OPINIÃO

Precisamos falar da cultura do estupro

02/06/2016 18:27 -03 | Atualizado 02/06/2016 18:27 -03

Recentemente fiz um texto abordando o estupro de uma menina, cometido por 33 caras, onde procurei falar da culpa que todos nós, homens, carregamos também neste caso, como em muitos outros.

Foi surpreendente ver a reação de muitos leitores (homens, óbvio) com relação a tudo o que foi dito e fica claro o que já é do conhecimento de muitos por aí: não há nada nesse mundo que seja mais frágil do que a masculinidade.

Sim, a masculinidade devia vir envolta em plástico bolha, com uma tarja de aviso escrita "Cuidado, frágil", pois basta dizer que todo homem é um estuprador em potencial, que diversos outros já aparecem com vinte pedras nas mãos e o velho argumento de "not all men", houve até quem tentasse culpar o funk pelo estupro ocorrido, houve (como sempre há) quem tentasse transferir boa parcela da culpa à vítima porque:

1. Ela era "bandida" e postava fotos com armas;

2. Ela escolheu levar essa vida, portanto, devia saber que coisa boa não viria;

3. Ela se relacionava com um traficante;

4. Ela tinha costume de transar com vários caras;

5. Ela estava em um baile funk;

6. Ela não estava em casa, se estivesse isso não teria ocorrido;

7. Ela já postou dizendo que iria transar com vários caras.

Pois bem, vamos novamente aos esclarecimentos já feitos no texto anterior:

Primeiramente devemos nos lembrar que a vida que ela leva, o seu comportamento no dia-a-dia, seus relacionamentos, suas escolhas sexuais, enfim, nada disso deve ser usado para relativizar a culpa dos estupradores, nada disso deve ser usado a fim de produzir provas contra ela mesma e dessa forma, buscar culpabilizá-la por ter sido violentada, pois, se há culpados nessa história, são os 33 estupradores e todos aqueles que, mesmo de forma indireta, contribuem para a legitimação e para a propagação da cultura do estupro. Se ela escolhe transar com vários, é uma escolha dela e deve ser respeitada, mas acontece que o que houve não foi consentido, o vídeo e as fotos divulgados não foram consentidos. O que houve naquele vídeo não foi sexo consentido, foi estupro. Foi um crime.

É preciso também, desapegar dessa ideia de que "em casa todos têm proteção". Mentira! Grande parte dos abusos sexuais são cometidos no ambiente familiar. Basta acessarmos o Mapa da Violência de 2015 e veremos em sua página 49, que os casos de violência sexual estão no 3º lugar, com um total de 23.630 casos, sendo a maior parte deles, cometidos contra crianças ou adolescentes, e adivinhem onde estes crimes tem maior incidência? Exatamente. No ambiente familiar.

Mas como as pessoas podem vir a contribuir para essa cultura, se nem conhecemos todas as vítimas e nem temos nenhum vínculo com elas?

Pois bem, a participação indireta se dá nas seguintes formas:

1. Se você é conivente com piadinhas machistas;

2. Se você observa um homem agredindo uma mulher e nada faz por achar que "em briga de marido e mulher não se mete a colher";

3. Se você acha que por uma mulher estar usando roupas curtas e / ou decotadas, está "pedindo" para ser assediada;

4. Se você acha que o que ela escolhe fazer da vida dela, contribui para que ela seja estuprada;

5. Se você culpa a mulher por ter bebido demais dizendo "não seria assim se não tivesse bebido tanto";

6. Se você curte ou compartilha vídeos ou fotos íntimas de meninas que tiveram suas fotos divulgadas na internet;

7. Se você acha que a culpa é dela por se relacionar com "esse tipo de gente";

8. Se você acha que a culpa é dela por ter ido a um baile funk;

9. Se você acha que, se ela estivesse rezando / estudando isso não aconteceria;

10. Se você, de alguma forma acha que a vítima pode ser considerada culpada pelo abuso que sofreu;

Se você se utiliza dos exemplos citados acima, ou de qualquer outro exemplo para tentar justificar um abuso sexual, você está contribuindo para a propagação e legitimação da cultura do estupro.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB de Tocantins fez uma imagem bem explicativa sobre como funciona a cultura do estupro, que é a seguinte:

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Precisamos falar da cultura do estupro, precisamos fazer um mea culpa. É preciso que os homens deixem de lado esse sentimento de "brother" que automaticamente nutrem um pelo outro, deixem de lado a caixinha da masculinidade de vocês e comecem a questionar seus amigos, conhecidos, enfim. Questionem a vocês mesmos sobre a participação de todos os homens na propagação dessa cultura.

