OPINIÃO

A crise de confiança e as empresas

05/03/2015 18:32 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

"A confiança é o maior patrimônio de qualquer empreendimento. Nada útil pode ser construído sem a confiança."

Albert Schweitzer (filósofo e teólogo, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1952)

Qualquer pessoa que, como eu, trabalha há mais de 35 anos já passou por crises de todo tipo no Brasil. Apertos, inflação galopante, confisco e desabastecimento são todas realidades que, graças aos nossos governantes, já experimentamos. Outro dia assisti à palestra de um político brasileiro que se apresentou, meio irônico, meio orgulhoso, como alguém que havia décadas vinha promovendo estragos na economia brasileira. O pior é que ele falava a verdade.

Alguém então poderia dizer: passaremos por mais esta facilmente... Não estou tão certo disso.

Explico: além da grave crise econômica e financeira que vive hoje o país, caímos em uma profunda crise de confiança. Nem mesmo na época de Collor, quando ficamos todos com alguns poucos cruzeiros na conta, houve um sabor tão amargo da desconfiança. Havia certo ar de "Vai dar certo!", de que tínhamos de passar por aquilo. Algo que certamente não existe hoje em dia. Agora reina a desconfiança em múltiplas esferas, inclusive no que se refere ao emprego e às relações comerciais. Isso afeta duramente a nossa capacidade de inovação, vital para o desenvolvimento do país e o aumento de sua competitividade.

Para entender melhor essa relação, convido você a olhar com lupa a recém-divulgada pesquisa Trust Barometer 2015, realizada pela agência de relações públicas Edelman sobre o tema confiança (veja mais aqui). Ela revela o que, no fundo, já sabíamos: hoje não dá para confiar em ninguém. Exceto, talvez, no Google e na Wikipedia, portais que prometem "verdades".

Atenção: não estamos falando romanticamente de confiança apenas. Estamos falando de negócios e de gestão. Na mesma pesquisa, ficamos sabendo que 71% dos entrevistados no Brasil se recusam a comprar produtos e serviços de uma empresa em que não confiam, enquanto 63% a criticam para um amigo ou colega. Inversamente, 80% optam por comprar produtos de empresas nas quais confiam, e 78% recomendam tais companhias a amigos. Em outras palavras, enquanto a maioria dos CEOs está trabalhando incansavelmente para reduzir custos, outra curva, esta invisível e não mensurável, está despencando. É a linha da confiança no tempo. Historicamente, sabemos que quando essa curva cai arrasta consigo as curvas de resultados. Levará muito tempo para que ambas voltem a crescer.

A mesma pesquisa mostrou que as empresas seguem sendo o grupo institucional mais confiável para 73% dos respondentes brasileiros. Ou seja, são as empresas que deverão liderar a reconquista de credibilidade, e você, leitor ou leitora, está diretamente envolvido nisso. O poder público, pelo segundo ano consecutivo, registra cerca de metade da credibilidade conferida ao setor privado, apenas 37%. O detalhe é que os levantamentos foram realizados antes de boa parte das estarrecedoras notícias do Petrolão e da revelação das verdades, ou inverdades, das promessas eleitorais.

Confiança tem tudo a ver com inovação e ambiente propício para isso. A aceitação dos avanços tecnológicos está relacionada ao nível de confiança. Sendo assim, o sucesso das inovações e seu retorno sobre o investimento depende do ambiente de confiança existente. Vale para empresas e para países. Ponto de atenção no caso brasileiro. Em termos de mundo, a maioria dos entrevistados considera que o ritmo das inovações é rápido demais (51%), impulsionado pela tecnologia (70%), e que a inovação atende, na verdade, à necessidade de crescimento das empresas (66%), enquanto apenas 24% acreditam que ela ocorre para tornar o mundo melhor. No Brasil, 87% dos respondentes consideram que as empresas podem adotar ações específicas que aumentem o lucro e também contribuam para melhorias socioeconômicas nas comunidades em que atuam.

Arrochar a economia pode até trazer equilíbrio financeiro, mas olhar para essa "curva" apenas não é suficiente. Teremos que recuperar resultados na curva da confiança, e nessa é bem mais difícil. Requer atitudes e não discurso. Demanda coerência, transparência, demonstrações inequívocas de comportamento ético e voltado para o bem comum. Tudo o que nos falta como brasileiros.

Outro ponto de preocupação é que às vezes a credibilidade das instituições vai a níveis tão baixos que somente mudanças bruscas e profundas são capazes de gerar algum sinal de recuperação nas curvas de confiança. Você está preparada(o) para isso? Eu estou.