OPINIÃO

Ir à praia já é crime no Rio. Dirigir com 14 multas por embriaguez, não

25/08/2015 11:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
Montagem/Estadão Conteúdo e YouTube

Vivemos tempos estranhos, recheados de retrocessos. Lugar comum falar isso hoje, creio. É o mesmo quando se pensa no quanto cada brasileiro que é pobre, negro e more na periferia - subúrbio, se você for do Rio de Janeiro - sente no que diz respeito à repressão do Estado. Mais do que isso: a realidade sem nenhum ar de novidade ao criminalizar a pobreza.

A notícia denunciada pelo jornal Extra no domingo (23) quando mais de cem jovens foram 'recolhidos' pela Polícia Militar do Rio por um único 'crime': querer ir à praia. Não, eles não estavam fazendo nada de errado. Não portavam drogas, nem armas, e não furaram a catraca do ônibus que os levava para a zona sul.

Como bem definiu um adolescente de 17 anos, apreendido pelos PMs:

"Tiraram 'nós' do ônibus pra sentar no chão sujo e entrar na Kombi. Acham que 'nós' é ladrão só porque 'nós' é preto".

Tudo, claro, sempre pode piorar. O mesmo Estado que criminaliza a pobreza, promovendo uma ação digna de apartheid, procurou justificar a apreensão dos adolescentes. Ainda no domingo, a PM fluminense informou que os jovens "estavam em condição de vulnerabilidade", por "estarem na rua sem dinheiro", seguindo assim uma suposta recomendação do Ministério Público.

Na segunda-feira (24), o governador do Rio Luiz Fernando Pezão (PMDB) adicionou mais 'explicações' ao assunto. Segundo ele, tudo foi feito para "evitar arrastões" nas praias da zona sul. Como foi feita a suposta identificação dos 'meliantes'? "Inteligência da polícia", justificou Pezão.

"Repercussão sempre dá. Dá quando (a polícia) não age e quando age. Quantos arrastões nós tivemos, praticados por alguns desses menores? Não estou falando que são todos os que estavam ali, mas tem muitos deles, mapeados, que já foram apreendidos mais de cinco, oito, dez ou 15 vezes, como na Central do Brasil".

A tão eficiente inteligência da polícia do Rio não convenceu a Defensoria Pública, que criticou a ação endossada pelo governo estadual "Não dá para imaginar que o adolescente, em um ônibus, indo para praia, seja um adolescente que vai cometer atos infracionais. Não tem como saber, a não ser por adivinhação", disse a defensora pública Eufrásia Souza das Virgens, coordenadora de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Pezão poderia responder como é possível a tão eficiente inteligência da polícia do Rio não ter, por exemplo, respondido a pelo menos três perguntas:

1-Onde está Amarildo?

2-Como pode uma pessoa estar presa há tanto tempo no Estado pelo porte de um desinfetante?

3-A terceira é talvez a mais importante dentro do noticiário: como pode uma pessoa com 240 pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), fruto de 70 multas - 14 das quais por embriaguez ao volante, estar dirigindo livremente, sem qualquer sanção?

A inteligência do Estado que reprime o pobre e negro, 'adivinhando' os seus 'crimes futuros', ainda não conseguiu esclarecer essa última dúvida. Se possível, eu faria essa pergunta ao operário José Fernando Ferreira da Silva, de 44 anos. Infelizmente, não será possível. Ele foi atropelado e morto pelo empresário Ivo Nascimento de Campos Pitanguy, de 59 anos, filho do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Se você não viu a violência da batida, veja abaixo:

De acordo com a delegada Monique Vidal, ao dirigir embriagado, como atestam as testemunhas do acidente e os policiais que atenderam a ocorrência, o empresário assumiu o risco de matar alguém - o que justificou o indiciamento por homicídio doloso (quando há intenção de matar).

Sim, o Estado está acompanhando: Pezão já declarou que instou o Detran-RJ para saber os motivos para o empresário ainda estar dirigindo, mesmo com uma ficha dessas. Sem esquecer, logicamente, o princípio da presunção da inocência, garantido no artigo 5º da Constituição Federal.

Só não há salvaguarda do gênero ou inocência alguma se você, brasileiro, pobre, negro, querer ir à praia em uma região da cidade "que não lhe pertence".

A inteligência da polícia. A inteligência do Estado. Sim, não é impressão: eles abusam da NOSSA inteligência.

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