OPINIÃO

Na contramão do mundo, a Coreia do Sul sai pela esquerda

Partidos de centro-esquerda apresentam popularidade expressiva entre o eleitorado sul-coreano e pretendem disputar com força as eleições primárias.

23/03/2017 11:28 -03 | Atualizado 23/03/2017 20:07 -03
JUNG YEON-JE via Getty Images
Sul-coreanos seguram velas durante uma manifestação exigindo a prisão de Park Geun-Hye em Seul.

Em um ano em que figuras como Donald Trump, Theresa May, Vladimir Putin, Shinzo Abe, Marine Le Pen e até mesmo Michel Temer parecem apontar para uma vigorosa virada conservadora e nacionalista na Política Internacional, os recentes eventos políticos em Seul levam a crer que a potência asiática deve trilhar por outros caminhos na próxima eleição presidencial. Após 10 anos à frente do país, o principal partido conservador, Saenuri, parece ter perdido quase todo o apoio popular perante ao conturbado processo de impeachment da agora ex-Presidente Park Geun-hye. Acusada de perpetrar, com sua associada e amiga Choi Soon-silesquemas de tráfico de influência e corrupção envolvendo as maiores empresas do país, a ex-presidente se deparou com índices tão baixos de aprovação (em determinados momentos inferiores a 5%) e com demonstrações públicas de repúdio tão expressivas que diversos membros de seu próprio partido votaram de forma favorável ao seu impedimento.

As intenções de voto

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Apoiadores da presidente Park Geun-hy seguram bandeiras do lado de fora do palácio do governo em Seoul

Com as eleições extraordinárias agendadas para o dia 9 de Maio deste ano, Moon Jae-in, líder do partido liberal Minjoo, derrotado por Park nas eleições presidenciais de 2012 por uma pequena margem, assume a dianteira nas pesquisas presidenciais, com 32% das intenções de voto. Enquanto isso, outros membros do mesmo partido de centro-esquerda também apresentam popularidade expressiva entre o eleitorado sul-coreano e pretendem disputar o posto de representantes do partido nas eleições primárias. São exemplos Ahn Hee-jung, atual jovem governador da província de Chungcheong, que advoga por uma postura mais conciliatória dentro do cenário político sul-coreano, chegando a ser apelidado de "Obama da Coreia" e Lee Jae-myung, prefeito da cidade de Seongnam que adota uma postura mais à esquerda, anti-establishment e diz gostar de comparações com Bernie Sanders. Somando todos os seus aspirantes oficiais à presidência, o partido já soma quase 6o% das intenções de voto.

O partido conservador Saenuri, por outro lado, ainda não conseguiu elencar nenhum nome oficial para a corrida presidencial de 2017 – não ajudando o fato deste ter se fragmentado em outro partido em face dos escândalos da ex-presidente Park, o Bareun Party, que pretende lançar nome próprio para a corrida presidencial. O ex-secretário geral das nações unidas Ban-ki Moon, chegou a ser considerado como um potencial candidato pelo partido, mas negou candidatura em janeiro deste ano alegando não existir clima político no país para sua candidatura. O presidente em exercício, ex-Primeiro Ministro da administração de Park, Hwang Kyo-ahn, também foi cogitado, mas fez anuncio este mês que também não disputaria para a manutenção do cargo, para o desespero do partido. As intenções de voto totais em ambas as legendas conservadoras não passam de 11%.

O partido centrista minoritário People's Party of Korea, deve entrar na disputa com o ex-empresário Ahn Cheol-soo. Paralelamente o também minoritário partido de extrema esquerda Justice Party, já confirmou o nome Sim Sang-jeung para a disputa, o único nome feminino anunciado até agora. A intenção total de votos em ambos os partidos é de 10% em pesquisa mais recente.

A agenda da esquerda Sul-Coreana

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Coreanos que não apoiam o impeachment da presidente Park Geun-Hye seguram bandeiras nacionais durante marcha no ano passado

Alterações da política externa do país são destaque nos projetos de governo dos que assumem a dianteira da corrida presidencial. Enquanto a década de poder do Saenuri foi marcado por um intensa cooperação militar com os norte-americanos, um endurecimento das relações com Pyongyang e uma negligência perante a diplomacia chinesa, quase todos os candidatos críveis desta eleição parecem ser críticos em algum nível a tais posturas. A assinatura de acordo para instalação de um escudo antimísseis estadunidense no final do ano passado, o chamado THAAD (Terminal High Altitude Area Defense), atraiu críticas de múltiplos políticos na disputa presidencial, não apenas por reportadamente ter escalonado o conflito interpeninsular de forma desnecessária, mas por ter contrariado a diplomacia chinesa, que se viu ameaçada pelo o acordo e iniciou campanha de boicote a produtos sul-coreanos.

A retomada de iniciativas de reaproximação e negociação com a Coréia do Norte também integra, via de regra, os discursos dos concorrentes da disputa – resultado de uma frustração com uma década de retrocessos no diálogo entre os dois países-irmãos. O resultado da diplomacia intercoreana na era conservadora foi um crescimento espantoso do poder bélico e nuclear de Pyongyang e até mesmo a suspensão de iniciativas de coolaborativas entre os dois países, como fábricas que operavam na fronteira entre os dois países sob administração conjunta . Moon Jae-in, por exemplo, já declarou que, se eleito, fará sua primeira visita presidencial a capital norte-coreana. Como tal postura irá se alinhar com a suposta política de tolerância zero a provocações Norte-coreanas de Trump, ainda é um mistério.

Uma revisão da relação entre o governo e as grandes empresas campeãs nacionais, os chamados chaebol, também é pauta central para os principais aspirantes à presidência. O escândalo político em volta da ex-presidente Park reacendeu o debate sobre o tema, uma vez que este culminou com a antes impensável cena de Lee Jae-yong, presidente da Samsung e um dos homens mais influentes do país, sendo encarcerado como um preso comum e com todo o primeiro escalão do empresariado sul-coreano, de Hyundai a LG, depondo sobre casos de extorsão e corrupção no país. O cenário caótico, que por vezes faz lembrar a prisão de Eike Batista e Marcelo Odebrecht, bem como o relacionamento próximo de alguns setores do empresariado nacional com ex-mandatários brasileiros, fez muitos sul-coreanos repensarem o papel das empresas que por vezes representavam em seu imaginário uma fonte de orgulho nacional.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

Personagens do Impeachment