OPINIÃO

sobre paixão, política e postes

18/04/2016 23:29 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Tim Teebken via Getty Images
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o texto a seguir não é sobre partidos. é sobre permanecermos inteiros, mesmo. e se você precisar escolher um lado para ler o que eu escrevi, espero que escolha o seu lado de dentro.

começa.

eu estava sentado, existindo de longe, olhando a cena, que era assim: eram meu pai, minha mãe e minha irmã, sentados, na porta da casa recém comprada, em uma cidade recém conhecida por nós, vivendo uma vida que caiu no colo, num bairro que só viria a existir muito tempo depois. eu não lembro bem o ano, mas o que realmente importou [que foi internalizado para dentro de mim] foi a cena: meu pai, minha mãe e minha irmã, sentados, na porta da casa recém comprada, em uma cidade recém conhecida por nós, vivendo uma vida que caiu no colo, num bairro que só viria a existir muito tempo depois.

na porta, no chão da porta, ficava sempre o meu pai com o rádio ligado, toda as noites, britanicamente às sete horas. dividia o tempo e a atenção entre o que comia e o que ouvia na voz do brasil [conhece?], descendo vez ou outra para ainda mais perto do chão, quando o sinal da rádio ficava tão baixo, mais tão baixo, que só se escutavam ruídos e uma ou outra palavra: o congresso nacional, parlamentar, para o deputado, a emenda, e outras coisas assim. depois de alguns minutos curvado, sempre voltavam: o sinal, a voz do locutor e meu pai, cada um ao seu lugar de direito e destino.

ele acenava com a cabeça para minha mãe, dizia alguma coisa que eu não entendia de onde estava, mexia as mãos, e voltava para o silêncio e para o prato. às vezes era sorrindo, às vezes não. e eu lá, existindo para um não entender nada, e curioso: o que ele tanto ouvia de tão interessante, dia sim, dia também? o que o fascinava, tanto, em ouvir pessoas que não conhecíamos, falando palavras que não conhecíamos, sobre muitos temas que não conhecíamos, e que só surtiria efeito em nossas vidas meses, anos depois?

esta foi a primeira vez que eu aprendi, na prática, que um [ser político] e diferente de [ser um político].

era um bairro novo, onde as ruas, ainda órfãs de um nome, eram conhecidas pelo uso que tinham: assim, existiam a rua da padaria, a rua da costureira, aquela onde o caminhão pipa parava toda terça-feira à tarde e uma outra, lá no fundo de tudo, que era importante que nós, crianças, não fôssemos por nada no mundo. mesmo depois de tanto tempo, eu me lembro, que eu ficava horas e horas sentado na frente da nossa casa, observando aquele lugar brotando da terra, lentamente, enquanto chegavam mais e mais pessoas, todos os dias, com seus móveis. ou, com o que havia sobrado deles. essas pessoas desciam dos caminhões com um sonho na frente e outro atrás, entravam dentro das casas de telha fina, que não suportariam o primeiro vento da primeira noite, e já se consideravam existindo para muito. era um tempo em que viver era questão de sorte, não de nascimento.

muitos meses depois, chegou a iluminação pública. primeiro, vieram os postes de concreto. dezenas deles, em caminhões e mais caminhões em fila. depois, duas dúzias de homens impacientes que não suportavam que nós, crianças, enxergássemos um parque de diversões onde eles só encontravam trabalho pesado e concreto. postes pra cima, fizeram uma festa de inauguração na rua principal, na entrada do bairro, com shows de famosos que nunca havíamos escutado falar antes, e dezenas de barracas e mais barracas de comidas de graça, pagas por alguém que, até hoje, não sei quem fomos.

quando a primeira lâmpada, do primeiro poste, se ascendeu, foi emocionante. as pessoas se abraçaram, algumas choraram, outras comentaram com quem estava ao lado sobre como tudo foi planejado e feito com maestria e dentro do prazo, e me lembro dos especialistas de qualquer assunto contando sobre como aquele tipo de lâmpada eram mais econômicas, mesmo sem saber explicar bem o como isto acontecia na prática. por aí foi a noite toda, e eu nunca me esqueço: como se fosse um segredo, me contaram que quem havia feito tudo aquilo por nós foram pessoas chamadas de políticos. eu, que nunca tinha ouvido falar sobre esse tipo de gente, e pensava como as crianças enxergam as coisas todas, passei a acreditar que político era aquela qualidade de gente que transformava em postes os nossos sonhos de um caminho mais iluminado e seguro de voltar para casa. cresci nessa acreditação.

com a energia elétrica veio a TV, e foi aí que o senador caxias e eu nos conhecemos.

