OPINIÃO

Na Ásia, açougues de carne de cachorro lutam para sobreviver a ocidentalização dos costumes

Globalização e mudança geracional são causas do declínio dessa prática secular.

01/08/2017 17:00 -03 | Atualizado 01/08/2017 17:00 -03
AP
Este é o Gaegogi Jeongol, prato típico coreano feito com carne de cachorro.

No início de julho, uma associação de produtores de carne de cachorro organizou um protesto no centro de Seul, na Coreia do Sul. Eles pediam ao governo a regulamentação do comércio de seus produtos, separando os animais de estimação daqueles destinados ao consumo humano. Cerca de 2.500 pessoas se reuniram perto da Câmara Municipal em um dos maiores comícios do tipo já realizados no País.

Os manifestantes criticavam os grupos de direitos dos animais e a influência do ocidente, por colocar os direitos dos cachorros contra os seus. Denunciavam, ainda, a injustiça do apoio governamental a outros tipos de indústrias pecuárias, o fornecimento de subsídios aos abrigos de animais e a negligência de seus negócios. Defendem uma prática tradicional e histórica não apenas na Coreia, mas também em outros países da região, como China e Vietnam.

YNA
Manifestantes favoráveis a venda de carne de cachorro se unem em Seul

"Em nome dos direitos dos animais, inúmeros ativistas ameaçaram retirar nossos direitos a um sustento básico", disse Han Sang-won, presidente da associação para empresas de carne de cachorro de Seul.

No início deste ano, começaram a ser retiradas as instalações de açougue do maior mercado deste tipo no País, o mercado Moran, proibindo o abate e a exibição de cães vivos em gaiolas. Analistas afirmam que a medida foi tomada para se evitar boicotes e constrangimentos durantes as Olimpíadas de Pyeongchang, em 2018. Durante a Copa do Mundo de 2002, também sediada pela Coreia, houve manifestações internacionais expressivas contra a prática.

A lei de controle sanitário do produto pecuário, que rege seu abate, processamento, distribuição e inspeção, não classifica os cães como gado para ser processado como alimento. No entanto, sem nenhuma lei contra a venda e o consumo de carne de cachorro, a agricultura, a talha e o consumo continuaram em uma área legal cinzenta.

A indústria tem uma história que remonta a séculos, mas nos últimos anos lutou com a popularidade declinante dos pratos em face das críticas internacionais e de uma juventude crescentemente exposta a outro tipo de relação com o animal.

AFP
Ativista chinesa protesta contra festival de Yulin

Na China, apesar das polêmicas e críticas, o consumo de carne de cachorro como iguaria típica persiste sem restrições. O polêmico festival Yulin foi realizado em junho como todos os anos. Nele, milhares de chineses de todo o País se reúnem para comer diversos pratos preparados com ingredientes de base canina - gerando imagens que chocam e revoltam grupos de defensores dos animais pelo mundo.

O governo chinês, ao contrário do coreano, tem demonstrado inciativas para manter o hábito vivo como elemento de sua cultura. Ano após ano, enquanto grupos internacionais tentam levantar uma oposição ao costumes ditos como bárbaros do festival, a mídia estatal chinesa responde com destaques a artigos de opinião culpando as culturas ocidentais pelo assassinato de baleias e sugerindo que o oeste examine seus próprios valores.

E este movimento não é apenas da mídia estatal. Chineses em mídias sociais também atacaram eventos no oeste, como touradas na Espanha e caça a focas no Canadá, como hipocrisia contra seus costumes.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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