OPINIÃO

A universidade está matando a nossa criatividade

23/10/2015 13:21 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

O Enem se aproxima e, como veremos, a história se repete: atrasos, tumulto, correria, algumas pérolas -- como receita de Miojo na redação (estou curioso para saber o que teremos dessa vez).

Em resumo: muito material para o noticiário sensacionalista.

Esqueça essa parte dramática. Trabalhe com hipótese de que você vai fazer uma prova excelente e, consequentemente, conseguirá aquela vaga maravilhosa em uma universidade pública.

Sonho realizado, família feliz, elogios, mensagens de carinho dos amigos. Futuro advogado, médico, professor, biólogo, matemático, filósofo... O que você quiser!

A universidade é um espaço mágico onde todos os sonhos se tornam realidade, onde você poderá desenvolver as suas potencialidades e cultivar os seus sonhos.

Só que não.

A universidade vai matar a sua criatividade.

Vou explicar direitinho as causas, razões ou circunstâncias desse processo que denomino golpe anti-criativo.

1. Destruindo o mito da universidade como incubadora de sonhos

Não é completamente equivocada a ideia de que o ambiente universitário possibilita o crescimento do sujeito enquanto ser pensante.

Novos horizontes de possibilidades são abertos inevitavelmente em razão do:

A. Grande número de alunos, de diferentes culturas, compartilhando suas experiências, preconceitos (no sentido de pré-compreensões do mundo), gostos etc;

B. Contato com um conhecimento, se não totalmente novo, mais aprofundado acerca de determinada matéria.

Mas os seus sonhos não terão muito espaço dentro da universidade.

Você verá que existe um conteúdo programático muito bem definido para o seu curso, um certo número de matérias fundamentais de cumprimento obrigatório e uma lista de autores que constituem a bibliografia do curso.

Seus professores provavelmente dirão: você pode estudar por A, por B ou por C, mas EU uso D.

Isso nas ciências humanas é facilmente visualizado na prática (veremos que essa dicotomia entre ciências humanas e ciências exatas não é despropositada).

Aqui já é possível perceber uma das primeiras formas de coação da universidade, ainda que sutil: conformidade de pensamento.

Você, aluno do primeiro período, teria coragem de estudar por um autor diferente daquele utilizado por seu professor? Eu não tive, pelo menos não de imediato.

Esqueça a ideia de incubadora de sonhos, comece a pensar no conceito de Grade Curricular. E sim, você não terá muita liberdade para sonhar.

2. A grade curricular: até onde você pode inovar dentro da universidade

Pense na grade curricular como o conjunto de matérias que formam o seu seu curso. Você terá à disposição algumas matérias optativas, mas o grosso mesmo é de realização obrigatória.

Se determinada matéria possuir conteúdo expressivo, ela será fracionada ao longo dos períodos letivos. Por exemplo, Química I, Química II, Química III e assim por diante.

Essa divisão acaba gerando no aluno a ideia de que são disciplinas diversas, quando na verdade o conteúdo é -- ou pelo menos deveria ser -- contínuo.

Você estará preso a essa grade. Detalhe: a grade não é a mesma em todas as universidades, ainda que para o mesmo curso.

Talvez você conheça alguém que decidiu pedir transferência de uma universidade para outra no meio do curso. Coitado! Algumas disciplinas cursadas simplesmente não servirão de nada na nova Universidade, por não existirem em sua grade curricular. Esse aluno ficará migrando de período em período, preenchendo as lacunas geradas por essa esquematização absurda.

Qual o espaço para inovação dentro da grade? Nenhum!

E as matérias optativas? São poucas, com conteúdo desestimulante, geralmente oferecidas em ambiente virtual, de modo que poucos alunos demonstram interesse em fazê-las.

A grade é o seu campo de manobra.

3. Breves considerações sobre a dicotomia ciências humanas/ciências exatas

Sou de humanas, não gosto de matemática!

Sou de exatas, filosofia não é comigo!

Se antes o mundo era separado entre Oriente e Ocidente, agora predomina a bipolarização ciências da natureza/ciências do espírito.

Objetividade vs Subjetividade.

As universidades contribuem muito para a manutenção dessa dicotomia. Ela faz com que os sujeitos pensem apenas dentro do seu próprio campo, ignorando o conhecimento produzido pelo Outro, o diferente.

Quem nunca na vida utilizou cálculos matemáticos para resolver determinada questão, seja ela teórica ou prática? Ou divagou sobre a natureza do homem e do mundo?

Essa divisão entre aquilo que é objetivo, que pode ser testado, verificado e provado através de modelos científicos, e o que é subjetivo, ou seja, que invade o campo do transcendental, acaba matando a criatividade.

Hoje, com as novas descobertas científicas sobre o Universo, principalmente no campo da mecânica quântica, a subjetividade passa a desempenhar papel fundamental no mundo, inclusive dentro das próprias teorias científicas.

Por sua vez, as ciências do espírito estão cada vez mais engajadas em conferir cientificidade às suas descobertas.

Não há se falar em objetividade e subjetividade como opostos e incompatíveis.

Mas a universidade não quer saber disso.

Seus professores vão fazer essa divisão e vociferar: "estamos no campo das ciências do espírito" ou "estamos no campo das ciências da natureza". E você será levado a pensar em conformidade com o campo.

Golpe anti-criativo é isso: uma série de artimanhas, métodos e arranjos que visam diminuir ao máximo a capacidade criativa.

Afinal de contas, você será formado para o mercado. E o mercado, via de regra, não quer que você pense muito.

Pense nisso.

Originalmente em Puta Letra

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