OPINIÃO

A importância da Greve Geral e do 'entendimento esclarecido'

Na última sexta-feira (28), tivemos uma Greve Geral no País, em protesto contra reformas da Previdência e Trabalhista, em fase de realização pelo atual governo de Michel Temer.

01/05/2017 15:47 -03 | Atualizado 01/05/2017 15:48 -03
Sergio Moraes / Reuters
Uma mulher passa em frente ao 'lambe-lambe' que diz 'Greve Geral', no Rio de Janeiro.

Na última sexta-feira (28), tivemos uma Greve Geral no País, em protesto contra reformas da Previdência e Trabalhista, em fase de realização pelo atual governo de Michel Temer. Ouvindo e lendo percepções amplas e destoantes sobre a greve - reclamações, conclamações, adesões e desesperos -, resolvi postar no dia alguns comentários que servem, de maneira ampla e informal, para ajudar a pensar sobre a greve.

Em tópicos:

1. Greve é um instrumento, uma tática utilizada para incomodar, obstruir ou desmantelar normalidade de uma estrutura produtiva em uma sociedade (baseada na produção). Isso envolve todos os meios implicados para que produção (trabalho) esteja funcionando de maneira "normal", incluindo transporte e outros serviços de base que servem para que o cotidiano produtivo do trabalho funcione. Dessa maneira, críticas à adesão da greve ou não, aos motivos da greve ou não, não mudam o caráter e sentido que tem quando se fala em "greve", em especial de uma destinada a ter, como centro de suas demandas, a sociedade do trabalho.

2. A greve fala de uma estrutura e não apenas de pertença de classe ou função. Portanto, é minimamente óbvio que "não-trabalhadores" (ou seja, pessoas que não estejam empregadas ou mesmo não sejam CLT) tenham aderido a greve. Aliás, a distinção também entre "ser patrão X ser funcionário" também precisa ser entendida de maneira menos superficial, taxativa. O que quero dizer: ter empresa (deter CNPJ), na atual conjuntura social e econômica do capitalismo atual, não torna necessariamente um indivíduo um "dono de meios de produção" dentro da cadeia produtiva - cadeia esta atualizada em várias esferas e dinâmicas com adendo "mágico" do capitalismo financeiro.

3. Falando em "mágico", a hashtag #euvoutrabalhar é (sociologicamente falando) maravilhosa para lembrarmos que Max Weber está aí, como se diz no bom português, "vivão". E vale lembrar que a referência que estou mobilizando aqui é de uma obra de 1920... O ponto é: sistema capitalista não é apenas sobre relações objetivas, produtivas, mas também sobre "espírito" e subjetividades introjetadas pelos indivíduos inseridos e afetados na dinâmica do sistema.

4. Sobre críticas: criticar greve a partir da noção de "ir e vir" é... Enfim, leia ponto 1.

5. Sobre adesões: precisamos começar a explicitar mais o significado de dizer não às reformas. E isso, entre outras coisas (e claro, com críticas, tem a ver com dinâmica de pragmatismos políticos) envolve explicitar qual é o plano alternativo. Para ilustrar: se uma coisa (A) não funciona, argumentamos criticamente porque ela não serve e podemos nos mobilizar contra avanço dela. No entanto, é invariavelmente importante discutir e explicitar o que seria a outra proposta, o (B), para que a questão em si (necessidade de reformas) não seja politicamente esvaziada.

6. Queria falar mais sobre lógica da flexibilização e como ela funciona comparativamente dentro de uma classe média atuante em segmentos qualificados, ou setor de serviços e de empreendedorismo-de-não-posses, e o sentido dessa lógica para população pobre, sem educação, estruturas básicas, capitais simbólicos dos mais diversos (incluindo familiar), mas fica para outra oportunidade. Isso também tem muito que ver com algumas percepções que estão sendo formadas entre necessidades de reformas e perspectivas de que tipo, modelo ou estrutura de reformas devem ser feitas.

6. Para finalizar, pitacos: para irmos além de relação [reforma = solução para economia], ou [flexibilização = adequação à modernização das relações de trabalho], sugiro que nos conheçamos alguns conteúdos que podem ajudar a pensar de maneira crítica e sistêmica. Aqui vão alguns:

- Documentário sobre Wal Mart, High price of Low cost;

- Documentário Requiem for American Dream, com Noam Chompsky, na Netflix;

- Documentário "nequality for All" de Robert Reich - estupendo!!;

- Livro Ética Protestante e 'Espírito' do Capitalismo, de Max Weber (sugiro a edição de 2004 da Companhia das Letras, feita pelo querido e memorável professor Antônio Pierucci).

- Livro Rituais de Sofrimento, de Silvia Viana. Maravilhoso trabalho sobre reality shows, mostrando intersecções objetivas e subjetivas com mundo do trabalho. Tudo a ver com universo das flexibilizações.

- Palestras no canal do Youtube da editora Boitempo. Lá, além de vídeos sobre lançamentos dos livros etc, você tem oportunidade de ver falas e reflexões em debates que ajudam a formar repertório crítico sobre sociedade do trabalho, economia, dinâmicas contemporâneas do capitalismo entre outros.

Acredito que para debater questões sobre mobilizações em sociedade, seja no campo político do legislativo, seja no campo combativo dos movimentos sociais, é importante que possamos, como Robert Dahl nos ensina em Poliarquia, fortalecer um dos princípios essenciais para uma democracia: o entendimento esclarecido.

Leiam, se informem, critiquem e desconfiem (positivamente e não destrutivamente).

É isso.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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