OPINIÃO

O perigo vem do sol

11/08/2014 01:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02
Science Photo Library - SCIEPRO via Getty Images

13 de maio de 2013, Presidente Getúlio, SC - A tela do computador exibe uma mensagem: "Explosão Solar Detectada". Dentro de poucos minutos, várias luzes nos equipamentos do laboratório começam a piscar, uma a uma; um bipe soa; alguma coisa está acontecendo.

A 150 milhões de quilômetros dali, a superfície do Sol borbulha devido à intensa atividade magnética, labaredas de plasma saltam pelas bordas das manchas solares e partículas são liberadas intensamente. Radiação é lançada no espaço. A violência dessa tempestade é tanta que pedaços do Sol são literalmente arremessados para fora a mais de 2.200 quilômetros por segundo. Esses pedaços recebem o nome de Ejeção de Massa Coronal (CME, na sigla em inglês). Um verdadeiro inferno dantesco bem em cima de nossas cabeças.

2014-08-08-7a2mars25pbw.jpg

Por sorte, essa CME passou perto, mas não se chocou com a Terra. Mas o que aconteceria se ela estivesse direcionada para o nosso planeta?

Em rota de colisão

13 de março de 1989, Canadá - Eram 2h44 da manhã de uma segunda-feira gelada. O Departamento de Defesa dos EUA perde a localização de 1.300 dos 8.000 objetos que orbitam a Terra. Picos de corrente em linhas de transmissão queimam transformadores pela América do Norte. Quebec fica totalmente sem energia durante uma nevasca, deixando mais de 6 milhões de pessoas sem aquecimento. Auroras boreais são vistas no Caribe e no México.

Na sexta, 10 de março, o Sol havia liberado uma CME de mais de um bilhão de toneladas, direto em rota de colisão com a Terra. A energia era equivalente à explosão de milhares de bombas atômicas ao mesmo tempo. Finalmente, no dia 12, essa colossal nuvem de plasma solar chega ao nosso planeta e se choca contra nosso escudo magnético. O resultado desse choque recebe o nome de tempestade magnética.

Pausa técnica: uma tempestade magnética é uma perturbação no escudo magnético da Terra, chamado de magnetosfera. Esse escudo nos protege de radiação vinda do Sol e de Raios Cósmicos, ora desviando as partículas ora aprisionando-as numa outra estrutura de proteção chamada de Cinturões de Van-Allen. Os efeitos das tempestades magnéticas são vários: podem causar o colapso de sistemas de distribuição de energia elétrica, blecautes de comunicação por rádio, induzir correntes de centenas de ampères em tubulações e cabos de alta tensão, danos em transformadores, problemas de correção de sinal de GPS e aumentos na corrosão de gasodutos e oleodutos, gerar perda de altitude de satélites - em função do aumento do arrasto atmosférico - e levar à dificuldades de comunicação e navegação por sistemas marítimos e aéreos.

2014-08-08-AMS_02_space_weather_aurora_wikipedia.jpeg

Mas, e aqui no Brasil? Estaríamos vulneráveis a estes caprichos do clima espacial?

Escudo magnético, o verdadeiro protetor solar

Essa proteção natural da Terra contra a radiação do espaço não é perfeita. Ela possui uma falha, como uma espécie de funil magnético bem em cima do Brasil. O funil concentra uma parte da radiação que entra nele para uma região específica, chamada popularmente de Santa Catarina. Esse funil também possui um nome: Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS), uma região da Terra onde o campo geomagnético tem menos da metade da intensidade média do resto do planeta. Apesar do Brasil inteiro estar dentro da AMAS, seu centro está na região Sul, principalmente no estado de Santa Catarina.

2014-08-08-magnetosphere.jpg

A Anomalia é um fenômeno natural, resultado de assimetrias do campo geomagnético. Ela não é fixa, no entanto, veio caminhando desde 1600 do Sul da África até chegar no Brasil, em meados de 1940. Conseguimos saber disso por meio de de simulações de computador e medições de campo geomagnético por navegadores antigos.

Teoricamente, quem está dentro (ou melhor, embaixo) da AMAS deveria sofrer maiores impactos das tempestades magnéticas, já que nossa proteção é enfraquecida. Mas será que isso realmente acontece?

