OPINIÃO

Ativismo na capa da Forbes

04/08/2015 17:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Há alguns anos eu comentava entre amigos: "estar na capa da Forbes também é militância". Alguns riam, outros discordavam - entre colegas de esquerda - veementemente. Independente disso, quando olhamos os números e a realidade, não parece tão absurdo assim.

Um disclaimer: sou negro jovem, de classe média, tive oportunidade de estudar em bons colégios, fazer uma excelente faculdade, mestrado, e ainda com duas experiências internacionais de estudo. Além disso, enveredei em certo momento, mesmo com alto interesse e dedicação na academia, a atividades no mercado, onde acabei ficando e ocupo hoje espaço num mercado novo, chamado de "empreendedorismo criativo". Sim, entre meus pares sou um dos poucos negros. Ou seja, apesar de ter críticas ferrenhas ao capitalismo na forma como ele se organiza - e corrobora para desigualdade -, é dentro dele que vivo, me organizo e acredito que e nessa estrutura que devo almejar ver mais de meus "iguais" entre meus pares.

Dito isso, atento que não é só a falta de negros entre pares que me chama atenção. É perceber que esse não é um espaço de demanda que aparece em alguns discursos. Sendo justo, até aparecem propostas de cotas para mercado privado feitas por alguns setores do ativismo negro, mas não é esse apenas o ponto. É além de presença: é uma questão de referências. Assim como no universo do ensino superior, é preciso olhar com cuidado também para dinâmicas de inclusão e integração no mercado.

O que quero dizer: além de graduad@s e doutor@s nas mais diversas especializações, quero sim ver negros e negras na capa da Forbes. Ou seja, ocupando posições de destaque e referência no mercado, um universo que ainda é bem rançoso e acomodado no discurso da meritocracia, assim como na ignorância de desigualdades que fazem parte da estrutura de privilégios da sociedade.

Um artigo sobre negros na academia foi uma das minhas inspirações para refletir isso e, assim como o artigo fez, trago alguns números para sustentar o que quero dizer.

Quando olhamos, a partir do Relatório de Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas - Pesquisa 2010, do Instituto Ethos em parceria com Ibope Inteligência, vemos que o negro ainda está bem longe dessa capa.

Temos, no quadro funcional, a presença de 31,1% de negros e pardos (número que desmembrado, se torna 7,1% de negro e 24% de pardos). Isso significa que, a despeito da população brasileira deter 51% de negros e pardos, apenas ⅓ dela está entre os quadros funcionais de empregos formais no mercado.

Claro, alguém pode arguir: "mas esses 51% é absoluto, não é a população economicamente ativa!". Bom, vamos aos números novamente: com base na população economicamente ativa em 2010, segundo o IBGE, negros e pardos conformam 46,5% da população economicamente ativa no Brasil. No entanto, eles são somente 45% da população ocupada. Ou seja, negros e pardos continuam subrepresentados. Quando olhamos para números em cargos de executivo (ou seja, altos cargos) a disparidade se acentua: apenas 5,3% das pessoas em cargos executivos são negros/pardos - lembrando que podemos quebrar esse número, sendo 0,2% (isso memso, 0,2%!) de negros, e 5,1% de pardos.

Bom, saindo da parte de números, vamos aos fatos: está difícil com esse tipo de representação de ter meus iguais em capas de Forbes ou como figuras de referência. Há um e outro? Sim. Mas tão poucos que configuram a exceção do negro, ou melhor, a regra da desigualdade de oportunidades e posição que também se reflete no mercado.

Qual seriam os ganhos disso?

Bom, primeiramente estou argumentando pelo lado da representação. Se nós negros não vermos pessoas em altos cargos executivos ou mesmo como empreendedores, dificilmente encontraremos referências para nos espelharmos também por esse caminho - além, como já citei, da academia, e outros campos de atuação.

Mas ainda há outros pontos. Assim como ocorreu nas universidades, ter mais vozes e representações - com diferentes backgrounds - pode sim trazer novos olhares para universo do mercado. Desde a indústria produtiva, ou setor criativo, ter mais negros participando ativamente traz possibilidade de uma nova gama de inovação e inclusão. Projetos como UniCorre, focado em empreendedorismo para população não-central (leia-se comunidades, favelas, e que, "sutilmente" atinge em massa homens e mulheres negras que desejam empreender e mostram como empreender pode ser um ato de resistência e dão um novo sentido para coisa toda!) ilustram quase que desenhando como isso é importantíssimo, tem lugar e dá certo. Muito certo!

Outra razão é o poder que a representação pode deter para desmantelar alguns processos, fruto de desigualdade e uma estrutura de privilégios. O que muita gente deixa passar em uma discussão sobre privilégios ou opressão, é que o oprimido, a vítima de uma estrutura desigual, também internaliza seu lugar de subalternidade. Uma das consequências nefastas disso, além de não se enxergar nos posts acima, é acredita que não é capaz. Sem dúvida, o acesso ao ensino universitário ajuda a criar essa auto estima, mas não resolve. Não adianta formamos quadros e quadros de cientistas, médicos, advogados ou engenheiros negros (veja: acho lindo isso, mas atente ao próximo argumento...) e essas pessoas não adquirirem espaço e oportunidade no mercado.

Ter quadros de referência nessas altas estruturas e mostrar para essas pessoas que não apenas existe lugar lá para ela, mas ela é capaz. A troca de saberes no mercado entre indivíduos de diferentes realidades e backgrounds, respeitando igualdade parte dessas diferenças, pode agregar muito ao mercado inclusive na forma como ele se organiza. Não é possível falar em meritocracia ou tomar isso como uma lei divina da livre iniciativa enquanto há uma sociedade que se estrutura em dar privilégios para alguns e possibilidades para pouquíssimos. Diversidade, nesse sentido, tem que ir além de comitês internos ou demandas de RH de inserção: tem que compor a visão de mundo das empresas e agentes no mercado. Vai ser bom para todo mundo.

Sei que, para alguém que se identifica como eu com a esquerda, "promover" o mercado - dentro de uma estrutura do capitalismo que ajuda e se beneficia da desigualdade - parece contrassenso. No entanto, não é possível esperar pela transcendência ou pelo esgotamento total desse modelo de organização econômico social, enquanto milhares e milhares de negros continuam alijados do mercado. Ver isso e continuar "de boa" é que me parece um grande contrassenso!

Apesar de não promover "revolução", prefiro tê-los incluídos do que excluídos completamente. Mesmo que alguns deles não necessariamente compartilhem do que eu penso ou acredito - como vemos às vezes alguns comprando o discurso da meritocracia (mas, como apontei acima, faz parte que o dominando compre discurso de opressão como uma estratégia de tentativa de mobilidade dentro da estrutura opressora.. não é contra ele, portanto, que vou apontar o dedo!). Por isso - e sei que isso pode ser polêmico entre algumas pessoas - para além de reitores, professores, pesquisadores, artistas, políticos e intelectuais, quero ver negros e negras na capa da Forbes. Isso, para promoção da inclusão, é também militância. Para inclusão de iguais. Como algo, entre outros lugares e setores da sociedade, normal para se ter e se referenciar sobre negros e negras.

capa forbes

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