OPINIÃO

Uma igreja onde a fé não faz distinção

13/08/2015 11:37 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Daniel Ramalho/Trombone

São sete horas da noite de sábado, 27 de junho de 2015. A seleção brasileira de futebol está entrando em campo para enfrentar o Paraguai pela Copa América. Em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, fiéis de uma igreja evangélica vão chegando para o culto numa galeria cinzenta que, num passado recente, abrigou um cinema.

São jovens, em maioria, além de crianças que brincam de pique e alguns idosos que se servem de sanduíches disponíveis para lanche. Acomodados em cadeiras de plástico, os fiéis colocam o papo em dia e debatem passagens da Bíblia enquanto aguardam o início do culto, ministrado pelos pastores Marcos Gladstone e Fabio Inácio de Souza.

Até aí, nada de diferente, pois sábado é um dia de encontros para os milhares de fiéis das centenas de correntes evangélicas que se espalham pelo Brasil. O fenômeno da transformação dos cinemas de rua em igrejas evangélicas também já acontece há muito tempo. Mas esse culto em especial marca a inauguração da nova sede da Igreja Cristã Contemporânea no Rio de Janeiro, uma instituição fundada em 2006 para acolher gays, lésbicas, transgêneros, simpatizantes, familiares e qualquer um que queira louvar a Deus independentemente de sua orientação sexual.

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Fabio e Marcos são casados. Para começar, enfrentaram resistência em suas próprias casas. A mãe de Fabio achava que ele "estava com a besta". Depois, passaram por problemas em outras igrejas evangélicas que tentaram frequentar. A fé de muitos não inclui tolerância às opções sexuais do próximo. Reuniram-se com outros 20 indivíduos na mesma situação para rezar juntos num sobrado da Lapa. Foi o início da igreja.

Nos últimos 10 anos, Fabio e Marcos encontraram centenas de pessoas na mesma situação: homossexuais que acreditam em Deus e gostariam de frequentar uma igreja, mas não são aceitos pelas demais correntes evangélicas. A partir da Teologia da Inclusão, foram arrebanhando fieis e hoje a Igreja Cristã Contemporânea tem mais de 10 templos no Rio, em São Paulo e Belo Horizonte.

O crescimento incomoda. Assim como os pastores e deputados federais Silas Malafaia e Marco Feliciano, tem gente que realmente acredita que vivemos numa ditadura gay. Assim, a igreja de Fabio e Marcos precisou aprender a conviver com ameaças: pichações são frequentes, até bomba já jogaram num dos templos. Mas eles não desistem.

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"A maioria aqui é homossexual, mas a gente acolhe os filhos e os pais também, que podem se sentir incomodados com o preconceito e o julgamento em outras igrejas" (Marcos Gladstone, pastor da Igreja Cristã Contemporânea)

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Eles começam o culto falando sobre a conquista dessa nova casa. O culto é moderno. Ou contemporâneo, para ficarmos num adjetivo utilizado pela própria igreja. Na plateia é possível perceber inúmeras camisetas coloridas com inscrições como "Sorria! Jesus te aceita!". A operadora de telemarketing Lúcia Carrilho não acreditou quando contaram-lhe pela primeira vez que havia uma igreja para acolher homossexuais. Foi lá sorrir ao lado da filha e da esposa.

Quase todos os fiéis cantam e dançam animadamente ao ritmo de cânticos tocados por uma banda com saxofone, bateria e violão que ecoam alto no teto baixo do lugar. Bailarinos com uniformes camuflados realizam performances coreografadas numa dança que lembra as coreografias de lambaeróbica. Muitos choram também. Cada um tem uma vivência particular da situação.

É o mistério da fé. Longe de nós querer explicá-lo, rotulá-lo. Preferimos ficar com um entendimento básico: todo ser humano tem direito a buscar sua felicidade da maneira que lhe for conveniente -- sem tentar estragar a felicidade do próximo, claro.

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