Impactos no Brasil

"Estudos recentes analisaram 100 ocorrências na operação brasileira sorteadas ao acaso nos últimos três anos e detectaram a existência do fenômeno geomagnético em pelo menos 96% dos casos."

Ou seja, de cada 25 falhas de energia analisadas, 24 foram em decorrência da íntima (e por vezes tumultuada) relação do Sol com a Terra.

Assim começa um dos mais completos estudos sobre os efeitos da AMAS na rede elétrica, "Um Novo Olhar sobre a Segurança de Sistemas Elétricos". Definitivamente, existe algo interessante acontecendo, com efeitos claros no nosso dia-a-dia. E podem trazer sérios problemas.

2014-08-08-amas.jpg

Para entendermos melhor como isso tudo está relacionado, voltaremos agora para Presidente Getúlio, cidade a 230km de Florianópolis. Aqui começa uma história incomum, envolvendo um jovem de 16 anos, uma agência espacial e uma universidade de renome mundial. O jovem, no caso, sou eu.

Um email, um "sim": NASA

Tudo começou numa noite de verão em Presidente Getúlio. Era 10 de dezembro de 2012, uma segunda-feira quente. Eu estava fazendo algo que costumava fazer quase todas as noites sem nuvens: olhar o céu a olho nu.

Mas naquela noite foi diferente.

Havia uma estrela que se movimentava. Sua luz não piscava como um avião, apenas se mexia, cortava o céu de maneira rápida e retilínea. Não era a primeira vez que aquela luz aparecia. Resolvi investigar esse mistério. Abri o Stellarium, software de planetário gratuito, e pude ver o céu de onde eu estava com os nomes de tudo que era visível. Lá encontrei aquela luz: era o telescópio espacial Hubble.

Despretensiosamente, faço uma busca sobre o Hubble na Internet. Ao abrir um artigo da Wikipédia, me deparo com a seguinte informação: "Observações não podem ter lugar quando o telescópio passa pela anomalia do Atlântico Sul, devido aos níveis elevados de radiação". Me assustei. Nós não estamos falando de qualquer coisa; aquilo é um monstro de 13m de comprimento e mais de 11 toneladas.

Decidi descobrir o que fazia o Hubble desligar. Durante dois dias pesquisei tudo o que podia sobre essa tal de "Anomalia". Percebi que ainda haviam várias perguntas a serem respondidas sobre o que realmente está acontecendo aqui dentro e que talvez eu pudesse responder algumas delas. Não sozinho, é claro!

Resolvi arriscar. O que é mais ousado do que enviar um pequeno projeto de pesquisa para a NASA? Elaborei, escrevi e enviei. Por incrível que pareça, me responderam. Um especialista da área de radioastronomia solar, chamado Richard Flagg, me ajudou a melhorar a proposta, sugerindo equipamentos e métodos. Por fim, no dia 12 de dezembro, enviei a proposta final. A comissão avaliadora dos grants, os subsídios de equipamentos, me fez uma série de perguntas para me conhecer melhor e respondi cuidadosamente.

Depois disso, não recebi resposta. Passaram-se longos dias, em que eu não sabia o que tinham achado da minha proposta. Na sexta-feira, enviei um email para o Richard, perguntando se ele sabia de alguma coisa, se talvez tivesse faltado algo. A polida resposta que recebi me foi muito especial, ao ponto de que até hoje eu me lembrar de uma frase chave, daquele e-mail:

"Paciência é uma virtude".

E realmente é. A resposta final recebi na madrugada do dia 16 de dezembro. Não foi um e-mail dizendo que minha proposta havia sido aprovada, me parabenizando ou algo parecido. O que chegou na minha caixa de entrada foi um código de rastreio da USPS, transportadora americana.

Os equipamentos que eu havia pedido acabavam de entrar em um avião com destino ao Brasil.

Botando a mão na massa

Depois de 4 dias, os equipamentos já estavam no Brasil, mas haviam sido confiscados pela Receita Federal. À época eu não sabia, mas sem uma instituição de pesquisa para efetuar a burocracia da importação, eu teria que pagar os impostos. E não eram poucos. Pegamos empréstimos e dinheiro guardado para liberar os equipamentos. Nosso objetivo era colocar tudo para funcionar o mais rápido possível.

