OPINIÃO

Um pequeno guia para ler as notícias sobre Coreia do Norte na Internet

Nada de Unicórnios ou 3ª Guerra Mundial, esclarecemos 7 mitos sobre o país que circulam por jornais, sites e redes sociais.

15/09/2017 18:52 -03 | Atualizado 20/09/2017 12:06 -03
Korean Central News Agency
Nada ou muito pouco do comportamento recente da Coreia do Norte mudou e uma guerra que tenha Kim Jong-Un como pivô é improvável.

Nada inspira mais a criação de fanfics travestidas de jornalismo internacional do que este pequeno pedaço de mundo espremido entre potências mundiais chamada de Coreia do Norte.

Sejam notícias aterrorizantes sobre seu armamento militar (contraditoriamente assinalado como uma pilha de sucata e a maior ameaça a segurança internacional desde o 11 de setembro) ou artigos que inspiram o ridículo, como um suposto decreto governamental de que todos os homens deveriam ter um corte de cabelo igual ao de seu atual líder, Kim Jong-Un, a cacofonia midiática sobre o País é quase sempre repleta de sensacionalismo e por vezes pautada em nada mais do que racismo.

Não há dúvidas de que violações sérias de direitos humanos ocorrem sob a administração de Pyongyang e a liberdade de expressão no País é uma das mais limitadas do mundo - um fator que contribui para esta desinformação.

Este artigo não visa, em nenhuma forma, defender as práticas opressoras presente na Coreia do Norte. Contudo, a perpetuação de mentiras sem fundamento ou a ignorância sobre a trajetória política não fazem nada além de fortalecer o regime que, contra tudo e todos, sobreviveu à morte de todos os ditadores que resolveram, de algum modo, colaborar com a mídia internacional ou organizações internacionais de direitos humanos - de Saddam Hussein a Mubarak.

De fato, o sensacionalismo apenas dá razão ao governo norte-coreano ao acusar o ocidente de usar medidas desonestas para tentar atacar sua legitimidade política. Tratar a Coreia do Norte como piada ou um monstro maior do que é pode até ser divertido, mas não ajuda em nada as 26 milhões de pessoas que moram lá. Tampouco cria soluções para o impasse nuclear.

Para ajudar a pensar duas vezes antes de compartilhar, seguem algumas dicas de como refletir sobre a questão norte-coreana:

1. Não existem unicórnios e o governo nunca afirmou o contrário

Essa é provavelmente a mentira mais absurda e amplamente difundida sobre Coreia do Norte, tendo sido apresentada em portais de notícias renomados como o The Time, The Guardian, The Atlantic, The Telegraph e até mesmo Folha de São Paulo e VEJA. Supostamente, arqueólogos norte-coreanos teriam encontrado a toca de unicórnios, que teriam sido o principal meio de transporte do Rei Tongmyong (AC 277- DC 668).

A notícia é de 2012, mas constantemente retorna em diversos veículos informativos. Trata-se de uma mistura de tradução malfeita e desonestidade jornalística. Sua fonte, umreleaseda Agência Nacional de Notícias Coreana, primeiramente não fazia referência a unicórnios, mas a Qilins, uma criatura mitológica que possui cabeça, cascos e chifres.

Os arqueólogos norte-coreanos teriam encontrado, na verdade, uma inscrição em pedra que sinalizava a existência de um estábulo de Qilins de propriedade do Rei Tongmyong. Nenhum dos arqueólogos de fato acredita na existência do animal, assim como nenhum arqueólogo brasileiro acredita no curupira. O fato apenas teria ganhado projeção nacional por ser um indício de que o norte da península poderia ter sido um centro político de maior relevância na Coreia medieval do que se imaginava. A mídia internacional, contudo, não poderia perder a piada.

2. Muitas histórias são mentiras

Na mesma medida, muitas outras histórias "divertidas" sobre a Coreia do Norte são erros de tradução, ficções humorísticas lidas como fatos ou textos baseados em rumores de fontes, que não seriam aceitos na cobertura política de nenhum outro lugar do mundo.

Um vídeo viral de 2014 apresentava uma suposta matéria jornalística norte-coreana que anunciava o time nacional como o ganhador da copa do mundo daquele ano, em uma goleada de 7 a 0 contra Portugal. O vídeo chegou a ser manchete em diversos veículos jornalísticos mundialmente. A gravação era, na verdade, uma montagem humorística brasileira que enganou muitos por sua sofisticada execução.

Outras histórias chocantes como a de que líderes do partido comunista coreano eram executados sendo entregues a cães raivosos, ou que o sarcasmo haveria sido banido do País chegaram ao noticiário internacional de forma parecida: através de comentários em páginas humorísticas chinesas que foram lidos como fatos ou mal interpretadas por jornalistas ocidentais.

A dificuldade em se checar fatos sobre a Coreia do Norte levou a mídia internacional a adotar uma postura complacente sobre fontes duvidosas. Afinal, se algo maluco acontece, provavelmente seria na Coreia do Norte.

3. Depoimentos de refugiados constantemente contêm mentiras ou exageros

É provável que o emocionante vídeo de Yeomni Park, uma jovem refugiada norte-coreana, tenha chegado até você por uma corrente do WhatsApp ou outra rede social. Nele, Park conta de sua penosa trajetória até a Coreia do Sul, o assassinato de seus pais por crimes políticos (assistir um filme de Hollywood) e outras desventuras.

