OPINIÃO

São Paulo vive tempos de 'Opus Alckmin'

17/02/2016 16:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Antonio Cruz/Agência Brasil/29/10/2013

Se estivesse vivo, talvez Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975) aprovasse o governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Canonizado em tempo recorde em 2002, o sacerdote espanhol era um defensor declarado do ditador Francisco Franco (1892-1975). Mais notável do que isso, só o fato dele ser o fundador da organização religiosa Opus Dei.

Aos que não estão familiarizados, aqui vai uma descrição feita pela própria instituição:

"O Opus Dei (Obra de Deus, em latim) é uma instituição hierárquica da Igreja Católica -- uma prelazia pessoal --, que tem como finalidade contribuir para a missão evangelizadora da Igreja. Concretamente, pretende difundir uma profunda tomada de consciência da chamada universal à santidade e do valor santificador do trabalho cotidiano".

Alckmin integra o Opus Dei, como destacou em 2006 o vereador e hoje pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Andrea Matarazzo (PSDB).

"Como um católico conservador ('é claro' que Alckmin é membro da Opus Dei, apesar das suas negativas, opinou Matarazzo, apesar de não ser um dos líderes do grupo), Alckmin tem uma certa postura direitista no seu estilo de governar, o que ajuda a explicar por que ele tem o apoio de um segmento tão grande do empresariado", diz o telegrama vazado pelo Wikileaks, que descreveu o encontro entre Matarazzo e o cônsul americano Christopher McMullen.

Ora, e o que há de errado em tudo isso? Absolutamente nada. O caráter controverso que liga o governador de São Paulo e o Opus Dei diz respeito ao sigilo de suas atividades e atitudes. Não, eu não estou falando sobre o retrato pintado pelo livro de Dan Brown, O Código da Vinci. No governo 'Opus Alckmin', o segredo parece estar na ponta de cada canetada.

Só isso para justificar o sigilo de até 50 anos em alguns dados da polícia e da Segurança Pública do Estado de São Paulo. Em tempos de exposição de casos escabrosos de corrupção, de descalabro na Petrobras aos mensalões do PT e PSDB, a demanda popular por acesso e transparência é cada vez maior. Porém, o ponto de vista de Alckmin é diferente.

"O que não podemos fazer é divulgar dados que temos de preservar", disse o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, tentando diminuir o desgaste pelo sigilo - que não foi o primeiro, vide o caráter "secreto" de dados do Metrô, da CPTM e da Sabesp, para citar apenas três órgãos do governo estadual 'guardados a sete chaves', sabe se lá a razão objetiva.

As famosas chicotadas, descritas pela revista Superinteressante como "uma das modalidades de autoflagelo à qual os seguidores do Opus Dei recorrem pelo menos uma vez por semana", parecem resvalar no rosto da sociedade quando dados relevantes, que permitam o estudo e a comparação, com o que é vendido como verdade pelos órgãos oficiais.

A alta letalidade policial e as denúncias de dados controversos ou até 'maquiados' pelo Palácio dos Bandeirantes não impediram que uma canetada colocasse em repouso quase eterno os números da Segurança Pública paulista. No Opus Dei, o controle se dá sobre os seus milhares de seguidores. No 'Opus Alckmin' o que impera é o controle da transparência.

Nada do que aqui foi dito é exagero. Duvida? Veja o que o jornal Folha de S. Paulo concluiu a respeito da decisão do governo estadual quanto ao sigilo dos dados da segurança:

"É um atentado contra o bom senso e contra a boa fé. O governador se gaba de ter levado a taxa de homicídios abaixo do patamar - tido como aceitável segundo padrões internacionais - de 10 por 100 mil habitantes, mas a recente medida de seu secretário da Segurança, Alexandre de Moraes, lança dúvidas sobre os dados da façanha. Para que essa taxa seja crível, os boletins precisam estar à disposição da sociedade civil e dos especialistas independentes. Sem controle público, ficamos todos à mercê da propaganda oficial."

" (...) No Opus Dei se vive e se incentiva a liberdade e o pluralismo em todas as questões políticas, culturais, econômicas e sociais que não tenham sido definidas pela Igreja". Pluralismo, diversidade, liberdade. É o que a organização define como doutrina política, social e religiosa. Talvez o governador de São Paulo possa buscar justamente na sua religião o caminho mais sensato.

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