OPINIÃO

Crianças com Tédio?! Como Isso é Possível?

27/08/2015 17:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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Por que algumas crianças parecem não saber brincar sozinhas? Ou pior, parecem não querer brincar?

Uma investigação com crianças pequenas indica que o excesso de atividades monitoradas pode ser uma das causas.

Como é a rotina dos seus filhos? Eles acordam cedo de manhã para irem à escola, almoçam e depois saem novamente para fazer atividades extracurriculares? Quantas atividades seu filho faz?

A rotina dele está sempre cheia? Será que isso é bom para ele? Esses são questionamentos que todos os pais devem se fazer.

Uma pesquisa recente feita na pós-graduação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP) indica que o excesso de controle dos adultos na vida de uma criança pode acarretar falta de autonomia.

Por meio de observações e entrevistas realizadas com pais e crianças de 5 a 7 anos, a pesquisadora concluiu que, na verdade, a apatia está relacionada com o excesso de controle dos pais sobre seus filhos e com a agenda saturada de atividades enfrentada desde cedo pelos pequenos.

Acostumados a cumprir uma rotina puxada -- que começa cedinho na escola e se estende até o final da tarde em uma academia ou instituto de esportes, línguas, artes etc. - e a obedecer a ordens sobre o que fazer e como fazer a todo o momento, a criançada vai aos poucos perdendo a iniciativa e deixando de reagir naturalmente.

Para a pesquisadora Clarice Krohling Kunsch, o tédio infantil e a falta de iniciativa própria estão associados à relação que as crianças estabelecem com os pais e adultos de sua convivência.

Inicialmente a pesquisa buscava entender a relação entre o tédio e consumo, analisando como se dava a rotina extraescolar das crianças.

Mas a surpresa foi verificar que "era possível ter muita coisa e se relacionar com isso de forma saudável". O problema estava em outro lugar: na forma como os pais encaravam os filhos como um projeto (como já tratamos aqui).

Clarice Kunsch explicou ao portal UOL:

"Quando comecei minha pesquisa, acreditava que o problema era o consumismo, o excesso de bens. Como muitas crianças de hoje têm de tudo, achava que o mundo estava se tornando desinteressante para elas por essa razão. Mas conforme avancei nas entrevistas e nas observações na escola, fui percebendo que a criança pode ter muita coisa e se relacionar com aquilo de forma saudável. Hoje vejo que o problema está na maneira como a vida é consumida. Vejo um número cada vez maior de famílias encarando os filhos como um projeto."

As crianças que apresentavam tédio tinham em comum alguns aspectos: prática de atividades extracurriculares, presença contínua de um adulto enquanto não estão na escola e utilização de equipamentos eletrônicos.

Essas crianças, apesar de se envolverem em atividades extracurriculares, não demonstravam interesse algum.

Para crianças que não possuíam sinais de tédio, a atividade partia de um interesse próprio e não era algo somente para preencher tempo e agradar aos pais.

"Por estarem o tempo todo fazendo alguma coisa, com alguém por perto controlando, as crianças ficam sem saber o que fazer quando se veem sozinhas, à toa. Cada vez mais você encontra crianças que perguntam "agora brinco do quê?, agora faço o quê?". Mas como isso é possível, não saber o que fazer na própria casa? Crianças saudáveis do ponto de vista mental e físico se envolvem com qualquer coisa. (...) É um pouco exagerado falar assim, mas vejo tédio na criança quando ela não se interessa por nada e fica esperando alguém que traga ideias, que diga o que fazer."

Para saber mais, não deixe de ler a entrevista com a pesquisadora na Revista Educação.

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