OPINIÃO

Só entrei para ler os comentários

25/03/2015 13:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Pane & Vino/Flickr

Eu sou chata. Confesso. Em alguns momentos poderia se dizer que eu sou chata para caraleo mesmo... Tipo MUITO CHATA! Daquelas que insiste na opinião quando evidentemente todo mundo na mesa quer mudar de assunto, ou que encrenca com o detalhe errado que você deu numa conversa de bar ao contar uma história de balada de 13 anos atrás. "Não estava de blusa branca não! Lembro muito bem que naquele dia sai com a blusa rosa que eu ganhei de presente de aniversário!" E a pessoa me olhando de canto de olho tipo "ta ta ta". Sou daquelas que contou para os colegas no pré que Papai Noel não existia e que não se conformava com crianças de 8 anos AINDA NÃO SABEREM DE ONDE VEM OS BEBÊS!

Já entrei (e às vezes ainda entro) em muita discussão desnecessária... Se acho que tenho razão (e como toda chata isso é algo que ocorre digamos com uma certa frequência) não arredo o pé até que o incauto concorde comigo... E ai dele se o fizer apenas para encerrar a discussão! Tal atitude pode gerar mais algumas horas de discussão até que eu me convença de que ele realmente entendeu, absorveu e concordou com a minha argumentação... Por muitos anos meu lema foi: eu não acho que tenho sempre razão, apenas é raro alguém conseguir me convencer com argumentos melhores do que os meus (você pode ver que sou modesta também!).

Apesar dessa chatice toda eu tenho muitos amigos e pessoas que me amam de alguma forma. As pessoas estão na minha vida há bastante tempo, mesmo as que pegaram o auge da chatice em sua forma bruta (também conhecida como adolescência!) e isso pode parecer uma incógnita mas acredito que seja pois apesar de ser chata sou também uma amiga leal e dedicada. Não meço esforços para ajudar quem precisa de mim e tento ser muito compreensiva quando alguém que eu amo está em dificuldades ou sofrendo. Pode ser também por ser engraçada mas acho que minha ironia e senso de humor não compensariam sozinhos toda essa chatice... Já pensei que pode ser o fato de eu ser dedicada e alguém que meus amigos e amigas de certa forma admiram por tantas outras qualidades.

Parei para pensar em tudo isso enquanto mais uma vez cedia à tentação de ler comentários em posts sobre o tema polêmico da vez. A cada comentário chato, intolerante, prepotente que eu lia eu me perguntava: "quem são essas pessoas??? De que buraco elas saíram??? Pelo amor fechem as comportas do inferno!"

Até que: BUM! Me ocorreu: essas pessoas podem ser exatamente como eu! Chatas em suas opiniões e insistentes com seus argumentos (claro que não estou discutindo o mérito e a qualidade da argumentação pois jamais entrei em discussão com a retórica do "cala boca você é burro" embora já a tenha pensado muuuuiiitaaas vezes!). O fato é que elas devem ser amigas de alguém, amadas por alguém e ter qualidades que não vêm à tona em comentários na internet. Meu marido algumas vezes me diz: "cara, se eu não te conhecesse ia te achar muito boçal por esse comentário". Ou seja: toda a irritação com esse tipo de comentário e pessoas vem do fato de, muitas vezes, não as conhecermos. Não sabermos que, além de chatas elas também podem ser amorosas, dedicadas, leais, engraçadas, sensíveis e uma série de outras qualidades que não se manifestam naquele momento!

Do meu lado, o exercício para diminuir a chatice é constante e hoje já escolho muito melhor as minhas "brigas", além de ter aprendido a ser bem mais tolerante à opinião alheia, o que devo dizer só veio a enriquecer e acrescentar. Mas, o interessante aqui e a proposta desse post é uma tentativa de pensar nessas pessoas (da internet e da vida) de uma nova forma. Olhar para mim e para as minhas chatices me ajudou a olhar os comentários e os argumentos de outra forma. Me irrito menos, me solidarizo mais!

Óbvio que não vou fazer amizade com a comunidade virtual toda e claro que dentre todas essas pessoas muitas eu iria achar um porre na vida real mesmo e jamais teria amizade com elas, mas o olhar por outro ângulo pode sim tornar as coisas muito mais fáceis em qualquer situação da vida.

Quanto mais penso sobre isso mas percebo a quantidade de defeitos que eu mesma tento constantemente trabalhar e como isso não é tarefa fácil. Por que exigir do outro uma sabedoria que eu mesma muitas vezes não tenho? Sendo o Facebook a grande mesa de boteco atual, será que as pessoas seriam tão grosseiras ao vivo? Será que o que se vê na rede não é apenas uma chatice exacerbada pelo manto do "anonimato"? Será que não seríamos na vida real com essas pessoas como meus amigos muitas vezes foram comigo em mesas de bar reais? (tá tá tá)

A provocação desse post então é: pense antes de escrever (claro!) mas também antes de julgar quem dá opiniões divergentes e acaba sendo chato nelas. Imagine que essa pessoa tem uma vida, uma família, amigos que gostam dela e talvez aquela frase esteja apenas fora de contexto. Tente humanizar o comentário e o ser humano que o fez. Claro que muitas vezes é difícil já que parte do problema é o analfabetismo funcional, mas já de tentar é possível perceber a irritação indo embora... ou ao menos suavizando.

E logicamente não estou me referindo aqui a comentários racistas, homofóbicos e preconceituosos latu sensu que para mim tem tolerância zero, mas àqueles que podem ser irritantes e vazios apenas por contrariarem tudo que acreditamos ser importante nesta vida e a pessoa simplesmente reduz a: "mimimi feminista" (qualquer semelhança é mera coincidência.

Por outro lado, enquanto aqui escrevo penso: "será que todas as pessoas se irritam como eu ao ler bobagens nos comentários ou só as chatas?" Bem, se a carapuça lhe servir: bem-vindo ao time!