OPINIÃO

A complexidade psicológica de Bates Motel

A série conseguiu dar conta de fechar o arco biográfico de um personagem tão icônico do cinema ocidental, Norman Bates.

06/09/2017 16:52 -03 | Atualizado 08/09/2017 12:22 -03
Divulgação/A&E
Freddie Highmore, particularmente, é excepcional em externalizar fisicamente, com muita sutileza, os conflitos e transformações internas do personagem.

"Juntos até o fim", anunciavam os cartazes de divulgação da última temporada de Bates Motel. E, realmente, foi o que aconteceu. Por cinco anos, a série se propôs a ousada tarefa de servir de prólogo contemporâneo para Norman Bates, o gerente de hotel do suspense Psicose, de 1960.

O que poderia ter sido um fiasco não foi. Como poderia tocar em uma das obras mais clássicas do cinema e passar incólume, sem estragar nem a obra nem a si? Com um roteiro criativo e corajoso, interpretações impecáveis, uma atmosfera de suspense erótico igualmente perturbadora e hipnotizante, a produção tem complexidade psicológica, muita complexidade psicológica.

Talvez, este tenha sido um dos muitos trunfos da série. Após cinco anos acompanhando a passagem da adolescência para a vida adulta de Norman, conseguiu-se apresentar o tamanho da complexidade da personalidade do personagem, para muito além da impressão de "psicopata" que o filme de 68 expõe. O gentil e carinhoso Norman é mais do que isso (seriam, então, todos?).

A "complexidade", na verdade, precede a narrativa biográfica do próprio Norman. Sua mãe, Norma Bates, era filha de um pai abusivo e encontrou conforto no irmão mais velho, Caleb. O que a princípio era uma fuga emocional, começou a tocar a materialidade e se embaraçar, confundindo a eles próprios.

Por fim, um relacionamento incestuoso se forma, sem que Norma ou Caleb, ou mesmo o espectador, tenham plena certeza sobre os sentimentos envolvidos.

Um dos conflitos apresentados é a culpa que Norma sente por, de algum modo, também ter amado de volta o irmão. Um caso de Síndrome de Estocolmo, quando a vítima desenvolve afeição pelo agressor? Efeito do abuso psicológico do irmão? Talvez muitas questões psicológicas, mas também uma consequência material: um filho desse relacionamento, Dylan, que sofre o desamparo dessa mãe que não consegue lidar com sentimentos tão conflitantes.

Entre o amor pelo filho e a lembrança física do abuso sofrido por aquele que um dia foi seu refúgio, Norma decide fugir com o segundo marido que, tal como seu pai, se revela violento e, como seu irmão, passa a violentá-la.

É desse emaranhado desesperador que nasce Norman, filho de um casamento abusivo, e que acaba por se tornar o refúgio emocional de Norma. O jogo de letras nos nomes já anuncia a dificuldade, que se torna deles também, em distinguir mãe e filho. O acréscimo da letra "n" para formar o do filho, e que sugere uma Norma-homem (Nor-man) é sofisticado demais para ser aleatório.

Inteligentemente, logo no primeiro episódio da primeira temporada, conseguiu-se pontuar todas as características que permeariam a série: ao mostrar as personagens usando iPhone e acessando a internet, o roteiro indicava a coragem em interferir na diegese da história original, que se passava nos anos 60.

Freddie Highmore e Vera Farmiga, por sua vez, deixaram claro que suas interpretações seriam impecáveis, lapidadas nas temporadas seguintes a um nível de perfeição capaz de suportar tal adjetivo sem exagero. Highmore, particularmente, é excepcional em externalizar fisicamente, com muita sutileza, os conflitos e transformações internas do personagem.

O suspense erótico do episódio piloto também ficou muito claro no olhar curioso de Norman vislumbrando Norma se trocar no quarto, em uma cena plasticamente hipnotizante, com uma cortina de renda que revelava e ocultava, ao mesmo tempo, o corpo quase nu da figura materna.

O tabu do incesto, o voyeurismo, estava tudo ali já, tal como o conflito no olhar de Norman entre o desejo e a proibição. A complexidade psicológica se mostrou ainda mais intensa com a culpa de Norman por ter saído escondido de casa, contrariando uma ordem direta de sua mãe, para ir estudar com um grupo de meninas da escola. Enquanto estava fora, Norma foi mais uma vez atacada dentro da própria casa.

As camadas das personagens apenas se acentuaram com o desenvolvimento da série, principalmente a partir da terceira temporada, quando o ritmo da narrativa acelera e Norman se aproxima cada vez mais de sua versão em Psicose.

Quando chega à quarta temporada, a relação com a mãe já está ostensivamente perturbadora. Os desmaios que acontecem quando ele passa por episódios de tensão, que lhe tiram a consciência e o distanciam emocionalmente do evento, se intensificam. Tal dissociação emocional se revela um mecanismo de defesa, originado na infância, quando o pai violentava a mãe em sua presença.

Talvez por aí, também, esteja o fio que conduz ao desconforto de Norman com a sexualidade, mas que está frequentemente presente, especialmente nas cenas com a mãe.

Bates Motel mostrou ter "começo, meio e fim", diferentemente de tantas séries que se perdem pelo caminho na tentativa fracassada de manter o sucesso e a audiência por anos sem fim, fazendo reviravoltas inverossímeis.

Ela conseguiu dar conta de fechar o arco biográfico de um personagem tão icônico do cinema ocidental, costurando episódios fiéis à lógica interna da série e, mais impressionantemente, sem decepcionar.

À altura dos últimos minutos do último episódio, estava evidente que não poderia ser outro o lúgubre destino de Norman Bates: como profetizou seu nome este tempo todo, ele chegou ao mundo imbricado na própria mãe, sem saber onde começava ou terminava. Ela – a Mãe – nunca se tornou o outro, senão a extensão de si mesmo. É de uma beleza cinza, mas Norman estava predestinado a nunca se tornar Um.

Nas cenas finais, o contraste entre o mundo que criaram entre eles para fugir daquele em que eram obrigados a viver se torna intenso, pela última vez: suas lápides, lado a lado, registram a única coisa que os outros eram capazes de ver, a devoção eterna de Norman à mãe, abdicando de construir a própria história, simbolizada por sua lápide vazia ao lado da de Norma, com uma enorme declaração de amor escrita por ele.

Norman não teve tempo de criar para si a criatura que sua mãe criou para ela. Nunca precisara, internalizara sua criadora. Nem quisera, seu propósito sempre foi alimentar aquela que lhe alimentou. Agora que ela se fora, não havia mais para quê continuar. E, em seu último delírio, segundos antes de fechar os olhos, ela o aguardou de braços abertos, pronta para se fundir a sua criatura, impecável em sua mais resplandecente glória, como sempre foi aos olhos do filho. Norma e Norman, juntos até o fim.

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