A ideia virou projeto, que virou programa. Recebeu o nome de ALEXA, em homenagem a um antigo projeto militar soviético de radiopropagação. Convidei dois amigos para participarem do projeto. Éramos a equipe ALEXA.

Nosso objetivo era simples: medir as emissões de rádio das explosões solares do Sol e comparar com outros lugares do mundo, mas não era o suficiente.

A partir desse momento a história começa a fugir ainda mais do comum. Criamos e construímos uma antena de 56m² de aço, com pontas retráteis, alcançando de 3 a 7m de altura. Servia para detectar as explosões solares direto do Sol. E esse monstro foi instalado no quintal da minha casa, em Presidente Getúlio - SC. Cabe aqui um momento de agradecimento à minha mãe, que permitiu e ajudou em tudo aquilo que foi necessário para colocar o sistema para rodar. Algumas atrocidades foram cometidas com o gramado, como a escavação de 1m para concretar as sapatas de sustentação das antenas.

2014-08-08-20130311_003.jpg

Os recursos para a instalação dessa estrutura básica vieram de nossas próprias economias, até que encontramos um patrocinador da região que se sensibilizou pela ideia. Infelizmente, além disso, não recebemos praticamente nenhum apoio popular da região, salvo algumas exceções muito especiais.

Entendendo um pouco das deficiências da nossa instrumentação, decidi fazer outro contato diferente. Escrevi para a Universidade de Stanford. Agora era hora de não apenas monitorar o Sol, mas também as camadas da atmosfera que nos protegem dessa radiação. Como já tínhamos parceria com a NASA, conseguir os equipamentos de Stanford foi bem mais fácil.

Entramos agora numa das melhores partes do projeto, onde ele começou a tomar proporções e tornar-se conhecido Brasil afora.

Precisávamos de dinheiro. Haviam impostos a pagar, dívidas a cumprir, peças para repor e equipamentos para comprar. Foi aí que nos demos conta do crowdfunding, o financiamento coletivo. Essa forma de coletar recursos consiste basicamente em expor um projeto em plataforma especializada para tentar sensibilizar o maior número de pessoas e empresas possíveis a fim de viabilizá-lo. E eis que o ALEXA foi o primeiro projeto científico financiado coletivamente no Brasil!

Foi uma excelente etapa de aprendizado. Tudo teve que ser organizado e regularizado de forma mais rigorosa. Prestação de contas e divulgação de resultados preliminares, ou seja, tudo teve que ser reorganizado. Muitas pessoas gostaram da ideia e decidiram ajudar a trazê-la para a realidade, para que o projeto andasse. Conseguimos quase duas centenas de colaboradores, pessoas que doaram equipamentos, ajudaram a responder dúvidas técnicas ou doaram alguma quantia.

Ao final de dois incríveis meses de arrecadação, havíamos coletado mais do que o triplo necessário para a operação básica! Fizemos upgrades, compramos mais equipamentos, pagamos todos os impostos e estruturamos um laboratório básico. Mas o mais importante e duradouro de todo esse processo não foram os recursos que chegaram: foram as relações criadas. Muito do que faço hoje e das pessoas que me aproximei se deu grande parte em função da afinidade com esse projeto, que começou a ganhar destaque na mídia local e na Internet.

Agora o ALEXA já caminhava com passos próprios. Tinha um laboratório estruturado, possuía uma equipe maior, vários colaboradores e começava a ter visibilidade na mídia. Entrei em contato com outro centro de pesquisa, pedindo um detector de raios cósmicos, um equipamento que permite medir diretamente a quantidade de radiação que chega no solo. Dentro de um mês ele já estava operando em nosso laboratório, o único aparelho do tipo do país.

2014-08-08-20130418_029.jpg

Começamos então a obter reconhecimento do meio científico, o que descobri de forma inusitada. Ao receber uma edição de um periódico da área, vejo um artigo com um mapa dos centros de pesquisa credenciados ao ISWI (Iniciativa Internacional de Clima Espacial, na sigla em inglês) com três pontos no Brasil: um do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em São José dos Campos - SP, outro do INPE em Santa Maria - RS e um terceiro ponto em Presidente Getúlio - SC. Era o ALEXA.

