OPINIÃO

Retomamos a Avenida Paulista. E foi lindo!

29/06/2015 16:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02
tiago queiroz/estadão conteúdo

A avenida Paulista foi entregue. Entregue às bicicletas, aos skatistas, aos patinadores, aos músicos de rua, aos vendedores de artesanato, às crianças, aos donos de cachorros e a todas as pessoas que acreditam que o melhor a fazer em um lindo domingo ensolarado de inverno é ir para a rua. Eu estive na avenida Paulista no dia 28 de junho de 2015 e vou contar para quem não teve a chance de estar lá: foi lindo.

A rua estava tomada. Eu ouvi uma banda rock, um cara com banquinho-e-violão e um saxononista solo que não me agradou muito com seu estilo Kenny G e bateria eletônica. Vi crianças encantadas com a performance de travestis (mas não entendi direito o que acontecia porque a plateia estava fazendo uma bela muralha para assistir a brincadeira). Vi um senhor andando para cima e para baixo levando o seu labrador imenso e gordo, de óculos escuros, loucamente equilibrado no cano da bicicleta, e latindo para quem quisesse ouvir: sim, aquilo estava acontecendo.

Vi muitos e muitos selfies e muitas gente fotografando a rua. A ciclovia, em si, estava tomada. Assim como as outras oito faixas, nos dois sentidos, cheias de gente e de vida. Eu só me perguntava: por que é que não fecharam isso aqui antes?

Há muitos motivos para quem mora em São Paulo comemorar a inauguração da ciclovia. É uma conquista simbólica, em um marco da cidade que já foi palco sangrento para mortes de ciclistas. (Este texto aqui enumera razões importantes para ficarmos felizes).

Eu andei pela avenida Paulista do início ao fim. Era o final da tarde, o clima estava ótimo. Encontrei um monte de conhecidos. Quando cheguei ao final da avenida, vi os batedores da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) empurrando as pessoas para seu lugar original: a calçada. Atrás deles, os carros, os de sempre, os de todos os dias, se enfileiravam para reocupar as ruas.

Quando os batedores passaram e os carros voltaram, todo o encantamento passou. Foi coisa de um minuto: de repente, parou a música, parou os gritos da criançada, voltaram buzinas e o barulho. Depois de ver situações tão extremas em tão pouco tempo, não tive a menor dúvida de qual cidade eu quero para mim. Eu quero aquela em que as ruas são para pessoas.

No Rio de Janeiro, a avenida Atlântica, que beira o mar da Praia de Copacabana, e o Aterro do Flamengo ficam fechados aos domingos. Viram área pública, de lazer, e principalmente de pessoas. Aqui em São Paulo, porém, a ideia de fechar a Paulista para carros aos domingos desagradou algumas pessoas. Chegaram a dizer que isso seria "deixá-la entregue" e que isso pioraria o trânsito em uma "ampla área da cidade".

Ouando eu estava no metrô, a caminho da Paulista, me surpreendi com o painel da CET: 0 km de congestionamento na cidade. Zero. Eu nunca tinha visto isso. Não é irônico que o dia de zero trânsito em São Paulo tenha sido também o dia em que a principal avenida da cidade tenha sido fechada para os carros?

Que esta retomada seja o início de muitas. Esta é a cidade onde merecemos morar.