OPINIÃO

As lições que as urnas deixam para o Gigante que (AINDA) não fez a diferença nas eleições

10/10/2014 16:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
Cris Faga/Fox Press Photo/Estadão Conteúdo

Assim como eu, tenho certeza que você conhece alguém que ficou profundamente decepcionado com o resultado das eleições, cujo primeiro turno aconteceu no dia 5 de outubro. Talvez você mesmo esteja totalmente descrente, diante de algumas reconduções aos cargos majoritários deste Brasil.

Naturalmente, a "culpa" recaiu rapidamente sobre as Jornadas de Junho. "Era melhor o Gigante ter ficado adormecido", vociferavam alguns tão logo os resultados eram divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O que deu errado? Nenhuma mudança? Eu mesmo fiquei aborrecido e fiquei pensando sobre o assunto.

A minha conclusão foi: não, as Jornadas de Junho não foram em vão. Não, o Gigante não foi uma mera nuvem passageira. E sim, você vai ter de ler o texto até o final para compreender a razão pela qual me sinto a vontade para dizer isso.

Os meus pensamentos me levaram a uma entrevista que fiz com um dos líderes do Movimento Passe Livre (MPL), em agosto do ano passado. Ainda estávamos no momento das grandes agitações, e o questionei sobre como eles buscariam algum tipo de inserção na conjectura política brasileira - afinal, ninguém representava as ruas na esfera política, certo?

"A gente não tem essa discussão ainda, nem pretende fazer algo nesses termos", sentenciou.

Isso permaneceu um bom tempo na minha cabeça. Todavia, julguei que o caráter integralmente antipartidário dos coletivos que lideraram as principais manifestações pelo País poderiam encontrar a sua limitação justamente nessa recusa em se inserir no plano maior, o qual, embora recheado da chamada 'velha política', ainda é o vigente e o será, pelo menos até os brasileiros serem brindados com uma reforma política verdadeira e transparente.

Resolvi conversar com algumas pessoas sobre isso. E tive alguns retornos bastante produtivos. O do professor da USP Pablo Ortellado foi um deles. Ele citou a história das grandes mobilizações populares para derrubar logo de cara a tese de que as Jornadas de Junho iriam fazer a diferença nestas eleições.

"Quando você olha historicamente os grandes levantes, eles nunca tiveram impacto direto na eleição seguinte. Pegue os protestos de 1968 na França, houve a mobilização e o (general Charles) De Gaulle foi reeleito (primeiro-ministro) com relativa folga. Isso (manifestações) não tem relação com o processo eleitoral. Eu não tinha essa expectativa (de mudança)", me disse Ortellado.

Então, no campo político, para que serviram as Jornadas de Junho? É inegável dizer que algumas das pautas abordadas evoluíram, tanto que a candidata Luciana Genro (PSOL), que defendia com maior veemência muitas delas - o aborto legal, a criminalização da homofobia, e a legalização da maconha, para citar apenas três -, foi a quarta colocada, com mais de 1,6 milhão de votos. O candidato Eduardo Jorge (PV), outro a encampar os mesmos temas, mas não tão à esquerda, também fez uma votação acima dos 630 mil votos.

"A pauta nestas eleições foi mais interessante, tanto que o Eduardo e a Luciana tiveram um discurso mais arrojado, mais ligado aos movimentos, com os anseios de modernização", comentou o sociólogo Wagner Iglecias, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP.

A cadê a mudança? Bem, houve sim uma mudança

Se houve um cenário de discussão mais qualificada de algumas demandas encampadas pelas Jornadas de Junho, qual foi o motivo de não ter dado resultado? Diálogo. Apartidários, os coletivos não dialogaram com aqueles setores da sociedade que não foram às ruas em 2013. O resultado pode ajudar a explicar ainda o recrudescimento das posições conservadoras, transferidas para o Congresso Nacional, conforme abordei aqui, e reeleições de governos de centro ou centro-direita pelo Brasil.

"Teve um descasamento e distância entre as marchas e os resultados das urnas. Ou elas não foram tão grandes como a gente pensava na época, então aquele que ficou em casa não se identificou e deu o seu voto conservador. Ou quem foi para rua estava querendo a mudança à direita mesmo, achando que assim seria o melhor jeito de atingir as demandas", opinou Iglecias.

Voltando à história, não só do Brasil, mas de outros cenários mundo afora, os levantes populares que geraram mudanças cristalinas sempre contaram com um líder ou um grupo de comando, que exercia justamente esse papel de interlocução. Dito isso, ficou fácil para a 'velha política' se manter onde está há décadas. "A classe política fingiu que não ouviu", resumiu o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB).

Lições aprendidas, e um olhar sobre 2018

Concluindo, insisto que as Jornadas de Junho não foram de forma alguma uma 'perda de tempo' ou de esperança popular. Você que, como eu, ficou decepcionado com as eleições de 2014, que não vê exatamente grandes diferenças entre o vencedor da disputa presidencial entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), deve manter o foco e esperar por 2018.

Os próximos quatro anos poderiam ser chamados de 'tempo de maturação' e de intensificação das discussões apresentadas nas ruas e também nas redes sociais. A sensação de fracasso deste ano também serve como aprendizado, conforme me disse Ortellado. "Acho que temos que nos organizar politicamente. Eleição não é mágica, principalmente para os setores progressistas, que precisam sim se organizar em um sentido mais amplo. Não dá para pensar em mudança isoladamente", avaliou.

A volta às urnas pode ter um desfecho mais positivo aos insatisfeitos em 2014? "É possível. Vai aumentando a frustração, a revolta para que a classe política atenda essas demandas", afirmou Fleischer. Naturalmente, não temos uma bola de cristal para prever o que irá acontecer. Mas é inegável a existência de um cenário que possa, por enquanto, estar mantendo o chamado Gigante em um estado de hibernação rumo a uma maior maturidade política e, por consequência, eleitoral.

"Em 2018 poderemos ver algo que o resultado deste ano não mostrou. Dependendo de quem assumir o País, virão medidas recessivas e que podem afetar a população, aumentando a frustração e trazendo de volta justamente esse movimento de transformação. Diria que a tendência é mesmo essa. Os partidos que estão aí não farão nada além do que fizeram. É possível imaginar, em quatro anos, um cenário com declínio dos partidos tradicionais, pela decepção popular, e ascensão dos partidos de esquerda (como o PSOL) e os de direita (PSC, PRB e outros)", concluiu Iglecias.

Não, caro leitor que chegou até aqui. As Jornadas de Junho não estão perdidas. Elas exerceram e ainda exercem um papel de destaque na discussão desta democracia - recente, diga-se - que está sendo construída no Brasil. Que os próximos quatro anos deem tempo aos eleitos de cumprirem o seu papel, ao mesmo tempo que a vontade coletiva siga em discussão para mudar e otimizar a busca por um País mais igual e humano.

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