OPINIÃO

Com acordo nuclear ou não, anos sombrios aguardam o Oriente Médio

07/05/2015 16:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
MOHAMMED SAWAF via Getty Images
Iraqi pro-government forces, including fighters from the Shiite Muslim Al-Abbas popular mobilisation unit, fire a rocket during an operation to retake the Baiji oil refinery from Islamic State (IS) group jihadists, on April 16, 2015. The refinery -- some 200 kilometres (120 miles) north of Baghdad -- once produced some 300,000 barrels of refined products per day, meeting half the country's needs. AFP PHOTO / MOHAMMED SAWAF (Photo credit should read MOHAMMED SAWAF/AFP/Getty Images)

O impacto regional do acordo nuclear entre o Irã e as potências mundiais será significativo, para dizer o mínimo. Ele vai marcar uma nova era no Oriente Médio; uma era em que os Estados Unidos e o Irã não mais tentarão se minar mutuamente sempre que possível. Nessa era de trégua, os Estados Unidos e o Irã poderão dialogar sobre problemas regionais em vez de deixar a ausência de diplomacia exacerbar os conflitos existentes. Ainda assim, apesar dessa iminente conquista história, anos sombrios aguardam o Oriente Médio.

Tudo começou com a decisão desastrosa de George W. Bush de invadir o Iraque. As repercussões da guerra do Iraque serão sentidas com mais força nos próximos dez anos que nos dez anos imediatamente depois do conflito. A invasão enfraqueceu os Estados Unidos a ponto de que a ordem na região, liderada pelos americanos, começou a entrar em colapso. A instabilidade que vemos no Oriente Médio é em parte causada pelo processo de busca por um novo equilíbrio. Esse processo é sangrento, quase sem exceções. É a tempestade antes da bonança, por assim dizer.

Mas essa não é uma tempestade qualquer, pois a guerra do Iraque não apenas destruiu a ordem regional, ela começou destruindo a própria estrutura de Estado sobre a qual qualquer tipo de ordem tem de ser construído. No fim das contas, o governo Bush não só mudou o regime de Bagdá, ele destruiu um Estado iraquiano como um todo. Combinada com os profundos problemas sociais dos quais sofriam os países árabes - em grande parte resultantes de seus regimes políticos autoritários e do pacto de segurança que os regimes árabes haviam feito com Washington, segundo o qual havia um prêmio para a estabilidade de curto prazo e não para a liberalização política de longo prazo --, a invasão abriu as portas para forças que espalharam o caos e transformaram vários Estados autoritários da região em Estados falidos.

Por mais difícil e doloroso que seja o processo do estabelecimento de uma nova ordem, é impossível construir um equilíbrio duradouro com base em Estados arruinados.

Nos próximos dez anos, esses problemas gêmeos vão trazer muito sofrimento e caos para o Oriente Médio. As coisas vão piorar -- muito -- antes de melhorar.

Não surpreende que Estados Unidos e Irã tenham escolhido esse momento para superar quase quatro décadas de inimizade. O ambiente que os cerca é tão caótico e ameaçador que o custo de manter essa inimizade está se tornando simplesmente insustentável. Washington não se pode mais dar ao luxo de confrontar a Al Qaeda, o ISIS, o Taliban e as atividades desestabilizadores de seus próprios aliados, além do confronto com o Irã. Igualmente, Teerã não consegue mais segurar o avanço do sectarismo, a rivalidade e a guerra por procuração com a Arábia Saudita, além de enfrentar os Estados Unidos por causa de seu programa nuclear.

Por mais que a rivalidade das grandes potências tenha definido a política do Oriente Médio nas décadas passadas, Estados fortes - até mesmo antigos rivais - agora estão diante de uma nova ameaça: Estados falidos e o caos que eles trazem consigo. Apesar da rivalidade, Irã e Estados Unidos precisam um do outro para estabilizar e reconstruir os Estados falidos e para criar uma nova arquitetura de segurança para a região, que estabeleça um novo equilíbrio no Oriente Médio. Obviamente, Estados Unidos e Irã não dão conta desse desafio sozinhos. Por definição, o processo deve ser inclusivo - nenhuma arquitetura de segurança será bem-sucedida a menos que os outros atores regionais façam parte dela. Isso requer o envolvimento de todos os grandes players, incluindo Arábia Saudita, Turquia e Israel.

Por virtude de seu Estado forte, o Irã pode ter um papel crítico na estabilização da região. A chefe de política externa da União Europeia, Federica Mogherini, reconhece esse fato, afirmando que o acordo nuclear pode "abrir o caminho para um papel diferente do Irã na região" , o que trará segurança e estabilidade. O Irã teria, nas palavras de Mogherini, um papel "importante e positivo" nos conflitos do Oriente Médio, particularmente na Síria.

É uma tarefa enorme. As expectativas devem ser controladas. Não há soluções rápidas. Mas pelo menos um obstáculo importante parece ter sido superado: os Estados Unidos e o Irã estão se falando, se consultando e até mesmo coordenando discretamente suas políticas, enquanto a região confronta o caos. Isso muda o jogo.

Este post é parte de uma série que comemora os 10 anos de HuffPost através das opiniões de especialistas que olham para a próxima década em suas respectivas áreas. Leia aqui todos os posts da série.