OPINIÃO

Não é o rolê que é errado, as pessoas que são chatas mesmo: sobre aceitar e acolher diferenças!

Quando incluímos e acolhemos o pensar diferente, aí sim as palavras reverberam em quem precisa ou deseja fazer uma nova reflexão.

28/11/2017 20:06 -02 | Atualizado 28/11/2017 20:09 -02
aluxum via Getty Images
"Nasci e cresci sendo de esquerda, já fui liberal por um breve período e acreditei muito que a meritocracia poderia nos salvar. No fundo, queria mesmo que fosse verdade."

Eu nasci em uma família nada ortodoxa, no meio de artistas e hippies. Tenho um avô que mora isolado em uma montanha na divisa entre Rio e São Paulo, outro boliviano que é cozinheiro e um terceiro que é engenheiro. Durante parte da infância e boa parte da adolescência, fui Testemunha de Jeová de bater na porta das pessoas e tudo. Também já morei em um templo Hare Krishna quando era bebê e tenho até a deusa Kali no meu segundo nome.

Sempre fui pobre e, por alguma razão, sempre convivi com muitos ricos. Nasci e cresci sendo de esquerda, já fui liberal por um breve período e acreditei muito que a meritocracia poderia nos salvar. No fundo, queria mesmo que fosse verdade.

Hoje, trabalho para que todas as pessoas possam ter acesso a um mesmo ponto de partida, ciente de meus privilégios e a responsabilidade que com eles vem. Eu sou a favor do trabalhador, já negociei com os maiores sindicatos do Brasil e trabalhei em grandes multinacionais tempo suficiente para compreender a dificuldade que é fazer negócios (principalmente de forma séria) em um país como o nosso.

Eu defendo o parto normal e fiz cesárea. Eu amamento em livre demanda e fiz questão de voltar a trabalhar. Não dou chupeta e nem açúcar com muita convicção de que é o melhor para o meu filho e uma das melhores mães que eu conheço fez as duas coisas.

Eu como orgânicos quando posso, adoro carne e amo os veganos. Flerto com tudo que envolve a filosofia vegana e quando estiver pronta, a adotarei. Eu adoro bife com ovo e sento em qualquer boteco para tomar pingado. Também acho uma delícia ir a um restaurante refinado tomar vinho e me arrumar para isso, ou não.

Eu realmente tenho uma preguiça infinita de pessoas que compram pacotes completos e se comportam como se as crenças delas fossem a única verdade. A prepotência, a petulância e principalmente a miopia de se acreditar que há apenas uma forma correta de se viver, de ser bom, de SER, é, além de perigosa, de uma chatice e tédio sem fim.

Ontem à noite me deparei com uma postagem em um grupo que debate os princípios da criação com apego (da qual, diga-se de passagem, sou adepta – ou tento). Nela, uma mãe pedia dicas para que o filho ficasse tranquilo com a vó e os primos enquanto ela faria uma viagem de descanso com o marido por TRÊS DIAS. O filho tem dois anos e quatro meses e CHOVERAM críticas, julgamentos e pessoas compadecidas com o sofrimento psíquico da criança que elas assumiram, sem qualquer elemento para tal, não estaria preparada para se afastar da mãe por "tanto tempo".

Graças a deusa, teve também bastante gente, assim como eu, compadecida com o cansaço da mãe e dando dicas concretas de como fazer com que a mãe pudesse repousar e o filho também ficasse bem. Grande parte das críticas (que nunca eram assumidas como tal) vinha com o carteiraço "este tipo de conduta viola os princípios da criação com apego".

Já vi coisas muito parecidas (talvez eu mesma já o tenha feito...) em grupos de apoio a amamentação, parto, etc. E isso tem me incomodado mais conforme percebo o quanto esses discursos dogmáticos e culpabilizadores agregam ZERO no cansaço de mães, mulheres e seres humanos que estão em busca de informação, consolo e conselhos, e não julgamentos disfarçados de informação.

Já vi mães feministas e ativistas (as tais "digital influencers") zoarem outras mães que não fazem parte de determinadas bolhas por coisas tão bobas e com um tom que, para mim, em nada difere do bullying que adolescentes fazem e que tanto se critica por aí. Chamo isso de "lacre quinta série".

Aliás, foi um pouco o que aconteceu com alguns memes e posts da esquerda progressista que iniciavam com "não vou discutir arte com quem sequer vai ao museu" na época da exposição Queermuseu e da exposição La Bête, no MAM. Será que não aprendemos nada sobre o custo de considerar pessoas alienadas e isolá-las achando que são apenas loucas e inócuas?

