OPINIÃO

A puta que eu mesmo pari

23/10/2014 17:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Ryan McVay via Getty Images

Nasci ali, na incubadora do orgasmo. Criei-me como muitas, dependente e inválida. O mundo material surgiu logo; me coloquei ao centro, astro único, completo e perfeito. Logo dei meus primeiros passos e com eles os primeiros erros.

Nada foi tão simples desde que eu me lembro. De centro do universo me converti em parte, pequena, indefesa e carente. Careta. Meu umbigo, perdido, girando em órbitas diversas, procurando algum esconderijo, algum refúgio.

Eu e centenas de milhares de outras. "Eus" em todos os cantos. Um ser igual, mas diferente, cogitando planos, cultivando sonhos. Foi quando levei o primeiro soco, bem na boca do estômago. A vida bate com força.

Foi por essa época que descobri o meu corpo. A língua, depois a boca. Sai pelo mundo gritando, maldizendo os homens. Cretinos. Nasci bicho preso, sem direitos, sem liberdade, sem sentido.

O mundo é uma merda, pensei comigo. Nessa dialética, pari uma puta. Puta que revida ao soco da vida. Puta de bate tão forte quanto. Puta que grita e que leva porrada em público, porrada de homens e de outras mulheres.

Uma puta que não faz poesia comedida, que não diz o politicamente correto. Que não pactua com credos consumistas. Puta que vadia pela madrugada, escrevendo cartazes em letras gigantes. Puta que se veste como puta, não apenas no corpo, mas na alma.

Puta que cansou de levar porrada, essa é a verdade. Puta que diz "foda-se" ao machismo. Puta que acordou pro mundo. Puta que ainda cultiva seus sonhos. Mas, acima de tudo, puta que é dona dos seus planos, dona da sua vida.

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Texto publicado originalmente em Medium.

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