interpretado pelo ator carlos vereza, na novela o rei do gado, roberto caxias era um político idealista, incorruptível e dedicado ao direito de todos e todas terem os mesmos direitos. ao contrário dos demais companheiros de brasília, ele virava os sábados e domingos trabalhando, mesmo com o congresso aberto, de fato, apenas de terça à quinta-feira. ali pelo capítulo 30, o senador caxias fez um discurso que nunca mais saiu da minha cabeça, e do meu coração.

foi assim:

a cena começa com ele andando em direção a um microfone, com algumas folhas nãos mãos. a câmera, que só pega os detalhes, mostra o rosto, mostra os passos, e ele começando a falar. o discurso é sobre o direito das pessoas terem onde viver, ao direito de todas nós a termos uma casa, ao que comer todos os dias, e sobre o que ele, e todos os seus colegas de senado, tinha a ver com tudo isto. as palavras são fortes, emocionadas e emocionantes. enquanto ele fala, a câmera vai abrindo lentamente a imagem e mostra a sala. conta-se, no máximo, três parlamentares presentes à sessão: um que cochila, outro que lê um jornal e um terceiro, que falando ao celular vai em direção à porta de saída. a câmera corta a cena, e o senador caxias não mudou em nada: discursa sobre o direito das pessoas terem onde viver, do direito de todas nós a termos uma casa, ao que comer todos os dias, e sobre o que ele, e todos os seus colegas de senado, tem a ver com tudo isto. discursa sobre um país que acolhe todos e todas, não importando de onde vem.

essa cena faz bem uns 20 anos, mas eu nunca me esquecerei. não pela ausência dos senadores à sessão, não pelo descaso dos apenas três que foram, mas não estavam lá. e muito menos pelo retrato que pouco mudou sobre como funciona um congresso, quando o que está em pauta são os interesses da vida real de quem mora por aqui. o que me marcou e emocionou na cena, e sempre, foi a qualidade de presença do senador caxias. foi ele ter se mantido fiel ao motivo pelo qual foi escolhido por centenas de outros iguais a ele: fazer o seu trabalho, fazer aqui o que precisa ser feito, não importando para quantos. o que mais me emocionou na cena, e sempre, foi, numa sala vazia, e com poucas atenções, ele ainda sim estar absolutamente conectado e centrado ao que o iluminava por dentro: o seu propósito.

posso dizer que, depois do senador caxias, depois desta cena do seu discurso, eu nunca mais estive disperso deste hoje, que é o agora de todos os dias. ou, no mínimo, desde aquele momento sempre estive vigilante para uma desatenção de um sem querer, com quem quer que seja. eu sempre busquei estar onde estava. nunca mais foram vizinhos o que eu acredito e o que eu faço, pois escolhi que morassem no mesmo teto de mim, as acreditações que eu tenho, os sonhos encontrados das pessoas com as quais vou cruzando pelo caminho e as práticas do meu dia a dia. nem sempre consigo, mas estou comprometido com este horizonte. inspirado pelo senador caxias, comprometido com isto, que tem a ver com o que existe dentro de nós, que nem sempre está alinhado e acolhido ao lugar que estamos.

e é aqui que tudo que você leu antes, se reencontra.

em qual momento, mesmo, que a política se desencontrou dos nossos sonhos de todo os dias? quem fez uma parte de nós acreditar que a outra parte de nós quer algo inversamente diferente do que felicidade, justiça e cuidado para todas e todos? quem mesmo que nos convenceu que somos inimigos simplesmente por pensarmos diferentes uns dos outros, mesmo querendo as mesmas coisas? a quem interessa erguer um muro para impedir que negociemos nossas verdades, como adultos e sonhos que somos, todos e todas? qual foi exatamente o lugar, o dia e a hora, sobre o quando o nos fizeram esquecer que nós somos aqueles e aquelas por quem esperamos toda uma vida?

uma lembrança e um fim: se não transbordarmos a política com os nossos sonhos do cotidiano, com as escolhas de continuarmos na porta, no chão da porta, feito o meu pai, com o rádio ligado, toda noite britanicamente às sete horas, ela, a política, continuará sendo inundada dos interesseiros e interessados de sempre.

e tudo que esse tipo de gente, que não é exclusividade de uma sigla, mas moradores de uma classe chamada políticos profissionais - quer, é que nos desapaixonemos desta acreditação de quando a gente foi criança: aquela que diz que postes, caminhos iluminados, abraços, felicidade e política é, no fundo e no fim, tudo farinha do mesmo sonho.

[todos estes que aí estão

atravancando o nosso caminho,

eles passarão.

nós passarinhos]

mario quintana.

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