OPINIÃO

Brasil x Camarões: não é a primeira vez que jogo da Seleção em Copas causa 'medo' na Fifa

23/06/2014 10:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02
Thinkstock

Morde e assopra. Foi assim que a Fifa reagiu aos se explicar no fim da semana passada quando o tema foi uma possível manipulação do resultado do jogo entre Brasil e Camarões, que acontece nesta segunda-feira (23) em Brasília. Talvez em terras tupiniquins o tema soe "fantasioso demais" para ser levado a sério. Bom, ingênuo é não saber que não é a primeira vez que um jogo da Seleção Brasileira gera medo na entidade máxima do futebol.

Em 2006, o Brasil goleou Gana por 4 a 0, em partida válida pelas oitavas de final da Copa na Alemanha. Não se menospreza o potencial daquele time brasileiro aplicar uma 'lavada' sobre a seleção africana. O que se sabe, porém, é que apostadores asiáticos procuraram jogadores ganeses para manipular o resultado do confronto. Toda a saga em torno dessa partida foi relatada pelo jornalista canadense Declan Hill no seu livro Máfia no Futebol (The Fix, 2008).

Li o livro e o entrevistei no ano passado. Por conhecimento de causa, Hill já adiantava que a máfia asiática de apostadores tentaria corromper jogadores na Copa deste ano no Brasil. Como sempre, as seleções de países mais pobres seriam os alvos principais dos criminosos. A Fifa tem ciência do que acontece nesse submundo sujo da bola, mas pouco faz para mudar o cenário, na visão do jornalista.

"As seleções africanas continuarão sendo alvo dos apostadores e da máfia do futebol enquanto os seus dirigentes seguirem tratando mal os seus jogadores. Quando as confederações locais pararem de explorar os seus atletas, nós veremos os arranjos pararem. O que vemos hoje é um preconceito europeu ao fato de que na Ásia está o mercado de manipulação e compra de jogos. Falta vontade política para resolver o problema", me disse na época.

Antes do início da Copa, Hill publicou um novo alerta em matéria publicada no jornal New York Times. O chefe de segurança da Fifa, Ralf Mutschke, reforçou na semana passada que o jogo entre Brasil e Camarões era considerado "de alto risco" - algo que ele já havia dito em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, em janeiro deste ano. O fato dos camaroneses quase terem desistido da Copa por questões financeiras e já estarem eliminados só agravaria o problema.

No sábado (21), a Fifa tratou de pôr "panos quentes" no assunto.

Mas todo o cuidado é pouco. Reportagem do jornal inglês The Telegraph do último domingo (22) diz que altos dirigentes da Federação Ganesa de Futebol (olha Gana aqui, outra vez) teriam topado manipular resultados em troca de US$ 170 mil por partida. Tudo bem que a entidade africana divulgou nota para desmentir a matéria da publicação, apresentando os seus próprios argumentos, mas o fato concreto é que os altos lucros da Fifa, somados às remunerações baixas de grande parte dos jogadores das seleções menos badaladas, abrem espaço para a corrupção no futebol.

Recentemente, a Interpol prestou treinamentos à Polícia Federal brasileira em várias áreas, dentre as quais está a manipulação de resultados e corrupção no futebol. Nesta Copa das Copas, como está sendo chamado o mais eletrizante Mundial em muito tempo - talvez a melhor de todos os tempos -, é esperar que o crime organizado não se faça presente. Todavia, a discussão e combate à corrupção ainda possuem um longo caminho pela frente.

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