OPINIÃO

O que queremos daqui para frente?

18/03/2016 22:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ASSOCIATED PRESS
A man holds up a Brazilian national flag, also known as the Auriverde, in front of the Planalto presidential palace, in protest against President Dilma Rousseff and former President Luiz Inacio Lula da Silva, where Silva was sworn in as his successor's chief of staff, in Brasilia, Brazil, Thursday, March 17, 2016. Rousseff insisted Silva would help put the troubled country back on track and denounced attempts to oust her. (AP Photo/Eraldo Peres)

Algumas vozes mais lúcidas dentro do movimento pró-impeachment começam a pipocar se perguntando o que deve ser feito para que a manifestação popular não seja instrumentalizada pelos oportunistas e o ânimo de "mudança" não se perca. A reflexão é mais do que certa e necessária na minha visão, embora tardia, já que a instrumentalização está rolando faz tempo e é bem ingênuo achar que o "movimento foi espontâneo".

Que quem mais ganha com tudo isso é o PMDB não temos dúvidas. Seja no caso de impeachment, seja na cassação da chapa pelo TSE, pois a linha de sucessão é inteira PMDB. Temer, Cunha, Renan. A não ser que role um golpe direto mesmo tipo o militar, o que sinceramente ainda prefiro acreditar não será o caso.

Então contribuindo com as perguntas dessas vozes e respondendo aos que não entendem porque eu insisto em defender que não precisamos escolher entre a cruz e a espada e em não concordar com o discurso "vamos tirar o PT logo e depois a gente vê o que faz" vão alguns questionamentos.

Um primeiro passo para o que deveríamos pensar - ou ter pensado - para o futuro pós PT seria fortalecer as instituições e não as pessoas (vide Moro). Fortalecer a democracia é fortalecer o povo. Instituições fracas enfraquecem nossos direitos e é aqui que jaz a razão da minha insistência em não aprovar os desmandos do judiciário partidário.

Corrupção não é o pior problema do Brasil e nunca foi e nada disso é sobre corrupção, pois os líderes do movimento são corruptos (vide quem vai liderar a comissão do impeachment) e o povo que reclama também. A sonegação de pessoas físicas e jurídicas é infinitamente maior do que o furo da Petrobras.

Dizer, como muitos dizem que o PT institucionalizou a corrupção é também ingênuo para não dizer outra coisa. Eu gosto de dizer é que eles podem ter sido amadores em um jogo do qual nunca fizeram parte. Entraram, talvez, com muita sede ao pote ou pode ser que não tenham sabido agradar a todos da forma como deveriam. Ou foram burros mesmo! Até então pelo menos eu achava era que as instituições é que estavam mais sólidas. Ledo engano! Corrupção existe neste país desde que o senhor Pedro por aqui pisou e ninguém nunca se incomodou. É realmente surreal observar essa indignação coletiva por algo tão antigo como a roda! Ela é apenas o reflexo de algo muito mais sombrio: a cultura do "farinha pouca meu pirão primeiro". Enquanto não mudarmos isso a mudança estrutural será muito difícil.

De que adianta essa revolta toda se nos silenciamos quando o Cunha deu o golpe no processo legislativo aprovando o financiamento eleitoral privado (que por uma felicidade o Senado reverteu)?

Falamos tanto de nos manifestarmos e de educação de qualidade e onde estávamos quando foi aprovado o Plano Nacional, Estadual, Municipal de Educação que foi moldado a bel prazer da bancada evangélica? Onde estavam nossas bandeiras quando ele (Cunha) desengavetou projetos que nos catapultam aos anos 50?

Quantos textões fizemos quando tentaram (e ainda estão tentando) aprovar o Estatuto da Família que coloca a mulher em uma posição de ser humano de segunda categoria? Enquanto estávamos nos preocupando com diálogos infelizes, até de mau gosto e prepotentes, mas não criminosos do Lula, onde estava nossa indignação quando aprovaram a isenção de impostos para Igrejas?

Quantos dos revoltados online enviaram suas contribuições sobre a Reforma Política? Estava disponível online (aliás ainda está!) e eu fiz campanha para pegar assinaturas e enviar. Adivinhem quantas pessoas me entregaram as suas? Zero. Enviei e-mail, postei nas redes sociais, falei no trabalho. Nada. Essa indignação toda canalizada a uma pessoa ou a um partido não leva a lugar nenhum. Se todos os que disseram a vida inteira "odiar política" tivessem se envolvido mais, pesquisado mais, discutido mais (de forma civilizada) não estaríamos nessa situação.

Sermos a mudança que queremos ver no mundo, inclusive na política, é trabalho de todos os dias e não apenas quando somos convocados pela grande mídia que tem sua própria agenda.

Sermos a mudança que queremos ver no mundo é no voto mas é também em acompanhar projetos legislativos.

Quantos acompanham o clipping do Senado e da Câmara e se manifestam? Quantos levam suas insatisfações ao seu deputado ou vereador? Quantos cobram dos políticos que elegeram? Quantos lembram em quem votaram nas últimas eleições? Quantos participam de audiências públicas?

Aí alguns dizem: "ahhh mas agora já passou, não é porque não fizemos nada antes que não podemos fazer agora!".

Claro que não. Antes tarde do que nunca! Mas querer logo chutar a porta porque você não fez nada antes me parece desnecessário e perigoso. Vamos usar os instrumentos democráticos que já existem para operacionalizar a mudança. A lógica está sendo: ninguém nunca se incomodou com o homicídio e a violência. Ao invés de passar a se incomodar e a usar a lei vamos logo instituir a pena de morte.

Por isso tudo que quando vejo essa manifestação de apoio popular incondicional ao autoritarismo e ao fato de que os fins justificam os meios (fim a esse a ser definido por quem?!) me entristeço no fundo do meu coração justamente constatar como perdemos uma chance linda. Uma chance de ter o judiciário fortalecido, os políticos presos (todos como adoram dizer mas não muito praticar!) e a democracia vencedora em uma nova era onde passaríamos a ser uma República que respeita a Constituição mas que dá o recado de que qualquer um é passível de punição.

As pessoas dizem que precisamos escolher entre Moro e Lula. Não, não e não! Eu não escolho entre a cadeira elétrica e a guilhotina. Eu escolho o Direito e a Justiça sempre. Eu escolho defender o juramento que fiz há quase 10 anos:

"Prometo exercer a advocacia com dignidade e independência, observar a ética, os deveres e prerrogativas profissionais e defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, os direitos humanos, a justiça social, a boa aplicação das leis, a rápida administração da Justiça e o aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas."

É importante sempre lembrar também, para fins de precisão histórica, de que o Collor renunciou pouco antes de ser condenado no Senado, foi absolvido depois no STF e voltou rapidamente ao jogo político na sua primeira eleição pós recuperação dos direitos eleitorais. Ou seja: mais do mesmo na República das bananas.

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