OPINIÃO

A autofagia e 'fim' do MPL: A ironia da política burocrata entre os líderes das Jornadas de Junho

06/08/2015 14:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Alex Silva/Estadão Conteúdo

Saiu no jornal Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (6): "Dissidente 'decreta' fim do Movimento Passe Livre (MPL) e gera crise interna". O título, como se espera da prática jornalística, gerou a devida curiosidade para inspirar a leitura. Em linhas gerais, o texto mostrava o conflito entre duas posições dissonantes - a daquele que saiu, e a dos que ficaram.

É curioso lembrar, rapidamente, o fato do MPL ter tido o seu auge durante as Jornadas de Junho de 2013. A disputa pela redução da tarifa, com mais holofote em São Paulo, se espalhou por outros Estados e levou diferentes personagens da sociedade brasileira, de diferentes classes sociais, às ruas, lado a lado. Não foi pouca coisa, tanto que a tarifa foi reduzida em SP, por exemplo.

Todavia, ainda durante o ápice do movimento as perguntas do 'passo a seguir' já existiam. Esse texto aqui nasceu não só da notícia da Folha desta quinta-feira, mas também do que Marcelo Hotimsky, tido como uma das lideranças do MPL em SP, me disse uma vez, em agosto de 2013, quando perguntei se a proposta era seguir 'apartidário' e 'horizontal'.

Como um 'desconhecedor' dos preceitos ideológicos mais profundos do movimento na época, quis saber diretamente se iriam ou não manter a aversão à política. A resposta veio assim:

"A gente não tem essa discussão ainda, nem pretende fazer algo nesses termos, mas sempre fez esse debate (da tarifa). Antes da eleição para prefeitura, nós fizemos um jornal, no qual falávamos das propostas de mobilidade de cada candidato. É isso, não dizíamos que determinada proposta era melhor ou pior, mas a gente mostrava o quanto eram inadequadas. Mas é claro que entre elas se podia ver as diferenças. A gente considera que o transporte tem ganhado uma centralidade no debate público. Não temos apenas um caminho [a seguir], temos vários".

Não, eles não iam fundar ou apoiar um partido político. Não, a representatividade para o MPL nunca se deu sob esse viés da 'política tradicional', a qual o jornalista Clóvis Rossi definiu como 'alicerce da democracia'. "Não é assim que funciona? A sociedade tem demandas, grupos se organizam para defendê-las e a Política (sic) faz a intermediação entre a sociedade e o Estado", escreveu.

Como cidadão, sempre me criou uma inquietação essa visão de que seria possível derrubar tudo o que está aí e começar uma autogestão social do zero, horizontalmente, com a participação de múltiplos protagonistas. Irônico, contudo, é justamente a noção de que a mais 'odiada' adversária do MPL, a política, e sua 'colega' burocracia, façam com que o movimento sofra uma autofagia. Não são poucos os textos semelhantes aos do 'dissidente' Lucas Monteiro, publicado no site Passa Palavra - um reduto dos que não concordam com o MPL pós-2013.

"Considero que o MPL, ao não se pensar como um movimento inserido nas dinâmicas de lutas mais amplas dos trabalhadores e trabalhadoras, foi incapaz de superar seus próprios limites. Pensávamos que estaríamos imunes aos processos de burocratização que ocorrem em mobilizações vitoriosas. Entendo que a potencialidade transformadora de um movimento não é medida pela radicalidade de sua pauta, mas sim pela maneira como a mobilização em torno dela é capaz de produzir novas dinâmicas e experiências de luta. Por isso entendo que ao olhar para o próprio movimento e não para o transporte inserido na dinâmica da luta de classes, o MPL deixou de ser capaz de criar novas estruturas políticas e sociais, chegando ao seu fim".

Há outros textos (aqui, aqui e aqui) que também questionam as disputas internas vividas pelo MPL, notadamente em SP. O criticado apartidarismo, pelo que dizem os dissidentes, virou apenas teoria, já que na prática grupos que discordavam passaram a ser discriminados. Na tentativa de 'formar posição', reuniões intermináveis acirraram ânimos.

Dos textos postados, sugiro uma leitura dos comentários, vários deles de pessoas que fazem ou fizeram parte do MPL.

Já quem segue no MPL hoje minimiza críticas como às daqueles que saíram. Mayara Vivian lamentou, no Facebook, a "falta de cautela" do agora ex-colega de movimento. E negou o 'fim' do coletivo, tampouco aceitando a pecha de que o grupo se tornou refém do 'fantasma burocrata' que assombra as experiências socialistas na história (sim, a União Soviética pautou essa última parte).

"Quando a gente se torna figura pública de um movimento social, devemos ser cautelosos e humildes em relação a forma como vamos usar isso, evitando ao máximo promover a nós mesmos ou nossas posições políticas por conta do fato de sermos mais conhecidos, ou mais expostos...carregamos uma imagem de luta que foi construída por muitos, e não apenas por nós, e isso muitas vezes se confunde.

Infelizmente o compa Lucas Legume não segue essa cautela. Como também não se importou todo esse tempo de disputar suas posições no movimento instrumentalizando seus outros espaços de militância. Criticar é fundamental, e inclusive concordo e debatemos muitas dessas críticas, mas chegar a arrogância de 'decretar' o fim de um movimento era algo que eu não esperava de uma pessoa que sempre achei sensata. Mas acho que não só o movimento social muda, as pessoas mudam tbm. Não, meu caro. O movimento não acabou porque vc passou a discordar dele. Mais uma vez ele se reinventa, como sempre (e quantas vezes já não reinventamos essa bagaça?) (sic)".

Sem querer decretar certos ou errados, vencedores ou derrotados, o que está claro é o poder da política - "ciência da organização", como diziam os gregos na Antiguidade - nestas disputas internas do MPL. É o que se espera de organizações de cunho político, o contraditório, não? Essa 'ironia autofágica' mostra, pelo menos neste momento, que as organizações sociais seguem sendo um alvo constante de teorias.

A prática, porém, ainda impõe desafios, nem tanto nas dificuldades, mas principalmente no momento das vitórias. Não, creio que o MPL não acabou. Repousa a dúvida do que se tornou/tornará e quais serão os seus próximos passos.

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