OPINIÃO

Civilização e barbárie no verão

21/01/2015 12:15 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02
brutalSoCal/creative commons

São Paulo. Janeiro. Verão. Que é calor, por ser verão, já sabemos. Talvez um pouco além do que esperado, mas sim, está bastante calor. Por esses dias a média tem sido 35 graus. Ok, mas esse texto não é sobre uma análise climatológica, tampouco sobre os efeitos do aquecimento global sobre as temperaturas nas grandes cidades do mundo. É mais embaixo. De pedestre mesmo: mais simples.

Proibicionismo como forma de expressão de uma suposta civilidade, ou comportamento civilizado.

São Paulo de novo. Centro. Ruas próximas a tão chamada Cracolândia. 36 graus. Eu, andando por tais ruas, resolvo tirar a camisa. Está muito calor. Bem, até aí ok.

Eis que começo a enfrentar uma série de "ponha sua camisa, por favor"s (sim, com S, porque foram vários). No bar, na padaria, na frente de um prédio, numa loja de produtos para bicicleta, em uma lanchonete. Todos, sistematicamente, entre uma ou duas frases vinham com "você pode colocar a camisa por favor?".

Por quê?

Não respondiam. Mas desconfio que a noção de moral de bons costumes de vestimentas, ligadas a uma noção do que é ser civilizado, esteja por trás dessa história. Nós, seres humanos, no tempo, nas culturas e no decorrer da História fomos nos vestindo, criando vestimentas, adequações e rituais para estarmos de acordo com o que acreditávamos, pelo menos no Ocidente, nos desenvolver como civilização. Humm.. ok. Mas será que é disso mesmo que estamos falando quando proibimos pessoas de tirarem a camisa em um calor de 36 graus? Ou quando proibimos no mesmo tom autoritário e sem demasiadas explicações uma mulher de fazer topless em uma praia, suposta área para se ter menos roupa e, como é frequentemente, um ambiente de bastante calor?

O ponto, e o que me incomoda em tudo isso, é essa noção aparente de que civilizar é proibir, é estabelecer regras proibitivas, taxativas, nas quais os indivíduos devem ficar cercados, cerceados, disciplinados - no pior sentido do termo. Será mesmo?

Proibir tirar a camisa, proibir andar, proibir circular, proibir manifestar, proibir, proibir. Um festival de proibicionismos que, em especial nos grandes centros urbanos, vem cada vez mais tomando frente nas relações entre pessoas e Estado (ou órgãos de controle). No caso do centro de SP, por exemplo, a questão da "civilização" só piorou quando me deparei com a visão de que os únicos "descamisados" (além de mim) eram os chamados "cracudos" (usuários de crack, moradores do centro, muitos dos quais em situação de rua, que são enxergados como "seres fora da normalidade social, civilizatória", expressão esta resumida na corruptela "zumbis"). Tem coisa aí...

A dúvida que paira é: será que é de proibição que os pensadores do contratualismo tratavam (pensadores do século XVII e XVIII, como John Locke ou Jean-Jacques Rousseau, que falavam, grosso modo, sobre a necessidade de constituirmos contratos sociais, ou seja, regras que permitiriam a plena interação entre os indivíduos, sem infringimento das liberdades individuais)?

Ou será que o que devíamos nos importar é com a construção e otimização de liberdades e direitos? Será que proibir, em geral sem uma explicação clara sobre o porquê se está proibindo ou com regras toscas sem conformidade a ampliação de direitos e liberdades, é a melhor forma de se estabelecer entre as pessoas o desenvolvimento de uma sociedade civilizada?

Se sim, acho que está na hora de discutirmos sobre a barbárie... E nesse calor, sem camisa, por favor.

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