OPINIÃO

Caso Carli Filho no Paraná e a Justiça que não anda a 173 km/h

18/01/2016 11:49 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Reprodução Facebook

Uma família esperava poder enterrar o seu filho no próximo dia 22 de janeiro de 2016 em Curitiba (PR). Ele já morreu há sete anos, porém o homem apontado como responsável por sua morte, um ex-deputado estadual, segue em liberdade. O notório caso, ao contrário do carro conduzido pelo acusado em 7 de maio de 2009, não anda a 173 km/h no Brasil. É mais lento, muito mais lento.

"Nós ainda não conseguimos enterrar o nosso filho. Essa não é uma derrota parcial da nossa família, mas de toda a sociedade. A gente percebe que existe uma diferença: uns pagam por seus crimes, enquanto outros, que têm influência política, não pagam". A frase é de Gilmar Yared e veio após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em suspender o julgamento marcado para a próxima sexta-feira (21) do ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho.

Quase 7 anos se passaram e em nenhum momento recebemos um telefonema sequer da Família Carli. Vejo que não há...

Publicado por Gilmar Yared em Sexta, 15 de janeiro de 2016


Naquele 7 de maio de 2009, o carro conduzido por Carli Filho atingiu o veículo conduzido Gilmar Rafael Souza Yared. Junto com ele estava o amigo, Carlos Murilo de Almeida. Os dois foram decapitados pelo carro do ex-deputado, que estava em alta velocidade - o velocímetro estava travado em 190 km/h após o acidente, mas a perícia apontou a velocidade de 173 km/h no momento da batida.

Para quem não se recorda do caso, aqui uma reportagem da época:

De acordo com a decisão do STF, a suspensão do julgamento aconteceu em razão de um recurso da defesa de Carli Filho junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). O ex-deputado é acusado por homicídio doloso (quando há intenção de matar), já que a acusação ressalta que ele estava alcoolizado e ainda possuía 130 pontos em sua habilitação, a maioria por excesso de velocidade. A defesa quer desclassificar a acusação para homicídio culposo (sem intenção), fruto de um simples acidente de trânsito.

"Quem é o responsável pelo acidente? Não é quem tinha bebido. Não é quem estava em suposto excesso de velocidade. Não é quem era deputado, quem tinha carro importado. É quem violou a via preferencial", sentenciou o advogado René Dotti, figura respeitada no âmbito jurídico nacional e que integra a defesa de Carli Filho. A mesma que não se furta em apontar a 'novelização' do caso e se utilizar de infinitos recursos para travar o andamento do processo há sete anos.

Sediado na mesma Curitiba do caso Carli Filho, o juiz federal Sérgio Moro - responsável pelas investigações da Operação Lava Jato - costuma ressaltar sempre que a Justiça brasileira é notória em criar "processos sem fim", ao permitir um número infindável de recursos. Para ele, é o abuso do pleno direito de defesa garantido pela Constituição. Casos como esse no Paraná tornam difícil argumentar contrariamente ao magistrado.

Não bastasse isso, há ainda uma denúncia de que a mãe de Gilmar Rafael Souza Yared, Christiane Yared, seria alvo de um esquema que planejava assassiná-la. O tema está sendo investigado pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR). Com contornos de impunidade, lentidão e violência que o tornam referência - em meio a um mar de processos parecidos no Brasil -, a missão da família Yared continua.

Meus queridos, muito obrigada novamente por todo o apoio que vocês tem dado. Esta é uma luta de todos nós. Todos os...

Publicado por Christiane Yared em Sábado, 16 de janeiro de 2016


"Ainda acredito que esse júri será um divisor de águas ao país. País que não pune, não educa. Nós não vamos desistir e vamos levar o senhor Luiz Fernando Ribas Carli Filho ao banco dos réus", disse Christiane Yared na semana passada, após encontro com o presidente do STF, Ricardo Lewandowski - o magistrado pontuou que concedeu o habeas corpus para evitar que o julgamento sofresse de nulidade mais adiante.

A resiliência dos Yared, que não trafega a 173 km/h, certamente é maior do que o carro do filho que não resistiu ao 'veículo voador' de Carli Filho, ou a insistência da Justiça brasileira em não cumprir o seu papel com a devida presteza.

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