OPINIÃO

O machismo no sistema republicano de Ouro Preto

03/03/2016 17:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Na madrugada de sexta-feira, 19 de fevereiro, alunas da República Rebu, da cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, foram vítimas do machismo de um ex-aluno da República Pif-paf, uma das mais tradicionais da cidade.

A violência foi cometida durante uma festa de formatura e, segundo relato publicado por moradoras do local, antes do ocorrido, uma das alunas que foi agredida já tinha sido assediada pelo agressor, que tentou beijá-la à força e, mesmo depois de receber um "não", continuou intimidando-as.

Quando ele agarrou uma das alunas pelo braço, esta, em um momento de desespero, mordeu-lhe a orelha. Ele então a empurrou pelo pescoço. Quando duas de suas amigas foram acudi-la, também foram atingidas com socos no queixo e no olho. Tão logo elas foram acudidas por amigos, o abusador continuou a confusão, quebrando tudo o que podia, afastando quem tentava lhe conter.

Infelizmente o atendimento a estes casos aqui em Ouro Preto é muito precário, começando pelo fato de não ter na cidade uma delegacia especializada no atendimento à violência contra a mulher.

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(Foto: Reprodução Facebook)

Não resta dúvidas quanto à culpa nos fatos.

A culpa dos abusos cometidos contra as alunas da Rebu e contra alunas de diversas outras repúblicas é tão e somente do abusador.

Mas e o sistema republicano? Será ele isento de responsabilização?

Não! A culpa também é do sistema republicano.

Um sistema hierarquizador, extremamente excludente e segregador, que abre porta para que sejam cometidos diversos atos discriminatórios e que permeiam o machismo.

Bebidas batizadas - que já vi em muitas repúblicas;

Frases como "mulher de saia e sem calcinha entra de graça";

Atos LGBTfóbicos, por exemplo, são extremamente comuns...

Não sou republicano, mas desde muito novo, cresci no meio desse sistema e não é preciso muito esforço para perceber as suas nuances.

Exemplos? Existem vários!

Um dos mais corriqueiros é o tal do "socialzão" - algo assim - onde os moradores de repúblicas masculinas convidam algumas moradoras de repúblicas femininas para uma festa. Mas com algumas ressalvas:

É comprometida e quer levar o companheiro?

Não pode.

Quer convidar algum amigo homem para ir junto?

Não pode.

Mais homens pra festa?

Não mesmo.

Além do mais, é comum que em algumas repúblicas as bebidas das mulheres sejam servidas separadamente.

Festinha à noite? Opa, claro! Quem não quer?

E as mulheres?

"Ah, para elas vamos liberar a entrada mais cedo, deixamos a bebida à vontade durante pelo menos uma hora e depois liberamos a entrada dos homens."

"Nossa, mas como elas são privilegiadas... Tem bebida de graça por uma hora ou mais!"

Sim, claro...

Super privilegiadas de serem vistas como "iscas pra machinho".

Você sabia que uma maioria esmagadora de universitários acha "ok" abusar de uma menina que esteja dormindo alcoolizada, sob o pretexto de que não configura abuso?

Então.

Mas esta é clássica em VÁRIAS repúblicas federais durante as maiores festividades da cidade, principalmente a "Festa do 12":

"Mulher entra à vontade nas repúblicas, afinal, quanto mais, melhor. Mas, ué, o que aquele homem está fazendo ali?"

Situação 1

- Aí, fera, "cê" conhece alguém aqui?

- Sim, conheço fulano.

- Ah, beleza.

Situação 2

- Aí, fera, "cê" conhece alguém aqui?

- Não, mas eu to com minha amiga

- Olha, nesse caso, vou ter que pedir pra você se retirar.

Em todo lugar a presença masculina é controlada, a fim de que "sobre mais mulheres".

E se forem LGBTs?

Nesse caso, costumam - e muito - utilizarem da Situação 2 acima.

Onde quero chegar com tudo isso? Devemos acabar com o sistema republicano?

Não.

Não é preciso acabar com o sistema republicano, mas o abuso ocorrido na República Pif-Paf, bem como todos os outros abusos cometidos dentro ou fora de tantas outras repúblicas de Ouro Preto por alunos e ex-alunos deixa claro o quão necessária e urgente se faz uma reforma no sistema.

A criação de políticas de combate ao machismo, racismo, LGBTfobia, transfobia, gordofobia, dentre diversas outras formas de opressão dentro do ambiente universitário Ouropretano e o quão urgente também se faz um posicionamento acerca de todas essas violências já cometidas.

O pronunciamento da República Pif-Paf

Na tarde da segunda-feira, 22 de fevereiro, a República Pif-Paf lançou em sua página no Facebook uma carta de repúdio ao abuso ocorrido.

A República Pif-Paf, representada por seus moradores, vem por meio dessa publicação manifestar seu repúdio ao fato...

Publicado por República Pif - Paf em Segunda, 22 de fevereiro de 2016


Porém, esta mesma carta foi alvo de comentários indignados com a abordagem dada ao ocorrido:

"Citem o nome do agressor! Ele foi expulso do status de ex alunos da rep? Seu quadrinho foi retirado da história da rep? Como fica essa questão?"

"Pif-Paf, pela cara das meninas agredidas esse pronunciamento está bem brando e diplomático, está na hora da república mostrar mais firmeza. O mínimo que a casa deveria fazer é retirar o quadrinho do agressor de mulheres e tornar isso público."

E agora, resta-nos saber:

Qual será o posicionamento da Universidade?

Quais serão as medidas tomadas pela República Pif-Paf?

Quais serão as medidas tomadas a respeito do ocorrido?

Quais serão as políticas adotadas no combate e prevenção à violência?

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