OPINIÃO

Uma discussão necessária e as limitações do 'Amor & Sexo' ao falar sobre masculinidade

É dentro da desconstrução que vamos atacar a desigualdade na construção de imaginários de gênero do masculino contra o feminino.

10/02/2017 19:01 -02 | Atualizado 10/02/2017 19:32 -02
Reprodução/TV Globo
Amor & Sexo desta quinta-feira (9) debateu masculinidades e exibiu nu frontal em rede nacional

Bem, ocorreu essa semana, no programa Amor & Sexo, um episódio com temática masculinidades. E acho que vale um comentário sobre ele. Para quem quiser assistir, o link está aqui.

Primeiramente que é uma pena que não estejam comentando mais sobre esse programa (além, claro, da balela "nu frontal bilau de fora. gente bilau de fora sempre teve, uai").. Enfim, o bilau não é problema, mas não acho que também deveríamos resumir o tema nisso.

O tópico era masculinidades, ou formas de ser homem que precisam ser desconstruídas. Acredito que o episódio fazia frente complementar ao episódio sobre feminismos e direitos da mulher(que foi tema há algumas semanas atrás).

Claro que há todas as possíveis e inimagináveis limitações para um programa de TV poder abordar o tema: seja por tempo, linguagem, audiência, roteiro, etc etc. No entanto, acho bem importante que tal tema seja colocado, debatido ou minimamente popzado. Quanto mais gente falando, e pensando sobre (e junto) melhor.

Mas como comentário, acho que vale a pena ressaltar alguns aspectos que faltaram. Não que fossem de fato possíveis, mas se a bola foi levantada porque não aproveitar para chutar para debate público? Bem, tentemos...

Muitas vezes é dentro da desconstrução ética de masculinidades que vamos atacar a desigualdade na construção de imaginários de gênero do masculino contra feminino.

As limitações, para mim, ficaram na insistência de vincular os atos de reprodução do machismo a questões de performance, ou seja, falar dos estereótipos do "macho durão" ou tratar do "não-poder-ser sensível" e "não poder-chorar" etc. Essa insistência acaba por encobrir a importância de falar masculinidades a partir da reprodução de violências contra mulher (gênero e materialidade), que tais padrões (de masculinidades) reproduzem. Isso porque, dentro de uma discussão de gênero, é importante ressaltarmos as dimensões performáticas e éticas; e muitas vezes é dentro da desconstrução ética de masculinidades que vamos atacar a desigualdade na construção de imaginários de gênero do masculino contra feminino. Muitas feministas em suas reflexões e pautas políticas - pelos diferentes perspectivas e espectros que os campos teórico e político possuem na atualidade - já evidenciaram isso. Nós, homens ou interessados na discussão de masculinidades, precisamos "herdar" essa perspectiva.

Falar disso é tratar dos problemas que os padrões de gênero masculinos (e brancos e ricos) colocam em nossa sociedade.

Outra limitação importante (apesar de entender também que provavelmente por limitações de ser um programa de TV isso não teria tanto espaço) fora a ausência de recorte de raça e classe. Padrões de masculinidades (éticos e perfomáticos) têm raça, classe, lugar, entre outros. Não são universais. Ao privilegiarem alguns tópicos, a partir de performances de deveriam ser desconstruídas, deixaram de fora um monte de coisa de extrema importância e que tem a ver com recorte de raça e classe: como o abandono parental; as exigências de posses/de ser, baseadas no modelo de homem branco e rico.

Falar disso é tratar dos problemas que os padrões de gênero masculinos (e brancos e ricos) colocam em nossa sociedade. E como as imagens de homem são vividas e experimentadas nos diversos estratos da sociedade. Invariavelmente, tais imagens compõem os exércitos de machos por aí afora, que trabalham ativamente na reprodução de violências e auto-negação -- penso principalmente nos homens negros aqui e nossos problemas de consciência, auto-estima, etc...

Masculinidades precisam ser debatidas também nesse nível de recortes, pois é nesse lugar (ou pelo menos em boa parte nele) que podemos desatar alguns nós que vinculam padrões de gênero colocados com reprodutibilidade de opressão. E sim: masculinidades tem que estar materialmente colada ao fim da opressão contra mulher, à opressão de gênero...se não não faz sentido. Do contrário, é balela masculinista.

Eu vi gente falando (ou tentando falar) de objetificação masculina por conta do nu frontal. Então: isso não existe, tá?

O programa no geral foi interessante, apesar de eu não gostar particularmente desse tipo de programa (musical, auditório, humor escrachado etc). O fundamental de comentar é que os modelos de homens ali presentes não atendem a mim (homem negro classe média) e muitos que são parecidos (ou nem tanto) comigo em especial na intersecção raça e/ou classe. Mas é isso: bem massa que exista abertura na TV para o tema. E que iniciativas assim possam ampliar (e aprofundar) de intensidade e alcance.

PS-para-falar-que-não-falei-do-bilau: vi gente falando (ou tentando falar) de objetificação masculina por conta do nu frontal. Então: isso não existe, tá? Objetificação de homem (branco) é tipo... não existe!

O que EXISTE (e ressalto porque, novamente, não dá para falar sem intercruzar camadas) é objetificação de corpos não-brancos, em especial do homem negro (mas tem de asiáticos, tem de índios, etc), o que caracteriza como objetificação do corpo de um (visto como) não-sujeito, portanto vai além de gênero, pois é fruto do racismo. Ou seja, não é objetificação de homem e sim de um corpo destituído de reconhecimento de sua humanidade por conta da questão racial. Apenas isso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

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