OPINIÃO

Educação x falta de educação: a triste ironia que amaldiçoou e salvou a vida do professor André Luiz espancado em São Paulo

02/07/2014 15:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Reprodução/Facebook

Educação vem do verbo educar, que significa não só instruir, é mais do que isso: é "despertar as aptidões naturais do indivíduo e orientá-las segundo os padrões e ideais de determinada sociedade, aprimorando-lhe as faculdades intelectuais, físicas e morais", segundo descrição do Dicionário Aurélio. Para não ficar só na teoria e ver na prática, o quase linchamento de um professor na periferia de São Paulo no fim do mês passado é um bom exemplo de que ainda temos um longo caminho pela frente no Brasil.

As manifestações de junho e julho do ano passado deram uma boa mostra de que os nervos dos brasileiros estão mesmo à flor da pele. A insatisfação com a política e com a prestação de serviços públicos que levou milhares de pessoas às ruas nas principais cidades do País arrefeceu com a Copa do Mundo e com a ação dos chamados black blocs - adeptos da tática que visa vandalizar símbolos do capitalismo -, mas se engana quem acha que o tom reacionário desapareceu.

A ironia é justamente um professor, André Luiz Ribeiro, de 27 anos, ter sido confundido com um ladrão e acabar sendo alvos de mais de uma dezena de pessoas, que quase o lincharam em praça pública, no bairro Balneário São José, na região de Parelheiros, na zona sul da capital paulista. O caso lembra e muito a ação de populares na morte de Fabiane Maria de Jesus, em maio deste ano, após ser brutalmente espancada até a morte no Guarujá (SP). No fim, nada devia, como tudo indica também ser o caso de Ribeiro.

"Eu via esse tipo de caso nos jornais e na TV, mas a gente nunca acha que vai acontecer conosco. A dor que fica é a psicológica. Tive muito medo de ficar preso por meses e não conseguir dar aula", disse o professor de História ao jornal O Estado de São Paulo.


Ou seja, aquele que faz da educação o seu "ganha pão" é justamente alvo de uma verdadeira falta de educação, afinal, devemos considerar que cidadania e o respeito que se existe em uma sociedade que se preza a viver pacificamente são preceitos da educação, daqueles que, só para ficar no lugar comum, "a gente aprende em casa". O educador, "amaldiçoado" pelo total desprezo educacional dos seus algozes, ainda teve de salvar-se com a mesma educação que lhe paga as contas.

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"Se você é professor de História, então dá uma aula sobre Revolução Francesa", teria dito um bombeiro que prestava socorro a Ribeiro. "Falei que a França era o local onde o antigo regime manifestava maior força, e que a burguesia comandou uma revolta junto com as causas populares, e que havia fases da revolução. Falei por uns três minutos e perguntei se já estava bom", relembrou ao jornal O Globo. O Corpo de Bombeiros, no Twitter, negou qualquer "desrespeito ou deboche na ação".

A humilhação fica completa com a versão dada por Djalma dos Santos, de 70 anos, dono do bar que foi assaltado e aquele que, segundo os relatos que se espalharam nas redes sociais, perseguiu o professor de História em um Fusca e deu início ao espancamento, que ganhou a adesão voluntária de populares, ao estilo "bandido bom é bandido morto".

"A população que acorrentou, que bateu, eu não fiz nada. O que eu tinha que falar já falei na delegacia. Não adianta nada ficar perguntando, não vou retirar o que disse. Eu gritei que era ladrão e a população da rua foi atrás dele. Se ele não devia nada, vai dar uma mancada dessas de estar correndo no meio dos bandidos na hora do assalto?", afirmou.

Além de apanhar sem dever, Ribeiro ainda passou dois dias preso, em um relato detalhado feito pela Vice. Livre, ele espera por Justiça, algo que a Secretaria de Segurança de São Paulo só conseguiu responder por enquanto por meio de nota - a mesma encaminhada para todos os veículos de comunicação que procuraram a pasta para entender melhor tudo o que aconteceu.

"O delegado André Antiqueira, titular do 101º DP, se coloca à disposição para ouvir em depoimento quem tenha novas informações para acrescentar à investigação (...). O professor foi preso em flagrante em cumprimento do artigo 302 do Código Penal, já que a vitima o reconheceu como um dos participantes do roubo ao estabelecimento comercial em duas oportunidades. A Justiça concedeu liberdade provisória ao acusado", finaliza o comunicado.

Ainda vivemos em um País em que a educação é tratada com extrema demagogia - esse ano ainda mais, afinal, teremos eleições. É um Brasil no qual o fato de torcedores japoneses recolherem o lixo que produziram nos jogos da seleção do seu país na Copa do Mundo causa verdadeiro espanto - lembrem-se que ainda temos que produzir leis que multem que joga lixo na rua (!).

Mas só o chavão de "é preciso investir na educação" poderá impedir os excessos, os quais curiosamente fizeram Robespierre (um dos líderes da Revolução Francesa) perderem a cabeça - literalmente em 1794. Olha aqui outra ironia. Que não percamos a cabeça fazendo Justiça com as próprias mãos no tempo presente.