OPINIÃO

Na 'Minority Report' de Paes e Pezão, mais rasa do que a política para praias só a profundidade da desigualdade social

23/09/2015 11:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ALESSANDRO BUZAS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), o governador do Estado Luiz Fernando Pezão (PMDB) e o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, devem ser fãs de Tom Cruise e de um de seus filmes. Em Minority Report (2002), o personagem do ator americano integra um departamento de polícia que pode prever os crimes do futuro.

Ao defender revistas prévias de jovens do subúrbio que seguem em direção às praias da zona sul do Rio, os três gestores fluminenses estão dizendo que querem isso aí: prevenir crimes e arrastões, estes últimos que foram notícia até fora do Brasil nos últimos dias, com direito a um depoimento emocionado de uma turista britânica, alvo dos criminosos.

Na próxima première que Tom Cruise vier ao Brasil, para anunciar algum filme novo, que tal determos o ator caso ele siga para uma festa, dirigindo o próprio carro. Que tal? Afinal, beber e dirigir é crime e, por isso, é preciso prevenir, certo? Bem, nesse cenário de previsões para Mãe Dinah nenhuma botar defeito, melhor não acreditar que isso pudesse acontecer (vai que alguma autoridade gosta da ideia).

A prevenção que Paes, Pezão e Beltrame dizem querer fazer não é culpa da Defensoria Pública do Estado do Rio, que obteve uma vitória judicial que impede abordagens da Polícia Militar a jovens que estejam a caminho das badaladas praias da zona sul sem que exista um flagrante de algum delito. É o que prevê a Constituição, não? Assim, não cabe tachar de bandido quem não cometeu alguma ilegalidade - se cometida, há sanções previstas em lei.

Aliás, é preciso mencionar o que disse ao jornal O Globo o juiz Pedro Henrique Alves, da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio - aquele que concedeu a polêmica liminar que Beltrame apontou como 'culpada' pela polícia não estar atuando por 'constrangimento':

"Fui surpreendido pelas declarações do secretário Beltrame que, ao meu ver, estão incorretas, porque há sete meses tivemos reuniões exatamente para auxiliar a polícia no que tange ao combate à violência praticado por crianças e adolescentes".

Vejam bem, SETE MESES atrás. Aliás, o problema é muito anterior (digite 'arrastões Rio' no Google e olhe as datas), como mostrou um vídeo que viralizou nas redes sociais, produzido pelo finado programa Documento Especial, da TV Manchete. Aos que não assistiram, fica a dica para ver a íntegra do material que, embora tenha mais de 20 anos, parece ter sido produzido ainda ontem.

Alguém deve estar se perguntando "ah, ótimo, então como se resolve o problema? Tá defendendo bandido?". Não, aqui não há defesa de quem comete crimes. Arrastões devem ser combatidos com inteligência e trabalho integrado, no que tange a segurança pública. É o que a Justiça, ao impedir a apreensão sem motivos de jovens - em sua maioria negros e pobres -, está tentando estimular.

Para ninguém achar que é discurso vazio, olhe o que disse a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (AMAERJ):

"As Instituições do Estado encarregadas de garantir a segurança pública, podem e devem promover revistas de coisas e pessoas, havendo suspeita fundamentada, tal como dispõe o Código de Processo Penal. O que a ordem jurídica não admite é a interceptação de pessoas e impedimento do direito de ir e vir exclusivamente em razão de suas raças, origem de classe ou local de moradia, notadamente quando em direção a bem de uso comum do povo, como são as praias".

É perceptível e inegável que o problema dos arrastões é muito mais embaixo do que apresenta o discurso raso dos governantes. São essas mesmas autoridades que, por exemplo, não conseguiram - e, ao que parece, difilmente conseguirão - tornar as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) um veículo não só de segurança e combate ao tráfico de drogas, mas também de inclusão social - até um traficante já indicou que só assim vai funcionar. A fase 2 do projeto, bonita no papel, soa tão fantasiosa quanto Minority Report.

Aliás, sabem o que é possível prever de verdade e que também pode ser configurado como crime? Os 'justiceiros' que estão atuando nos bairros nobres e que, segundo consta, continuarão agindo para defender os 'cidadãos de bem'. E eles não têm nem vergonha de se esconder, como mostraram recentes reportagens do G1, da Folha de S. Paulo e de O Globo.

O último fim de semana me suscitou outras perguntas sobre esses 'justiceiros', como essa também mencionada pelo juiz Siro Darlan em sua página no Facebook:

Por que a polícia não prendeu os vândalos que estão danificando o ônibus?

Posted by Siro Darlan Oliveira on Segunda, 21 de setembro de 2015


Não se engane, a desigualdade social e o racismo ainda são, infelizmente, profundos não só no Rio, mas em todo o Brasil. Mais raso mesmo do que o discurso que tenta vender o contrário, só a poluição de Baía de Guanabara, creio.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:


LEIA TAMBÉM

- Ir à praia já é crime no Rio. Dirigir com 14 multas por embriaguez, não

- ASSISTA: 'O táxi não para, mas a viatura para', diz Emicida sobre o racismo no Brasil

- Professora negra: 'Fui discriminada e roubada por loja em shopping na zona sul do Rio'

- 15 imagens impactantes ilustram o PESO da discriminação em cada um de nós

Protesto contra o racismo em Copacabana