OPINIÃO

6 verdades sobre ser mãe que descobri neste mundo que santifica a maternidade

A sociedade nos coloca em um pedestal para depois nos isolar, invisibilizar e julgar as nossas escolhas, sejam elas quais forem.

14/05/2017 08:04 -03 | Atualizado 14/05/2017 08:22 -03
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Colunista relata dificuldades de ser mãe em um mundo que santifica a maternidade, mas marginaliza as mães.

Passei a semana toda pensando sobre o que falar neste post de Dia das Mães. Refleti de forma introspectiva, pois de clichês a internet já está cheia.

Fala-se muito dos perigos da romantização da maternidade e de como isso é prejudicial já que o puerpério pode ser uma jornada cabulosa, e a própria maternidade tornar-se uma experiência terrível e solitária nesta sociedade em que ser mãe é necessariamente sinônimo de abnegação - a não ser é claro que essa abnegação vá contra os interesses de médicos e indústria alimentícia, pois aí te dirão que você não é "menas main" se não esperar o tempo do seu bebê e você não deve se anular e viver amamentando a hora que ele quiser.

Eu sigo e acompanho inúmeras páginas e participo de alguns grupos de mães e sobre maternidade e uma coisa que eu percebo tanto nas que romantizam quanto nas que tentam desromantizar é o quanto, em todos os grupos, a definição de maternidade passa por essa coisa santificada, profunda ou absurdamente transformadora e transcendente como se fosse assim para TODA MÃE. Como se fosse uma experiência que todas vivem da mesma forma.

De um lado textos e mais textos sobre o quanto a maternidade é uma dádiva, uma benção, uma glória divina concedida apenas a pessoas especiais e capazes de encarar esse desafio transcendente (como se não houvesse milhares de gestações originadas única e exclusivamente de uma gozada malconduzida). De outro, inteiras dissertações sobre como o maternar é solitário, sofrido, nos leva à exaustão, à perda da nossa própria identidade e a uma vida de banhos de 5 minutos sem lavar o cabelo por semanas.

Confesso que desde antes de engravidar essa polarização me incomodava (como me incomoda em qualquer contexto) e o medo de não me encaixar em nenhuma dessas "tribos" realmente me assombrava.

Pois hoje, quase nove meses de maternidade vão aqui minhas singelas conclusões sobre esse papel tão santificado, tão complexo e ao mesmo tempo tão marginalizado neste mundo que nos coloca em um pedestal para depois nos isolar, invisibilizar e julgar as nossas escolhas, sejam elas quais forem.

1) A maternidade para mim é pesada e de longe não é a tarefa que eu desempenho com mais naturalidade. Peso para mim é diferente, bem diferente aliás, de fardo!

Ela é pesada porque me exige muito! Demais! Ela me suga tudo! Ela demanda o meu melhor o tempo inteiro e, como tudo na minha vida que eu faço com amor, eu me dedico ao extremo! Ser uma boa mãe é algo que me demanda empenho e dedicação muito maiores do que eu imaginava que seriam necessárias; a verdade é que eu me sinto incapaz e inapta a maior parte do tempo!

2) As pessoas se incomodam e julgam (mesmo que digam que não) o tempo todo escolhas que divirjam das suas próprias e existe uma necessidade enorme de se "comprar" um pacote completo.

Vejo isso em TODOS os ambientes relacionados à gestação/maternidade/educação etc. Parece que ou você faz parto natural, amamenta em livre demanda, usa fralda de pano, faz cama compartilhada, blw, cria com apego (o que inclui largar sua carreira e construir com suas próprias mãos os brinquedos do seu filho, evidentemente com madeira reflorestada orgânica) e coloca na escola waldorf ou marque logo a cesárea, dê nan, chupeta e papinha Nestlé de uma vez. Eu mesma não me sinto 100% confortável em nenhum grupo. Não sou diva parideira, mas amamento para todo o sempre se precisar, voltei a trabalhar, mas faço livre demanda, sou superfã de escolas waldorf, mas morro de preguiça dos pais waldorf, adoro sling, mas também amo o carrinho.

3) Não existe "divisão de tarefas" com o marido.

Simplesmente não tem como esse jogo ser fifty fifty no contexto social em que nos encontramos. A premissa é injusta, o ponto de partida é completamente desigual! Eu sempre serei julgada pelos erros enquanto meu marido é aplaudido por apenas cumprir a sua obrigação. Isso quer dizer que, apesar do item 1 desta lista, eu raramente escuto um elogio ou um parabéns, enquanto meu marido é bombardeado de olhares encantados por trocar fraldas e dar banho no próprio filho. Minha dica quanto a isso então é: use e abuse pois já que o jogo é desigual, não podemos ter melindres em pedir o que queremos que eles façam!

4) Eu choro escondida quando lembro que não vou mais dormir direto por alguns anos e demoro mais que o normal no banheiro para poder ficar um pouco sozinha com meus pensamentos.

5) Sinto saudades de ser apenas a Tayná e não a mãe de alguém.

Tenho muitos sonhos e muitas coisas a realizar e nem todas envolvem o Cacá! Voltar ao trabalho me fez e me faz um bem danado nesse quesito, mesmo sendo julgada por isso em alguns ambientes. Tenho convicção de que sair para cumprir meu propósito mantendo-me fiel a mim mesma fará de mim uma mãe mais dedicada e feliz! Ainda assim, preciso sempre me lembrar minha missão de vida: ajudar quem quer mover-se a dar um passo. Pode ser um passo largo, um passinho, uma longa caminhada lado a lado ou apenas pegar na mão da pessoa para ela saber que ela não está sozinha! Fornecer ferramentas, colo, incentivo e provocar a sair da zona de conforto. Não é fácil, não é sem dor, mas é lindo demais ver minhas clientes romperem os ciclos de autossabotagem que as aprisionam e libertar-se em direção aos seus sonhos e desejos.

6) Maternidade = ambiguidade!

Os sentimentos todos são extremamente conflitantes, e altos e baixos podem ocorrer no mesmo dia mais de uma vez. Saber que vai passar é reconfortante, mas também desesperador! Ao mesmo tempo em que tenho vontade que o tempo pare exatamente no minuto em que ele olha para mim com seus olhinhos vivos e seu sorriso sapeca, às vezes parece que uma noite dura dez dias!

Então para finalizar, ao invés de dicas ou conselhos não solicitados, desejarei a todas as mães o mesmo que desejo a mim mesma: que possamos dar aos nossos filhos e filhas o que temos de melhor, não um sacrifício em prol de um papel imposto.

Pode ser difícil, exaustivo, desafiador, intenso, complexo e por vezes até desesperador, mas não quero me sentir mártir nem prisioneira; para isso, a única saída – já que não posso mudar imediatamente a sociedade e o contexto em que me insiro – é libertar-me da culpa e do autojulgamento. Que eu possa ser protagonista da minha própria vida, das minhas escolhas e bancá-las! Fazer-me sempre a pergunta: "fiz tudo o que estava ao meu alcance?" Se sim, ponto! Não tem culpa! Se, eu não fiz, por que não fiz? O que mais eu poderia fazer? O que está ao meu alcance? E então, se eu quiser, ir lá e fazer!

Que neste Dia das Mães, possamos olhar mais para dentro para aprender e para fora para acolher!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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