OPINIÃO

Eu, brasileira, nos EUA sob ameaça de um furacão: Precisamos aprender com eles

A forma como a chegada do Irma é conduzida por autoridades, empresas e cidadãos não para de me impressionar.

10/09/2017 15:12 -03 | Atualizado 10/09/2017 15:12 -03
Carlo Allegri / Reuters
Furacão Irma chegou neste domingo (10) à Flórida, no sul dos Estados Unidos.

Quanto mais acompanho aqui in loco a chegada do furacão Irma, mais impressionada estou com o que significa passar por algo desse tipo por aqui (e não no Brasil).

Independentemente do fechamento da questão (que ainda está longe de ocorrer e, claro, podemos ter vítimas e grandes problemas), a forma como o assunto é conduzido nos Estados Unidos não para de me impressionar!

As posturas do governador da Flórida, Rick Scott, e demais autoridades envolvidas são inimagináveis pela maioria dos políticos brasileiros.

As coletivas com informações são quase non stop, divididas por condado e todas as autoridades envolvidas falam e esclarecem a situação (prefeito, Departamento de Saúde, Defesa Civil, polícia etc).

Existem abrigos especiais para pessoas com necessidades médicas (uso de aparelhos e medicação contínua, por exemplo), outros em que dá para levar seus pets. E, se você não pode sair da sua casa pela razão que for, existe um número que vc pode ligar e vão te buscar!

Os hotéis passaram a aceitar mais hóspedes por quarto e também animais de estimação. Aqui mesmo estamos vendo todo dia novos e vários amiguinhos peludos. (Nosso hotel não é originalmente pet friendly)

Ouvi notícias, que não pude ainda confirmar, de que as operadoras de telefonia, que normalmente restringem suas redes de wi-fi aos seus clientes, liberaram internet grátis para todos. Aqui mesmo em Orlando apareceu o dono de um posto de gasolina dias atrás distribuindo gratuitamente resmas de água para quem precisasse. Era literalmente um caminhão lotado de água.

Enquanto isso, descobrimos dia após dia no Brasil o quanto nossos representantes (sim, eles representam a todos nós em todos os sentidos) roubam, desviam e indiretamente (ou até diretamente) matam os que mais precisam de ajuda!

Seis anos após aquela tragédia na região serrana do Rio, a Polícia Federal descobriu indícios de que a quadrilha do então governador Sérgio Cabral cobrou propina nas obras emergenciais contratadas por conta daquele desastre.

Alguns chamarão este post de complexo de vira-lata. Eu chamo de parar de olhar para o nosso umbigo e nos acharmos o máximo botando defeito em tudo que vem do "opressor dominador chauvinista imperialista" Estados Unidos e aprender um pouco!

Isso pra mim é simbólico pois essa falta de autocrítica é sintomática em muitos aspectos na esquerda — que continua sendo meu posicionamento ideológico. Falta autocrítica em relação ao PT, ao próprio machismo e racismo e a inúmeras outras questões, entre elas também essa aversão a tudo que vem de fora (em especial do Hemisfério Norte), como se não tivéssemos nada a aprender.

Ser protagonista e responsável pela própria jornada de autodesenvolvimento para mim envolve essa capacidade de saber-se e perceber-se em relação ao outro seja para aprender com os erros deles quanto com os acertos.

E, ao mesmo tempo, apropriar-se da nossa própria parcela de contribuição com os problemas e com as soluções. Enquanto brasileira, se eu não me enxergo como parte do problema, como farei parte da solução?

É realmente uma pena que a direita se aproprie de tudo que há de pior daqui e a esquerda siga ignorando o que há de melhor.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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