OPINIÃO

Linchamento no Guarujá: morte de suspeitos por traficantes escancara 2ª derrota do Estado de direito na semana

09/05/2014 15:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

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Morte de Fabiana colocou o Brasil contra a parede (Reprodução/Arquivo pessoal)


Insegurança e impunidade podem ser apontados como dois carros-chefes no justiçamento que pôs fim à vida da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, morta por uma verdadeira turba popular no Guarujá, no litoral de São Paulo. Acusada de ser uma sequestradora de crianças, ela nada devia e acabou morta de maneira sumária.

Se essa derrota do Estado brasileiro de direito - cuja prerrogativa de segurança ao cidadão consta na Constituição Federal - não fosse o bastante, o crime organizado tratou de apresentar mais uma nesta semana às autoridades do País, passados cinco dias do linchamento provocado por um boato lançado de maneira irresponsável na internet.

Segundo reportagem da Veja nesta quinta-feira (8), traficantes estariam "aplicando castigos em moradores de Morrinhos em represália ao espancamento de Fabiana", o que teria resultado inclusive no desaparecimento de pelo menos dois suspeitos de participação no crime contra a dona de casa.

Até o momento, a Polícia Civil prendeu três pessoas por possível envolvimento na morte de Fabiana - Valmir Barbosa, de 48 anos, Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 19, e Alex Oliveira de Jesus, de 23. Uma quarta pessoa se entregou nesta sexta-feira (9). Barbosa disse acreditar que "pelo menos 100 pessoas" participaram do linchamento, mas a dúvida reside em quem chegará primeiro até eles: se será a polícia ou o crime organizado.

Em depoimento à polícia, Lopes declarou também que muitas pessoas já fugiram de Morrinhos, justamente diante da repercussão do crime. Essa mesma repercussão, que colocou a comunidade sob os holofotes, fez com que a polícia marcasse presença constante na área, o que irritou os criminosos que atuam na área.

O site que publicou e espalhou o boato que ceifou a vida da dona de casa, que pode contribuir com a polícia, por outro lado, agora adota uma postura "cautelosa".


A aplicação de "corretivos" no mundo do crime, com direito a "tribunais do crime" e execuções sumárias, não são uma novidade no Brasil. Com a entrega do sistema carcerário às facções criminosas, linhas de conduta a serem seguidas pelos próprios criminosos foram implementadas ao longo das últimas duas décadas. Não seguir tal "cartilha" costuma resultar em um único resultado: morte.

A deputada Maria do Rosário (PT-RS), que foi ministra da Secretaria de Direitos Humanos até março deste ano, resumiu bem a posição difícil na qual o Estado brasileiro foi posto com o crime bárbaro no Guarujá.

"O boato espalhado por meio de redes sociais repercutiu como pólvora, e Fabiane foi julgada, condenada e sentenciada à morte por uma turba enfurecida sem direito à defesa. Um marido perdeu sua esposa, duas filhas perderam uma mãe, e o Brasil se tornou menos nação", disse, em pronunciamento na tribuna da Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (8).

Ao permitir dois tipos distintos de justiçamentos - primeiro de uma inocente, depois de suspeitos de um crime -, o Estado brasileiro é colocado em xeque. Aumento da repressão é o único caminho? Não parece, visto o noticiário semanal por todo o País. Com a palavra final, as autoridades.