OPINIÃO

Vitória da 'Primavera Estudantil' de SP forjada à porrada e bombas de gás lacrimogêneo

04/12/2015 13:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
TABA BENEDICTO/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Não bastaram mais de 200 escolas ocupadas, dezenas de estudantes presos, e os embates desproporcionais com a Polícia Militar. A suspensão do projeto de reorganização e fechamento de escolas no Estado de São Paulo só veio em caráter oficial com uma pesquisa de popularidade. Nela, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) aparece mal. Bem mal.

Mais positiva do que a notícia, só mesmo o movimento que poderíamos chamar de 'Primavera Estudantil' em São Paulo, digno de comparação com o levante popular árabe no fim de 2010. A forte mobilização entre estudantes, professores, pais e entidades da sociedade civil foi forjada à base de muita porrada e bombas de gás lacrimogêneo.

O uso da PM e sua exacerbada característica de reprimir sem pudores - e com alta dosagem de violência desproporcional - é uma marca do governo Alckmin, que havia lançado mão do mesmo expediente durante as Jornadas de Junho, em 2013. Na época, foi fartamente criticado após os excessos, os quais não renderam nenhuma punição, diga-se.

Sem exagero: o principal legado da Primavera Estudantil paulista se deve ao caráter imperial e repressor das decisões saídas dos gabinetes, sem a devida transparência e diálogo. Um roteiro já conhecido. Sem tanta violência patrocinada pelo Estado, difícil crer em uma retomada tão forte e duradoura dos estudantes paulistas.

A expectativa do Palácio dos Bandeirantes, claramente, era vencer o #OcupaEscola pelo cansaço. Na forma de Alckmin governar o Estado, classificada pelo filósofo Vladimir Safatle como 'um imenso cafezal adquirido por herança', na qual a única resposta é 'pelo porrete', isso fica claro - a insistência de chamar o movimento de 'político' não colou (aliás, tudo é político. Qual seria a razão de desclassificá-lo por isso?).

Os movimentos estudantis mundo afora tem por base a instituição de ensino como a sua base de inserção e agente transformador da sociedade. No Brasil, lutas saídas dos polos educacionais e que ganharam as ruas não abaixaram a cabeça para uma ditadura militar antidemocrática, nem para um presidente que era o próprio marajá que dizia caçar.

Em tempos de crises política e econômica, não são poucos os que atestam que só com investimentos maciços na educação o Brasil poderá ter um crescimento sustentável a longo prazo e um fortalecimento de suas instituições. A suspensão do polêmico projeto de Alckmin prova que não falta vontade nem de aprender, nem de lutar.

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