OPINIÃO

Raul Gil e o 'racismo invisível' contra os asiáticos no Brasil

Mesmo sendo parte da população brasileira, descendentes de asiáticos ainda são vistos como outsiders no País.

01/08/2017 12:47 -03 | Atualizado 01/08/2017 12:47 -03
Youtube/UserSBT
Raul Gil recebe o grupo sul-coreano KARD.

No último senso realizado em 2010, 1,09% da população brasileira se identificava como "asiática" ou "amarela". O número equivale a dois milhões de residentes com ascendência de países como China, Coreia do Sul, Tailândia e, principalmente, Japão.

Pode parecer pouco, mas isto equivale a toda a população do Qatar ou da Namíbia. Ainda mais surpreendente: esse número é mais do que o dobro da população indígena que vive atualmente no País - hoje, apenas 0,4% dos brasileiros, segundo o mesmo senso.

Mesmo assim, essa parcela é persistentemente retratada como uma alteridade, um "outro" fora da narrativa do que é o Brasil - algo entre o exótico e o invisível. Por vezes, expressões claramente racistas e preconceituosas, hoje impensáveis de serem apresentadas de forma impune na grande mídia contra negros ou homossexuais, ainda passam despercebidas e sem pudor quando dirigidas a essa parcela da população.

A participação do grupo sul-coreano KARD no Programa Raul Gil no dia 16 de julho é mais uma prova da resiliência deste tipo de discurso.

O constrangimento começa com um grupo infantil que vem ao palco para se apresentar. Todas as crianças são brasileiras e de ascendência asiática, porém Raul Gil resolve insistentemente perguntar se elas são "japonesas ou coreanas", além de falar para uma delas "abrir os olhos, né" enquanto tentava imitar um sotaque oriental.

Durante sua apresentação, as crianças foram surpreendidas pela entrada do grupo sul-coreano. Raul Gil entrevista o quarteto, reproduzindo todos os esteriótipos raciais possíveis contra os artistas.

Ele começa questionando a intérprete se ela sabia falar português ou apenas coreano. Em seguida, o apresentador segue dizendo que a plateia precisava "esticar o olho" para sair com alguém da banda e pergunta se os cantores são irmãos um dos outros por serem "muito parecidos".

A reação dos descendentes de asiáticos, contudo, está cada vez mais difícil de ser ignorada. O canal de Youtube e coletivo Yo Ban Boo, formado por brasileiros que combatem o racismo contra asiáticos com vídeos humorísticos, não demorou para criticar as atitudes de Raul Gil."Vocês percebem como isso é um preconceito do c@#$%o, como você está perpetuando o fantasma do eterno estrangeiro que acompanha asiáticos brasileiros que já estão aqui há gerações? Percebe a xenofobia nas suas piadinhas, Raul Gil?".

O canal encabeça um novo movimento de descendentes de asiáticos que se sentem sub-representados no Brasil. Possui conteúdo que questiona diversas expressões de preconceito como, por exemplo, o whitewashing e o yellow faceainda recorrentes na mídia brasileira e internacional.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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