Quando vamos realmente abrir um diálogo capaz de incluir o diferente para fazê-lo realmente refletir e não apenas sentir-se atacado, fechando os ouvidos? Nem todas as pessoas chocadas são de direita, nem todas as pessoas de direita são alienadas e conservadoras. Nem todo alienado politicamente é uma pessoa intrinsecamente ruim. Há, inclusive, conservadores mais honestos (em todos os sentidos) do que progressistas até a virgula. O que te dá o direito de se sentir superior então? De nos sentirmos?

Achar que toda mulher que faz cesárea é desinformada, bobinha ou fútil, menosprezar a dificuldade de quem volta ao trabalho e não consegue/quer/pode manter a amamentação exclusiva, ignorar o elitismo dos orgânicos que, como bem lembrava um amigo dia desses, nem custam tão mais assim para serem produzidos, mas entram direitinho no conceito capitalista da lei da oferta vs. demanda; e acreditar que seu filho é um ser mais iluminado, floquinho de neve porque não tem brinquedos de plástico, não assiste tv ou frequenta uma escola Waldorf não ajuda ninguém!

Não ajuda a mãe que você julga, não te ajuda enquanto mãe (com o mesmo peso com que julga, também serás julgado, disse um cara da hora) e não ajuda mulheres que não são e nunca serão mães!

Quem as suas palavras desejam atingir? Falo por experiência que quando diminuímos o outro, nossa ação só dá eco a quem já concordava com a gente. Quando incluímos e acolhemos o pensar diferente, aí sim as palavras reverberam em quem precisa ou deseja fazer uma nova reflexão, incluindo nós mesmas!

Vejam, eu cresci rodeada de intelectuais. Na minha casa só se ouvia jazz, música clássica e erudita e minha rebeldia na adolescência foi ouvir pagode. Nada disso me impediu de viver todos os tipos de violência. E nem impediu as mesmas pessoas tão intelectuais de serem as mais abusadoras com as quais me relacionei.

Tenho verdadeira ojeriza ao preconceito intelectual porque várias dessas "mentes iluminadas" são pessoas bem bosta que dependem, em "n" sentidos, de outras pessoas; são pais de merda, companheiros misóginos, artistas prepotentes e assediadores... e que se sentem no direito de "zoar" o "burguês" ou o "trabalhador", sendo que há pessoas incríveis nessa categoria.

Eu mesma já fui julgada por filhinha de papai que ganhou apê, carro e o caralho do pai (mas que passava as férias em assentamento do MST) por trabalhar na Philip Morris, que seria o símbolo do que há de pior no capitalismo. Sendo que eu trabalho desde os 15 anos para pagar as minhas contas.

Da mesma forma, não suporto quando alguém acha que intelectual e artista é tudo vagabundo e coloca as pessoas todas nesta caixinha estabelecida de comportamentos e sentimentos pré-estabelecidos.

As pessoas mais incríveis e com as quais eu mais aprendi na vida são complexas, ambíguas, cheias de dúvidas e histórias de aprendizado. As mais inseguras, mesquinhas e arrogantes são, por outro lado, repletas de discursos prontos, julgamento, textão e muita pouca prática realmente acolhedora que tanto se prega nos manuais de Criação com Apego.

A verdade é que nunca gostei de pacote completo e muito menos de dogmas (até por isso não consigo seguir nenhuma religião e acredito em um pouco de tudo). E sempre tive muito cuidado em julgar sistemas, e não pessoas. Imposições, e não escolhas!

Eu tenho MUITO medo do rumo que as coisas estão tomando justamente por causa deste incômodo quase equivalente entre os argumentos de ódio de alguns setores (que sempre se amplificam em grupo) serem rechaçados por um movimento (esquerda/feminismo/lacradoras) prepotente e desconectado da realidade e das emoções de tantas e tantas pessoas.

Eu não compro pacote completo! Eu não tolero nariz empinado de movimento seja lá qual for e eu me recuso a ser colocada em caixinha, por mais colorida ou florida que seja, que limite minhas escolhas, minha liberdade e a prerrogativa de mudar e evoluir sempre.

Já dizia a maravilhosa Audre Lorde que "não são nossas diferenças que nos dividem. E sim a nossa inabilidade de reconhecê-las, aceitá-las e celebrar tais diferenças!".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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