OPINIÃO

Torcida pra quê?

06/04/2016 16:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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Para dar o pontapé inicial neste honroso espaço, vou tratar de um tema que de certa forma se relaciona às minhas duas maiores paixões: esporte e arte (muito mais ao primeiro que ao segundo, é verdade). Farei uma reflexão sobre a transformação do comportamento das torcidas nas arenas, como elas cada vez mais se assemelham a plateias de espetáculos.

Quando comecei a frequentar estádios, ainda nos longínquos anos 80, o cenário era bem diferente do que é hoje. Eles eram todos bem desconfortáveis, e possivelmente por isto mesmo assistia-se ao jogo quase sempre de pé na arquibancada (invariavelmente uma grande escada de cimento com degraus maiores, que supostamente serviriam de assento).

O setor onde havia cadeiras era chamado de numerada, que de numerado mesmo não havia nada, já que não se respeitava o lugar marcado no ingresso, além de representar uma parte muito pequena do total. Esta configuração permitia públicos muito maiores. Em 1994, estive com mais quase 100 mil pessoas no Morumbi, na final do campeonato brasileiro. Nenhuma das arenas modernas possui tal capacidade. As maiores são o Soccer City em Joanesburgo (94.000), que recebeu a final da Copa do Mundo em 2010, e o novo Wembley (90.000).

No entanto, o tamanho do público não me parece ser o que realmente determina a mudança de comportamento. Nos mesmos anos 80 e 90, além do desconforto, havia muita insegurança, já que as brigas entre organizadas, dentro e nas cercanias dos estádios, eram frequentes. E não apenas aqui, mas em países mais desenvolvidos, com melhores níveis socioculturais. Na Inglaterra, depois de algumas tragédias, uma série de medidas foi implementada no começo dos anos 90 para combater a violência. Os hooligans passaram a ser punidos de fato, eventualmente banidos dos jogos e até presos, enquanto os estádios tornaram-se muito mais confortáveis, com assentos marcados para todos, rigorosamente, entre outras medidas, como a retirada dos alambrados. Eles entenderam que quanto melhor os torcedores eram tratados, melhor eles se comportavam.

Outro fator importante que coincide com a mudança comportamental é o aumento nos preços dos ingressos. Boa parte daqueles que costumavam ir ao estádio com grande frequência, os menos abastados, foram simplesmente preteridos. Estes novos ambientes no futebol inglês, muito mais confortáveis, seguros e caros, resultaram no quase desaparecimento das brigas entre torcidas, sobretudo dentro e próximo às arenas.

Acontece que não foi só a violência que sumiu. O incentivo constante, o grito incessante, o apoio quase incondicional que vinha da gente que via o jogo de pé, também desapareceu. Tomo como exemplo o Arsenal, de Londres. O clima no seu antigo estádio, o Highbury, que abrigou as partidas do clube entre 1913 e 2006, lindamente descrito por Nick Hornby no excelente e autobiográfico livro "Febre de Bola", era bem diferente do hoje observado no belo e moderno Emirates Stadium. E se o fracasso do time desde então (não vence o campeonato inglês desde 2004) não pode ser explicado exclusivamente por isto, não há também como dizer que é mera coincidência.

Pude comprovar isto in loco, já que assisti a mais de uma partida do Arsenal no Emirates, e a frieza do público era tamanha que me sentia constrangido em "torcer". A cada boa jogada do time da casa, aplausos. A cada erro, suspiros (muitas vezes mais efusivos que os aplausos). Eram raríssimos os coros pelo time, os gritos de guerra, o barulho ensurdecedor contagiante. Muita ansiedade, pouco apoio. Note que não estou comparando os ingleses com os brasileiros ou argentinos. É fato também que somos mais emotivos e barulhentos. O paralelo é entre os diferentes públicos do mesmo time.

Dizem que torcida não ganha jogo. É verdade, assim como também é certo que sem ela fica muito mais difícil vencer. São os torcedores que empurram e carregam o time, principalmente nos momentos mais difíceis.

Por aqui, não nos tornamos polidos como uma plateia em um concerto, mas certamente não fazemos mais o mesmo barulho, principalmente aquele que serve de incentivo ao time. Na verdade, parece até haver um fenômeno inverso, do tipo "tô pagando caro por isto aqui, exijo um grande futebol". A tendência de mais apupos/menos apoio pode ser vista em terras brasileiras também.

Eu tenho dúvidas sobre o que é mais causa e o que é mais efeito nesta história. A(s) pergunta(s) que proponho é(são): Será só o tal processo civilizatório que nos deixa assim, menos passionais, menos participativos, mais plateia e menos torcida? É esta "zona de conforto" das novas arenas que tira o compromisso da torcida com seu time, que condiciona o seu comportamento? Ou seria mesmo a mudança de perfil do público presente atualmente nos estádios, os mais ricos que não possuem a mesma empatia com seu clube de coração, a principal razão?

Não sei mesmo a resposta, mas acredito sim que é possível o melhor dos dois mundos, ou seja, conforto e segurança mais vibração e apoio constantes. Tudo com uma política de preços democrática, que permita o acesso à maioria. Como parece ser o caso na Alemanha, que tem o melhor exemplo em Dortmund, onde 20.000 pessoas (25% da capacidade do estádio, sempre inteiramente lotado) assistem a cada jogo do Borussia em pé, a preços módicos, fazendo uma tremenda festa. Pera, eu disse Alemanha? Sim, parece que eles têm esta mania de nos dar lições sobre futebol agora.

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