OPINIÃO

Estudo inglês mostra que o uso a maconha pode ser uma estratégia eficaz para reduzir o consumo de crack

Estudos na Jamaica e no Brasil indicam que usuários de crack frequentemente usam maconha para reduzir o desejo pela droga e outros efeitos indesejáveis.

31/05/2017 18:50 -03 | Atualizado 02/06/2017 19:11 -03

A medical cannabis grower.

M-J Milloy e M. Eugenia Socias, Universidade da Colúmbia Britânica

A América do Norte está em meio a um desastre de overdose de drogas. Na Colúmbia Britânica, no Canadá, onde cerca de 1.000 pessoas morreram de overdose em 2016, autoridades declararam estado de emergência de saúde pública.

Embora o excesso de prescrições médicas para analgésicos e a contaminação do fornecimento ilegal de opioide por meio do fentanil, um forte analgésico sintético, estejam no centro do problema, os usuários de opioides não são os únicos em risco. Autoridades de saúde pública na Colúmbia Britânica alertam que o fentanil tem sido detectado em muitas drogas que circulam no mercado ilícito, como o crack-cocaína.

A possibilidade de overdose de opioide é uma nova e incomum ameaça para pessoas que usam crack, que é um estimulante. Seu consumo, seja fumando ou com agulhas, não é necessariamente fatal.

Se mal utilizado, no entanto, o crack pode com certeza causar danos à saúde, como cortes e queimaduras decorrentes de cachimbos não seguros. Compartilhar os cachimbos também pode transmitir doenças como o HIV e hepatite C. No longo prazo, o consumo elevado e frequente de crack pode contribuir para complicações psicológicas e neurológicas.

Apesar da estimativa de 14 a 21 milhões de usuários de cocaína no mundo todo, a maioria morando no Brasil e Estados Unidos, cientistas ainda buscam um tratamento médico eficaz para ajudar pessoas que queiram diminuir o uso problemático da droga.

Tratamento com cannabis

Agora cientistas canadenses estão pesquisando um substituto não convencional para o crack.

Uma pesquisa realizada pelo Centro da Colúmbia Britânica de Uso de Substâncias, em Vancouver, mostra que a maconha pode ajudar as pessoas a diminuir o uso de crack. O "baseado" poderia ser para o crack o que a metadona é para a heroína — uma droga substituta permitida, segura e eficaz que reduz o desejo e outros impactos negativos do uso problemático de drogas?

Entre 2012 e 2015, nossa equipe pesquisou mais de 100 usuários de crack-cocaína nos bairros Downtown Eastside e Downtown South de Vancouver. São áreas pobres onde o crack é comum entre usuários de drogas. Descobrimos que as pessoas que fumavam maconha intencionalmente para controlar o uso de crack mostraram uma redução significativa no consumo da pedra, com a proporção de usuários que relataram consumo diário caindo de 35% para 20%.

Os dados deste estudo, que foi apresentado recentemente na Conferência de Redução de Danos, em Montreal, foram extraídos de três coortes prospectivas abertas e em andamento, com mais de 2.000 pessoas que usam drogas (não necessariamente apenas estimulantes). São eles: Estudo com Usuários de Drogas Injetáveis de Vancouver (VIDUS, na sigla em inglês); Coorte de Cuidado da Aids para Avaliar a Exposição aos Serviços de Sobrevivência (ACCESS); e o Estudo de Jovens Sob Risco (ARYS).

Utilizamos procedimentos harmonizados para o recrutamento, acompanhamento e coleta de dados. Indivíduos nesses coortes foram recrutados por meio de amostragem por bola de neve e extensivo trabalho de campo nas ruas de Downtown Eastside e Downtown South.

O bairro de Downtown Eastside, em Vancouver, tem um histórico de respostas inovadoras de redução de danos causados pelo consumo de drogas.

Primeiro, perguntamos aos participantes se eles haviam substituído uma droga por outra para tentar controlar ou diminuir seu consumo. Um total de 122 participantes (49 do VIDUS, 51 do ACCESS e 22 do ARYS) relatou que substituiu a droga pelo menos uma vez nos últimos seis meses. Esses foram os indivíduos incluídos em nossa análise, contribuindo para um total de 620 entrevistas em um período de mais de três anos.

Quando analisamos o histórico de uso de crack por esses participantes ao longo do tempo, um padrão emergiu: aumentos significativos no uso de maconha durante períodos nos quais relataram que estavam fumando a erva como substituto do crack, seguidos pelo declínio na frequência de consumo de crack.

Automedicação

Nossos achados estão em linha com um estudo de menores proporções realizado no Brasil, que acompanhou 25 indivíduos em busca de tratamento devido ao uso problemático de crack e que relataram fumar maconha para reduzir os sintomas de abstinência relacionados à cocaína. Durante um período de acompanhamento de nove meses naquele estudo, conduzido por Eliseu Labigalini Jr., 68% dos participantes deixaram de usar crack.

Como em nosso estudo, no Brasil o uso da maconha aumentou durante os três primeiros meses de acompanhamento, com consumo ocasional de cannabis relatado nos seis meses seguintes.

Estudos quantitativos na Jamaica e no Brasil também indicam que os usuários de crack frequentemente se automedicam com maconha para reduzir o desejo pela droga e outros efeitos indesejáveis.

Tenho visto muitos viciados substituírem o crack pela cannabis. Devemos oferecer "concentrados" e bongs de graça como um serviço de saúde pública para os que precisam.

Outras pesquisas mostram que a dependência da maconha no longo prazo pode aumentar o desejo por cocaína e o risco de recaída. Em vez de contradizer as descobertas de estudos no Canadá, Brasil e Jamaica, essas discrepâncias sugerem que os padrões de uso da maconha e dependência e o tempo de automedicação com a cannabis podem desempenhar um papel nos resultados individuais.

Baseando-se nos achados desse estudo preliminar, o Centro da Columbia Britânica de Uso de Substâncias está planejando mais pesquisas para confirmar se o uso da maconha pode ser uma estratégia eficaz para pessoas que tentam reduzir o uso de crack e outros estimulantes, seja para a redução dos danos ou como tratamento.

A recente iniciativa do Canadá de legalizar e regulamentar a maconha pode facilitar esse trabalho. Por décadas, o estigma e a proibição bloquearam uma avaliação científica rigorosa sobre a cannabis. Agora, esses obstáculos estão começando a desaparecer, capacitando nossa equipe para melhor entender e destravar o potencial terapêutico dos canabinoides.

M-J Milloy é cientista-pesquisador do Centro da Columbia Britânica de Uso de Substâncias e professor assistente da divisão de AIDS do Departamento de Medicina da Universidade da Columbia Britânica (UBC, na sigla em inglês). M. Eugenia Socias é estudante de pós-doutorado e cientista-clínica do Centro da Columbia Britânica e da Faculdade de Medicina da UBC.

Este artigo foi originalmente publicado no site The Conversation e no HuffPost US e traduzido do inglês.

The Conversation

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