OPINIÃO

Um Dia Sem Mulheres

Hoje, 8 de março, a mobilização e parada global de mulheres tem mais de 45 países envolvidos.

06/03/2017 19:25 BRT | Atualizado 07/03/2017 14:31 BRT
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Greve das mulheres atingirá ao menos 45 países.

*texto escrito com colaboração de equipe Promundo-Brasil.

Quando, no passado mês de fevereiro, ficou conhecida a data e nome da mobilização global de mulheres que hoje acontece (#DayWithoutAWoman ou, no Brasil, Parada Brasileira de Mulheres - #paradabrasileirademulheres, #euparo), lembrei-me imediatamente de um filme que vi em 2004, de Sérgio Arau, que tinha como título Um Dia Sem Mexicanos (A Day Without a Mexican).

A história passa-se na Califórnia, um dos estados com maior número de oriundos ou descendentes de migrantes latino-americanos dos Estados Unidos, que constituem uma parte substancial da mão de obra do país, ocupando as funções que os norte-americanos não querem, frequentemente de forma precária.

A Califórnia vê-se perante o desespero da ausência total de uma parcela da população que assegura serviços cotidianos, na maioria das vezes, não reconhecidos como relevantes.

Parada Brasileira de Mulheres

No entanto, ao contrário da ausência e do silêncio, este 8 de março de 2017 pretende fazer ecoar as vozes de milhões de mulheres no mundo que falam por si, pelas suas comunidades, e por quem não pode falar. Pretende ser, mais do que um sprint, um passo na maratona da luta contra o patriarcado, como relembram as organizadoras do evento (Marcha das Mulheres / Women's March).

Tal como a Califórnia sem latino-americanos, podemos imaginar como seria um mundo sem mulheres – quem asseguraria o trabalho de cuidado diário que, na sua maioria, é ainda atribuído às mulheres sem remuneração e frequentemente sem qualquer tipo de reconhecimento? O que preencheria as lacunas das contribuições das mulheres nas esferas acadêmicas, empresariais, artísticas, ativistas na sociedade?

Globalmente, tal como os latino-americanos e outros grupos estigmatizados por estereótipos de origem, classe ou raça, também as mulheres enfrentam retrocessos em termos de direitos e liberdades – imaginemos então o que isso significa para mulheres latino-americanas e de outros grupos estigmatizados.

A mobilização global de mulheres e homens feministas do passado dia 21 de janeiro teve como mote o protesto contra a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, denunciando abusos e retrocessos em questões de direitos humanos e, em particular, os direitos das mulheres e das populações de origem latino-americana, bem como as manifestações violentas e letais do patriarcado. Mostrou a força de coletivos feministas em todo o mundo que se uniram em torno de agendas comuns.

E, antes disso, vários foram os protestos e mobilizações locais que mostraram que sim, é possível fazer a diferença quando as mulheres se mobilizam: desde a Polónia e a inversão da decisão legislativa sobre o aborto (outubro de 2016), à Islândia com a questão da equidade salarial (outubro de 2016), ou à questão do feminicídio na Argentina (outubro de 2016).

Enquanto feminista e Diretora Executiva do Instituto Promundo, reconheço que não devem ser somente as mulheres a carregarem o peso da responsabilidade de enfrentar políticas e políticos sexistas, homofóbicos, racistas e xenófobos, e que os homens são aliados importantes nesta luta, que pressupõe o desafio a modelos de masculinidade que promovem normas de gênero socialmente desiguais.

Hoje, dia 8 de março, a mobilização e parada global de mulheres tem mais de 45 países envolvidos. A ideia do protesto é fazer que se torne visível o impacto da falta da mão de obra feminina, colocando em pauta questões essenciais aos direitos das mulheres. É fazer que as corporações, Estados, e instituições em geral vejam o quanto dependem do trabalho remunerado e não remunerado das mulheres.

Vivemos tempos de retrocesso, com tentativas de naturalização de violências de gênero, com medidas e políticas acentuadamente misóginas, transfóbicas, homofóbicas e racistas. Seja com Trump, com Temer, com Le Pen ou com Putin. Os números não nos deixam calar. Em pleno rescaldo do Carnaval, no estado Rio de Janeiro, sabemos que a cada 4 minutos uma mulher foi agredida.

Durante os cinco dias de Carnaval, entre as 8h do dia 24 de fevereiro e as 8h de 1º de março, a polícia atendeu a 15.943 solicitações; destas, 2.154 chamadas foram pedidos de socorro relativos à violência contra mulheres. E este curto período de tempo espelha a realidade anual no País.

Por estes pedidos de socorro e, como podemos ler na chamada coletiva da Parada Brasileira de Mulheres, por cada uma, por todas e pelas que não podem estar, contra as ameaças aos nossos direitos em resultado dos cortes de gastos públicos na saúde, educação, assistência social, moradia, perante a isenção e perdão de dívidas de empresas com a Previdência; contra a violência machista e a repressão política; contra o racismo e o extermínio; contra o ódio patrocinado pelos mais variados meios: façamos deste dia 8 de Março um dia em que, uma vez mais, eu e toda a equipe do Promundo estejamos lado a lado de outras vozes feministas, lutando por um dia com mulheres. Um dia em que as nossas vozes e de quem, como nós, luta contra o patriarcado, ecoem por todo o mundo.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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