. No mundo da arte, a utilidade não tem importância diante das emoções. As transações são movidas a paixão. Ninguém compra arte em função de características técnicas.

Podemos considerar, portanto, que a arte se conecta ao mundo dos negócios. Seja no que se refere ao desenvolvimento de produtos que apaixonam, seja na forma de ver a própria gestão como combinação de técnicas, talento e inspiração.

Afinal, fazer pessoas apaixonadas e felizes com nosso trabalho é talvez a maneira mais honesta e verdadeira de contribuirmos com a sociedade, e a forma mais direta para deixarmos o mundo melhor.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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