OPINIÃO

Como explicar para o meu filho o que está acontecendo com o Brasil?

18/04/2016 14:20 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Meu filho,

Quis o destino que você viesse ao mundo em um ano histórico para o nosso País. Um ano triste, é verdade, mas também extremamente importante por sua simbologia. O momento nos faz lembrar como nossos direitos não são permanentes e que precisamos estar sempre atentos e em vigilância à democracia.

Vai chegar a hora de você estudar sobre isso em seus livros de história e não sei ao certo como essa história será contada - isso depende provavelmente de quem estiver no poder.

Então, meu amor, assim como durante tanto tempo ouvi histórias da época da ditadura -- uma época tão sombria da nossa história e que acabou logo quando eu estava nascendo --, hoje venho te contar o meu sentimento sobre tudo isso que está acontecendo hoje. O sentimento de uma mãe, que já te ama tanto e que sempre lutará para que a história se escreva de forma diferente da que está se desenhando.

Antes de mais nada você precisa saber que sua mãe sempre foi e sempre será uma apaixonada pela democracia e pelo Estado de Direito. Fiz desse tema meu trabalho de conclusão de curso no qual, após a analisar diversas teorias do Poder Constituinte concluí:

"Essa é uma missão para as nossas gerações, que, apesar de não terem participado do terror que foi a ditadura, precisam sempre ter em mente o quão gratos devemos ser àqueles que nos proporcionaram a possibilidade de vivermos em um regime democrático por mais manco que este seja.

Ocorre, infelizmente que as novas gerações cada vez mais alheiam-se com orgulho a situação política, importam-se cada vez menos com o próximo, com o pobre, armando-se atrás do ódio, da revolta das classes que pode muito bem ser considerada em algumas cidades brasileiras uma verdadeira guerra civil.

Pode parecer difícil achar um paralelo entre todas essas situações atuais e o estudo aqui traçado, mas de fato não o é, quando compreendemos que todas os erros e os acertos de nossos governantes estão diretamente ligados a nossas vidas, e aos rumos que a sociedade irá tomar. E o primeiro passo é sempre o estudo do problema, a busca pelas causas, para que as conseqüências sejam minimizadas, ou, pelo menos, compreendidas."

Você pode ficar tranquilo. Sua mãe não estava ao lado do golpe de 2016. Sua mãe não estava ao lado de políticos que fazem homenagens públicas a torturadores e nem de pastores que pregam a intolerância e muito menos de corruptos indiciados.

Teve golpe sim, mas sua mãe não foi conivente ou silente com ele.

É por tudo isso, meu pequeno, que hoje, após a aprovação na Câmara dos Deputados da abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, meu coração chora pela democracia que sempre me encantou e pela constituição que desde a faculdade sempre me apaixonou.

Meu coração chora por saber que Dilma cai não pelas suas inúmeras falhas, mas pelos seus poucos acertos, sendo um deles a tal "inabilidade política" -- leia-se tráfico de influência ou capacidade de agradar a todos custe o que custar -- "habilidade" esta que a Lula certamente não faltou.

Dilma cai, também, por não ter se posicionado de maneira contundente e por ter, em nome da tal governabilidade tentado jogar um jogo no qual é amadora. Por ter alimentado em seu seio uma boa parte de seus traidores. Cai por ter deixado correr sem interferências, ao contrário do que ocorreu e ocorre em tantos outros governos, as investigações contra seu próprio partido e correligionários.

Meu coração chora como cidadã por saber que a democracia que eu acreditava estar amadurecendo nada mais é do que uma piada. Por perceber como nossos próprios representantes não conhecem a lei, não entendem sequer a diferença entre presidencialismo e parlamentarismo.

Meu coração chora imensamente por assistir incrédula corruptos, bandidos de toda espécie, conduzido pelo maior deles, o Presidente da Camara julgando durante 57 horas uma mulher contra a qual, até o momento, não recai nenhuma acusação sequer seja de corrupção ou de qualquer outro crime.

Meu coração chora como mulher por saber que estamos nas mãos de bandidos que votarão pautas retrógradas que nos farão sofrer ainda mais, que matarão e esmagarão ainda mais as minorias, as mulheres e os pobres (que evidentemente não são minorias!). Por ter tido uma amostra tão desagradável da misoginia que transborda e escorre no Congresso e nas ruas.

Meu coração chora como mãe por antever um Brasil em que você, meu filho, caso seja gay, trans, de esquerda, ou militante de causas sociais, será provavelmente perseguido em um governo totalitarista e conservador que já temos aflorado em nosso Congresso.

Meu coração chora por saber que a corrupção continuará pior do que nunca já que está sendo blindada sob pretexto falso e, pior com o apoio de tantos e tantas que acreditam que seu voto é melhor ou vale mais simplesmente por serem mais privilegiados!

Não tenho como disfarçar minha decepção e indignação.

Hoje não me cabe nada que não a tristeza e o lamento. Mas amanhã, meu pequeno, voltarei a lutar por um mundo melhor, por mim e por você e por todos e todas que precisam da nossa voz, pois constantemente silenciados, invisibilizados e, agora, com seus votos roubados.

Teve golpe, mas vai continuar tendo luta.

Um beijo,

De sua mãe.

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