OPINIÃO

7 presentes melhores que brinquedo para dar aos filhos no Dia das Crianças

Nunca se falou tanto de uma geração sem limites e mimada demais, ao mesmo tempo em que se registram números cada vez mais absurdos de violência na infância.

12/10/2017 07:50 -03 | Atualizado 12/10/2017 07:50 -03
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Precisamos nos questionar o que de fato desejamos para as nossas crianças - todas elas –, para que cresçam e transformem essa sociedade.

Em tempos em que se discute o uso do ECA para justificar a censura; em que pessoas se sentem à vontade para se dizerem childfree e assumirem, sem nenhum pudor ou rubor, não gostarem de crianças (sim,toda a classe "crianças"), banindo-as indiscriminadamente de espaços públicos e eventos privados.

Em tempos em que "nossas crianças" é um termo tão vago quanto "somos todos humanos" e que, de prático, traz apenas prejuízos e invisibilidade a todas aquelas que não se enquadram no padrão de criança "aceitável e defensável" (leia-se: loiras e de classe média).

Em tempos em que se espera que crianças sejam comportadas não contestem, educadas silenciosas, tenham limites não nos incomodem, e de preferência, já venham prontas sabendo tudo o que sequer adultos aprenderam.

Em tempos em que TER é mais importante do que SER, em que a indústria dita o que comemos, o que vestimos e o como brincamos – ou não – com nossos filhos. Em que crianças ricas ou do sexo masculino são infantilizadas, e as pretas e pobres (ou meninas) são constantemente abusadas, violentadas e tidas como as responsáveis pelas violências que lhes são acometidas.

Nunca se falou tanto de uma geração sem limites e mimada demais, ao mesmo tempo em que se registram números cada vez mais absurdos de violência na infância.

Aproveitar uma data comercial e refletir sobre o dia das crianças me parece essencial tanto para mães e pais, quanto a quanto sociedade. Precisamos nos questionar o que de fato desejamos para as nossas crianças - todas elas –, para que cresçam e transformem essa sociedade.

Aí vai uma lista do que eu desejo do fundo do meu coração a todas as crianças do Brasil e do mundo neste 12 de outubro e em todos os dias do ano.

1. Livre Brincar e Imaginar

E poder gritar e fazer barulho faz parte disso!

Que o choro e barulho das crianças parem de nos incomodar. Que as deixemos ser crianças e correr livres pelo seu mundo que parece tão pequeno aos nossos olhos, mas é infinitamente maior do que o nosso. Que elas possam correr pela sala como se corre por um jardim mágico com esconderijos secretos.

Que elas possam pular no sofá como se estivessem pulando de nuvem em nuvem em seus barcos celestes imaginários. Que elas possam correr pelo jardim imaginando-se grandes conquistadoras de um planeta mágico habitado por animais fantásticos.

2. Alimentação saudável

Em um mundo em que dar uma alimentação saudável e consciente aos nossos filhos (incluindo a amamentação pelo tempo recomendado pela OMS) é visto como mimimi e radicalismo, desejo que cada vez mais crianças, mães e pais possam ser libertas do marketing abusivo da indústria alimentícia que as torna reféns de hábitos alimentares destrutivos e compulsivos.

E que o afeto, a recompensa e a atenção que, muitas vezes é suprida pelo doce, seja de fato suprida por afeto, recompensa e atenção. E que o doce (após os dois anos, de preferência) seja aquela memória afetiva gostosa e coadjuvante a tudo isso!

E que nadar contra a corrente e ir contra o sistema e o interesse de indústrias multibilionárias não precise ser tão exaustivo!

3. Um planeta vivo e bem cuidado

Poucos desejos são mais pragmáticos e urgentes do que esse. Que nossas crianças possam aprender rapidamente o quanto somos conectados e interdependentes de todos os seres e organismos vivos. Que a Terra e seus recursos são preciosos e finitos e que cuidar bem deles é cuidar de todos nós!

Que isso se cultive e se incentive desde cedo ao cuidar dos animais com carinho e das plantinhas com ternura, ao colocar as mãos e os pés na terra molhada e sentir seu cheiro forte se lambuzando de terra e matinho.

Que se corra na chuva jogando-se na grama sem nos preocuparmos com a roupa suja. E que elas possam sentir na pele essa conexão que outrora já foi tão umbilical.

4. Acolhimento a dor

Que sejamos tão hábeis em acolher a dor e o choro de nossos pequenos como somos em fazê-lo com amigos queridos. Porque ninguém vira para a melhor amiga que acabou de terminar um relacionamento e diz "que não foi nada!" ou "não chore!".

Deixe a criança chorar! Deixe-a sofrer aquela dor certa de que nós estamos ali para abraçar, dar colo, carinho e beijinho no dodói. É sabendo disso que elas correrão para nós quando a dor não for no dedinho e sim no coração.

5. Inteligência emocional

E já que nos meus sonhos o céu é o limite, desejo que todas as crianças tenham ao seu redor e como seus exemplos adultos com inteligência emocional e que saibam lidar com suas próprias dores e emoções. Que acolham seu próprio sofrimento e angústias não fazendo birras e joguinhos, mas trazendo-as à luz. Abraçando suas sombras para ressignificá-las. Adultos que conversam, que choram, que abraçam e, principalmente, que ouvem e dão o exemplo dizendo "eu te amo", "obrigada" e "me desculpe" sempre que necessário!

6. Liberdade para ser quem se quer ser

Nenhum presente é mais caro para mim do que permitir o outro ser quem ele realmente é. Na essência, no âmago... que toda criança saiba que é amada do jeitinho que ela é e com todas as suas características.

Que ela encontre no mundo e em nós adultos terreno fértil e apoio para crescer e se transformar na mais bela versão de si mesma. Que ela tenha oportunidades iguais independentemente de seu sexo, gênero, raça, etnia, classe social, religião e condição física.

Que ela tenha autoestima e amor próprio. Que ela nunca precise mudar para ser aceita, mas que possa evoluir para transformar-se com e para o mundo. E que nunca, nunca, nunquinha ela deixe de sonhar com o que lhe brilha os olhos e fermenta o estômago por terem-na colocado em um lugar que a limite.

7. Aprender a debater, abrir e incluir

E como amante do Estado Democrático de Direito que sou (apesar de todas as evidências do quanto isso pode ser uma cilada nos dias de hoje), não me custa desejar que as crianças não venham a viver no que parece se desenhar um Estado fundamentalista e religioso.

Que elas possam resgatar o espírito democrático, seja lá onde ele estiver escondido, e sair dessa mais fortalecidas e conscientes da importância de se preservar as instituições democráticas. E que para isso possa prevalecer o diálogo, o debate aberto e franco sobre todos os temas, o acolhimento ao pensar diferente e o amor pelo bem-estar coletivo para que todos juntos possamos construir um país e um mundo menos cruel e mais acolhedor.

No fundo, meus desejos são todos egoístas e cheios de segundas intenções...

E você? O que acrescentaria a esta lista?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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