Confesso que isso era uma coisa que me incomodava demais. Eu era simplesmente um jovem de 16 anos com alguns equipamentos interessantes e sem dimensão do que eu estava fazendo. Não havia muita credibilidade na minha pessoa por si só. Foi muito bom receber comentários positivos sobre meu trabalho de pesquisadores da NASA, MIT e INPE, por exemplo.

Recebemos convites para palestrar sobre os conteúdos da pesquisa em algumas escolas da região. Em julho fui convidado para expor o projeto na Universidade Federal de Santa Catarina, para alguns laboratórios e o Grupo de Astrofísica. E assim o projeto seguiu. Começaram a sair matérias expondo nossos resultados preliminares em revistas, jornais e sites. Também fomos chamados para inúmeras entrevistas e discussões na televisão.

Nosso objetivo era mapear as diferenças do nível de radiação que efetivamente chegava no solo dentro da AMAS e comparar com outros pontos do mundo. Para fazer isso, utilizamos uma rede chamada ERGO (sigla em inglês para Observatório Global de Raios Energéticos), um projeto que distribui detectores de partículas em vários pontos do mundo e os conecta via internet.

Os resultados foram impressionantes: depois de seis meses de observações e um intenso trabalho de tratamento estatístico, chegamos à conclusão de que a intensidade de radiação dentro

da AMAS é 61% maior do que em outros 39 pontos de medição espalhados pelo mundo. E não foi só isso. Ainda descobrimos que existem algumas peculiaridades na forma em que as tempestades magnéticas se desenvolvem aqui dentro.

2014-08-08-Space_Situational_Awareness_Space_Weather.jpg

Resta então a pergunta: quais são os efeitos disso tudo?

O perigo vem de cima, mas a resposta está aqui embaixo

Durante o projeto ALEXA, nosso objetivo era de certa forma bem simples. Entender um pouco melhor o que estava acontecendo dentro da AMAS, seja medindo diretamente ou utilizando dados e conclusões de outros estudos. Entendendo como ela se comporta, conseguimos ter ideia de alguns de seus possíveis efeitos nocivos e tentar criar estratégias para mitiga-los. O ALEXA terminou com seu objetivo alcançado.

Um dos possíveis e mais interessantes efeitos dessa Anomalia é relacionado à saúde humana. Existem relações entre tempestades magnéticas e variações em ciclos biológicos de liberação de substâncias, efeitos cardiovasculares, entre outros, diretamente ligados à saúde e bem-estar de todos que vivemos dentro dessa falha. Comprovadamente, o comportamento do Sol tem impactos na saúde humana.

E é por isso que a continuação do projeto ALEXA, ainda sem nome definido (e ironicamente sendo chamado no momento de Projeto X), já começou. Nosso objetivo, trabalhando junto ao Laboratório de Neurobiologia da UFSC, é determinar os efeitos e mecanismos de atuação de tempestades geomagnéticas na saúde. Esse trabalho já está acontecendo, com o auxílio de pesquisadores de diversas áreas, instituições e nacionalidades. Em breve ele se tornará público. E vamos poder entender exatamente o que está acontecendo aqui embaixo.

Toda essa história foge bastante do esperado. Não apenas pelo assunto que trata, mas pela forma de abordá-lo. O que temos aqui é uma grande quebra de paradigma. Nossas pesquisas saíram na Space Weather Journal, Revista INFO, EXAME, Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina, Zero Hora, A Notícia e outros jornais e revistas. Entrevistas e matérias saíram na televisão, inclusive comentários ao vivo. Inclusive há um documentário atualmente sendo gravado pela Fundação Roberto Marinho/Canal Futura sobre o Projeto X, com direito a experimentos ainda não divulgados que já foram gravados e irão ao ar no final desse ano.

Uma pesquisa de destaque que começou com uma simples pergunta, de um simples jovem, no interior de Santa Catarina: o ALEXA alcançou o que ninguém esperava.

E a brincadeira está só começando.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.