É de suma importância frisarmos que o estupro não é culpa de nenhuma escolha que a vítima possa ter feito durante sua vida. Estupro não é punição, não é consequência. Estupro é crime! Não há nenhuma justificativa para o estupro, não há nenhuma outra causa para o estupro, que não seja o estuprador!

E como punir estupradores? Que tal castração química ou física?

Não, meus amigos, não. A castração química não resolverá o problema, visto que a castração química apenas atuaria para inibir a libido do estuprador, e o estupro não está ligado ao prazer sexual, o que o estuprador quer é afirmar à sua vítima que tem domínio, que tem poder sobre o corpo dela.

A castração física por sua vez, também não surtiria efeito, pois, estando sem o órgão sexual, o estuprador iria utilizar-se de outros meios para consumar o crime, pois, novamente reforçando, o estupro não está ligado ao prazer sexual, mas ao prazer da dominação de sua vítima.

"Nossa, mas tudo agora é estupro"

Não que tudo agora seja estupro, mas sim, todo ato libidinoso, cometido com o emprego de violência ou grave ameaça, não importa se ela é sua esposa, namorada, ficante, noiva, enfim. Se ela disse não, todo ato libidinoso que você tentar forçar será considerado estupro.

Se você vai a uma festa, e agarra à força uma mulher, isso é estupro.

Se você beija uma mulher sem o consentimento dela, isso é estupro.

Se você transa com uma mulher, estando ela desacordada, impedida de manifestar seu consentimento, isso é estupro.

Se você, durante o sexo, gosta de forçar a mulher a fazer o que você quer fazer, isso é estupro.

Dito isto, parem de achar um absurdo quando ouvirem dizer que "todo homem é um estuprador em potencial". Isso não implica em dizer que todo homem necessariamente vá estuprar, mas que todos eles tem sim, um potencial para fazê-lo e não há nada de absurdo em constatar isso.

Por fim, mas não menos importante:

Estupradores não são animais;

Estupradores não são, via de regra, doentes;

Estupradores não são instintivos;

Estupradores não são coitados;

Estupradores são estupradores!

É hora de darmos nomes aos bois. É hora de parar de aplaudir e sorrir pra estuprador que dá entrevista em programas de TV e conta como estuprou uma mulher, e que, em seguida vai ao Ministério da Educação propor pautas. É hora de parar de aplaudir político que faça homenagem a estuprador. É hora de parar de aplaudir político que diz a uma deputada que só não a estupra porque "ela não merece".

É hora de parar com as falas do tipo "agora vai pra cadeia, virar mulherzinha". Esse argumento é tão violento, em tantos sentidos, que vocês não fazem ideia, pois apenas demonstra o quão arraigada está a cultura do estupro, por deixar subentendido que, agora que ele virou "mulherzinha", já pode ser estuprado. Vocês tem noção do quão violento é usar isso para comemorar a prisão de um estuprador? Vocês que pregam esse discurso estão querendo combater um crime ao qual dizem ter total aversão, utilizando dele mesmo contra quem o cometeu. Conseguiram achar coerência nisso? Pois é, nem eu.

Saia de sua bolha e pense:

Como você já contribuiu para a cultura do estupro hoje?

Quantas piadas machistas você propagou?

Com quantas atitudes misóginas você foi conivente?

Quantos vídeos/fotos você já ajudou a espalhar mandando pros seus amigos?

Quantas mulheres você já xingou por terem te dado um fora?

Quantas mulheres você já abordou na festa ou na rua, assobiando, chamando de gostosa ou olhando-a de forma clara a mostrar o quanto a estava objetificando?

Quantas mulheres você já oprimiu?

Quantas violências você já naturalizou?

Até quando você será parte dos 33?

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