Atualmente, contudo, a menina se encontra em uma crescente lista de refugiados norte-coreanos impedidos de dar depoimentos oficiais em função de graves inconsistências em seus relatos. Junto a ela se encontra Shin Dong-hyuk, cuja história de sobrevivência seria a base do best-seller mundial Fuga do acampamento 14. Nele, o jovem narraria, entre outras atrocidades que atualmente admite não serem verdade, a realização de experimentos em humanos nos campos de concentração de Pyongyang.

As mentiras são uma reação direta à sede incontrolável do ocidente por histórias trágicas e à precariedade financeira dos refugiados norte-coreanos. Um mercado negro de relatos sobre a Coreia do Norte surgiu nos últimos anos dada a escassez de fontes críveis sobre o assunto e o crescente interesse pelo tema.

Reportadamente, uma hora de entrevista com um norte-coreano pode chegar ao preço de 200 dólares. Quanto mais chocante a história do entrevistado e mais detalhes impressionantes forem apresentados, mais "valioso" é seu depoimento. Considerando que a maior parte dos que escapam do regime do Norte recorrem à economia informal para sobreviver e têm dificuldade para se adaptar às realidades do mundo capitalista, é natural que alguns deles se utilizem de sua experiência para ganhar um sustento. E, em alguns casos, se tornarem celebridades.

4. Sul e norte coreanos não se odeiam

Apesar de oficialmente estarem em guerra – o status de armistício é o mesmo desde os anos 50 –, sul e norte coreanos tem a unificação como objetivo principal de sua política externa. De fato, tanto ao Norte quanto ao Sul existem Ministérios da Unificação focados em desenvolver políticas públicas que contribuam para uma eventual união entre as duas nações.

Em pesquisa recente feito pela Seoul National University, 82% dos sul-coreanos afirmam estar interessados na unificação e 70% afirma que a Coreia do Norte não é uma ameaça urgente.

O norte tem se engajado mais do que se é noticiado nesta iniciativa, como um recente discurso de Kim Jong-Un apontou, abrindo espaços para iniciativas conjuntas entre os dois países na fronteira e participando de diálogos interpeninsulares. Estes são interrompidos na mesma medida em que incursões norte-americanas na região são concretizadas. Um exemplo é a tentativa de implementação do Thaad, um poderoso escudo antimísseis, em território sul-coreano. Movimentos bem mais racionais e previsíveis do que o recorrentemente noticiado.

5. O Japão não tem uma longa história pacifista na região

O Japão não tem "uma longa história pacifista na região" e muito da agressividade norte-coreana perante o País possui um conturbado ressentimento histórico. Sul e norte possuem lembranças amargas da brutal invasão japonesa no início do século passado.

Estupro de jovens coreanas por soldados japoneses, proibição da cultura e símbolos nacionais coreanos e tortura e execução de indivíduos ligados a movimentos de independência são algumas das atrocidades vastamente documentadas em ambos os lados da península.

A escolha da baía japonesa para os testes militares norte-coreanos não é aleatória ou irracional, mas historicamente fundamentada. Os planos de militarização japonesa em desacordo com sua atual política externa pacifista estão muito mais em acordo com sua identidade política de forma histórica do que representam um rompimento chocante de um ideal duradouro.

6. Bombardeios norte-americanos

Os norte-americanos bombardeiam a costa norte-coreana anualmente em exercícios militares desde 2001 e ninguém fala disso. A presença militar norte-americana na Coreia do Sul é a terceira maior do mundo, com 23.468 soldados lotados só em Seul.

Isto sem contar a presença militar dos Estados Unidos em bases no Japão, Guam e Hawaii, todas com rotas de patrulha que circunavegam a península coreana e totalizam um contingente de mais de 100.000 soldados ativos.

Atividades como o teste balístico feito na costa japonesa pelo exército norte-coreano são práticas regulares do exército norte-americano há quase duas décadas. Em 2002, um acordo bilateral com a Coreia do Sul estipulou que os dois países fariam testes militares conjunto de forma anual no mar territorial da península – a chamada operação "Foal Eagle". Um fato que torna a dita paranoia militar norte-coreana muito mais compreensível.

7. Não vai haver uma 3ª guerra mundial

Não, a Coreia do Norte não tem recursos, motivos ou a falta de racionalidade para iniciar uma 3ª guerra mundial. Nada ou muito pouco do comportamento recente da Coreia do Norte mudou e uma guerra que tenha Kim Jong-Un como pivô é improvável.

Virtualmente, tudo o que vem sendo apontado com um escalonamento militar na península coreana nos últimos meses (as trocas de farpas entre Washington e Pyongyang, um debate japonês sobre militarização, o anuncio de novas demonstrações de poder e embargos comerciais) foi repetido no final dos anos 90 e no Início dos anos 2000.

Os atos de toda a dinastia Kim até o momento seguiram uma impecável lógica de autopreservação. E mesmo a errática postura do atual presidente norte-americano não parece ter alterado isto. Uma mudança talvez só seja possível se pararmos de utilizar a Coreia do Norte como click baite a analisarmos com a seriedade e a imparcialidade que merece.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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